O silêncio se estala no corredor quando o vimos terminar de consumir as almas, as veias de seu pescoço marcadas com sua magia de um roxo brilhante. Ele finalmente abaixa a máscara respirando um pouco antes de virar o rosto para a gente, inclinando a cabeça para o lado em um gesto perturbador.
–Oque? Não vão me dizer que nunca viram alguém comer, huh?–Disse sua voz sombria com uma pitada de sarcasmo no mesmo.
–Bom, não ceifadores... São poucos os casos de alguém ver um se alimentando–Respondeu a coelha, a voz um pouco trêmula. O baque da bota dele ecoa no assoalho da madeira, a casa de repente ficou tão quieta e o eco enchendo o local como se ele tivesse feito força com os pés.
–Esqueço que criaturas vivas como você não vê a própria morte. Mas já anjos, desprezam nossa raça e passam bem longe da gente–Continuou ele se apoiando na soleira olhando profundamente para mim.
–Eu não tenho nada haver com isso, temos um regimento rigoroso lá em cima em questões de raça. Isso não vale nem para vocês senhores da morte, tem também os demônios, e até mesmo as criaturas vivas, além dos animais, ficar bem longe dos seres humanos–Corrigi o ceifador dando um passo para frente, ouvindo a respiração dele. Aquela matilha de lobos deve ter cortado um nervo dele, pois ele estava esgotado de paciência.
–Claro, donos do mundo–Ele aproximou o rosto perto do meu–Mesquinhos e egoístas, não me admira muito vocês de nariz empinado.
–Ei... não vamos causar outra chacina, por favor?–Falou a mulher coelho puxando minha mão.
–Não, está tudo bem. Ele não iria me machucar, afinal estou indefesa e sem poderes por causa de minha asa–Me afastei, também não irei cutucar muito a onça com a vara pequena. Um inusitado aconteceu, a minha barriga roncou alto de repente.
–Oh alguém está partindo para uma briga agora certo?–Brincou o ceifador, tentando descontrair o momento de sua raiva iminente de antes–Ainda tem um pouco da comida do almoço que preparei antes, aproveite o banquete. Eu vou dar um passeio lá fora.
–Huh? Assim tão rápido? E quanto a gente?–Falei apontando para mim e para a coelha, quando ele passa por entre a gente, uma gosma negra derrete sobre os ombros dele dando forma como a sua capa longa e cheia de pluma nos ombros.
–Não se preocupe, a fada está no segundo andar. Ela também faz o serviço de guarda, então posso sair tranquilo sem que você esteja em perigo–Ele parou no caminho da porta de saída da frente, ainda de costas para mim–Só se você for burra o bastante de querer fugir da casa–Ele olhou por cima dos ombros especificamente para mim–Acredito eu que você não é....
–C-Claro que não–Resmunguei desviando olhar dele.
–Sei que não–Ele abriu a porta–Au revoir Mademoiselle–O ceifador fez uma reverência brincando e depois sumiu da porta fechando ela atrás de si.
Eu olhei para a coelha e nós rimos com a reverência, depois fomos para a cozinha conversar um pouco, enquanto esquentamos a comida. Ela me disse seu nome, Nina Olivier, ela falou um pouco de seus parentes, e que agora está morando com seu marido, Piter Carotte. Eu fiquei mais chocada quando ela revelou que é mãe de 10 filhos, 6 eram machos e 4 fêmeas. Ela não quis listar os nomes dos filhos, pois eram extensos demais.
–O ceifador me disse que você era um coelho mágico, isso se deve ao fato de você virar humana?–Perguntei colocando comida no prato.
–Não só isso, sou praticamente de magia também. Além da magia de cura que eu ofereci a você, também sei algumas coisas básicas como controlar alguns elementos da natureza. Antes de eu me casar eu estava morando em uma toca perto da vila dos elfos brancos–Confessou ela se lembrando de algumas coisas–Eu tinha aprendido algumas coisas lá quando eu trabalhava. E foi nesse caso que eu conheci Piter, ele veio de outro reino dos animais, ele era um soldado habilidoso.
–Oh entendi, ele deve ser forte mesmo hein–Eu ri um pouquinho quando fui me sentar na mesa.
–Claro, até hoje ele bota as raposas para correr da nossa toca–Exprimiu ela suas bochechas que antes pálidas, agora corando um pouco–E você? Você não deveria estar no céu?
–Deveria, mas é que aconteceu muitas coisas lá em cima. Ainda estou um pouco chateada com um assunto, mas quando eu voltar para lá eu vou esclarecer as coisas–Eu peguei uma colher e comecei a comer um pouco da comida.
–Acho que eu não deva meter minha patas no meio nessa excelência sobre o céu–Nina pensou um pouco–E quanto ao ceifador? Eu achei estranho ele manter um anjo em sua casa.
–Para falar a verdade, eu não sei e isso nem é a casa dele. E outra ele é gentil quando quer, ele não é lá aquele mar de rosas–Igual uma vez ele me tacou no chão com força, eu quase chorei de dor naquele dia.
–Deu a notar, mas acho que deve ser o tipo de criação não? Se bem me lembro muitas mulheres morrem a ter partos de ceifadores, ou outras entidades do terceiro reino–Explicou ela.
–Eu ouvi falar que o índice de mulheres por lá era escasso, é perceptível que ele não saiba tratar uma mulher bem se não convive com uma todo dia–Coloquei outra colher cheia na boca.
–Eu desejo boa sorte então. Ele parece não ser aquelas pessoas que gostam de ser cutucadas ao limite–Ela riu baixinho.
–Você jura? Ele pode ter uma cabeça azul, mas logo ela fica vermelha de raiva!–Brinquei me lembrando dos longos cabelos azulados que ele possuía que dava inveja. Imagino como é tocar aquele cabelo, se era macio, se era seboso, oleoso, ou cheio de nós.
O dia caiu, Nina tomou um banho e a fada que era nossa governanta tinha feito roupas novas tanto para mim e para ela com sua magia e de outras fadas invocadas por ela. Arrumamos nossos cabelos, falamos sobre alguns itens de maquiagem ou tatuagens brilhantes para festivais, também incluímos o assunto das pedrarias, das unhas, das jóias e tudo mais. Até que vimos que a lua já estava no céu, que inclusive está límpida, cheia de estrelas, não havia nuvem sequer, nós estávamos na sacada olhando para o céu. Até que ouvimos um barulho vindo da mata nós duas entramos para dentro até que um galho quebrou bem atrás de nós. Nós, duas mulheres, à noite, demos um salto para longe olhando para trás imaginando mil possibilidades de serem criaturas da noite.
–Huuuu, eu vou puxar seus pés de noite–O ceifador ergueu as mãos para assustar.
–Oh pelos céus, é você–Falei ofegante colocando a mão o coração para me acalmar.
–Quem mais você espera, princesa?–Ele aproximou-se da casa–De qualquer forma, vim dar notícias que não ficarei muito tempo, pois eu voltaria para mata novamente e voltarei amanhã de manhã ou no horário de almoço–Avisou ele, até Nina bocejou de sono, eu olhei para ela e mandei ela entrar para dormir no meu quarto.
–Boa noite Ceifador, e tome cuidado–Disse Nina indo embora–Sustos me fazem ter uma crise de sono...
–Bem então, cuidado né?–Eu voltei meu olhar para ele e encolhi os ombros dando meia volta para entrar dentro da casa.
–Eu precisarei...–Murmurou o ceifador para si mesmo desviando o olhar para a janela do segundo andar.
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Atualizado até capítulo 98
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