Havia se passado quase um mês Eu estava em meu escritório, olhando para a tela do computador com várias planilhas abertas, quando meu telefone tocou. A essa altura do dia, eu já estava cansada de ouvir aquele som. Mas, ao ver que era Pierre, atendi. Ele sempre tinha algo interessante para dizer, ou pelo menos alguma piada para aliviar o estresse do trabalho.
- Oi, Pierre. Digo ao atender tentando não parecer tão exausta quanto me sentia.
- Oi, Emy. Eu queria te dar um toque. O Ren não para de ligar. Ele disse que quer marcar um jantar com você. A voz de Pierre tinha um tom meio desconfiado.
- Aff! Eu digo.
- Ele disse que é para cobrar um favor que você deve para ele. Diz Pierre.
- Ah, claro. O "favor"! Eu digo insatisfeita.
- E que favor é esse? Pierre pergunta.
- A algumas semanas eu estava andando na antiga estrada que leva a antiga ferrovia. E a Trovão parou do nada. O celular não tinha sinal, era tarde da noite e por sorte. Ren estava passando e me trouxe até em casa. Mas disse que eu ia ficar lhe devendo. Bem...eu não tinha opção por isso aceitei. Eu digo.
- Você perdeu o juizo! O que fazia por aqueles lados. Aquele lugar é deserto. Ficou maluca. Ele diz alterando a voz.
- É por isso que eu não tinha te contado. Não queria ouvir sermão. Eu digo revirando os olhos.
Ren aparecer naquela hora foi sorte, ou não! Se bem que estou começando me arrepender de ter aceitado a ajuda.
Eu sabia que isso iria voltar para me assombrar mais cedo ou mais tarde. Ren Nakata sempre foi assim. Uma mão ajuda e a outra já está cobrando o pagamento.
Suspirei, rolando a cadeira para longe da mesa.
- Posso marcar o tal jantar? Pierre pergunta.
- Nãããoooo! Eu grito.
- Pierre, invente uma desculpa para ele. Diga que estou muito ocupada, a agenda cheia ou que tenho uma reunião de emergência. Qualquer coisa. Eu não estou a fim de jantar com ele. Eu digo.
Pierre riu do outro lado da linha.
- Posso dizer que você tem um encontro com o Henrique? Isso pode assustá-lo. Ele diz.
- Não faça isso. E por falar nisso essa estória morreu aqui. Nuna mais toque nesse maldito assunto. Isso nunca aconteceu. Eu digo, Pierre ri.
- Invente algo mais... realista. Diga que tenho uma viagem marcada para um evento corporativo, ou que estou doente. Mas, por favor, nada que envolva minha vida particular. Eu digo seriamente.
- Entendi. Vou dizer que você está com uma 'agenda carregada' e que ele vai ter que esperar mais um pouco pelo jantar. Pierre respondeu, ainda com um tom brincalhão.
- Sabe, Emy, esse Ren é persistente. Você tem que admitir. Ele não desiste facilmente. Ele diz.
- Persistente ou irritante, ainda estou decidindo. Respondi, girando a cadeira para olhar pela janela.
- Só me livre dele por enquanto. Preciso de um tempo longe dessas cobranças. Eu concluo.
- Deixa comigo. Eu sou mestre em afastar pessoas inconvenientes. Pierre disse, a voz cheia de confiança.
- Eu falo para ele que você está em um retiro de meditação para CEOs estressados, ou que foi chamada para um workshop sobre estratégias de mercado no Alasca. Qualquer coisa para deixar claro que você não está disponível. Ele diz rindo.
Eu começo a rir da criatividade de Pierre. Era bom ter alguém como ele ao meu lado.
- Eu confio em você para inventar algo bom. Só não quero ter que lidar com Ren por um tempo. Tenho coisas mais importantes para me preocupar. Eu digo.
- Considera feito. Pierre respondeu, e eu podia imaginar o sorriso dele do outro lado do telefone.
- Agora, vê se descansa um pouco. Não quero ter que inventar uma desculpa para você se precisar de uma licença médica. Até mais, Emy. Ele diz.
- Até mais, Pierre. Respondi, desligando o telefone. Senti um certo alívio sabendo que não teria que lidar com Ren Nakata por pelo menos mais um dia. Agora, eu poderia me concentrar no trabalho e deixar as cobranças para depois. Quem sabe, talvez até arranjar um tempo para respirar um pouco.
O alívio que senti por não ter que lidar com Ren Nakata durou apenas alguns segundos. Assim que desliguei o telefone, uma notificação apareceu na tela do meu celular. Uma mensagem do lar de idosos onde meu pai estava internado.
"Precisamos que venha aqui. Urgente."
Meu coração começou a acelerar, uma mistura de ansiedade e um medo que eu não sentia há muito tempo. Eles nunca me mandavam mensagens a menos que fosse algo sério. Normalmente, as atualizações vinham em relatórios mensais ou ligações informais para me manter atualizada sobre sua condição, que não mudava há anos. O que poderia ter acontecido? Algo deu errado? Alguma complicação?
Eu olhei ao redor do escritório, tentando processar a notícia. A sala, que antes parecia tão segura, agora parecia fria e desconfortável. Minhas mãos tremiam um pouco enquanto pegava minha bolsa e as chaves do carro. Precisava sair dali. Precisava chegar ao lar de idosos o mais rápido possível.
Ah última visita ao lar não foi fácil e a um bom tempo eu não ia até o quarto onde meu vive. Nunca mais o tinha visto, nem sei como ele está.
Somente quem enfrenta uma situação sabe como é doloroso. E a sensação de incapacidade é enorme. Do que me adianta ter tanto dinheiro, se a saúde eu não posso comprar.
E tudo que eu queria era poder comprar saúde para meu pai. Eu prefiro guardar as lembranças daquele homem forte e corajoso. Que me ensinou a montar e desmontar o motor de uma moto. Pois, ele era apaixonado por motos "Harley Davidson".
E eu herdei essa paixão por motos e velocidade. Era desse homem que eu queria me lembrar. E não daquele corpo imóvel sobre uma cama.
O tempo todo eu repetia a mim mesma.
- Aquele não é mais o meu Pai. Ele morreu a mais de 10 anos.
Pode parecer cruel e até desumano. Mas foi a forma que inventei de impedir a dor e o sofrimento que já afligem meu coração. Talvez eu tome coragem e vá até o quarto. Até que esse dia chegue...permaneço da mesma forma.
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Atualizado até capítulo 84
Comments
Ingrid Lopes
Um toque autora, quando vc se referir a tempo, como no início desse parágrafo, o "há" deve ser como coloquei entre aspas, porq vc pode trocar por "faz": "Faz algumas semanas..."
2024-12-26
1
Leide Andrade
é cada um com sua maneira de enfrentar os problemas!
2024-11-07
0
Amanda
Estou apreensiva 😬😬😬
2024-06-30
0