16

Até onde me lembro, minha vida sempre foi assim... solitária. Até alguns anos atrás, eu só tinha um amigo (amiga). Isso mudou quando entrei no ensino médio , fiz novas amizades. Foi divertido viver aqueles dias... Era tudo tão simples, eu havia encontrado minha paz e refúgio naqueles que conhecia como amigos.

Mas agora... Tá tudo destruído. Não há mais nada dentro desse corpo vazio, tudo o que eu vejo quando olho no espelho... é um covarde....um inútil, que não serve pra nada, um completo lixo... não, esse talvez fosse um reflexo do meu antigo eu, alguém que não me representa mais...hoje, hoje eu vivo apenas para recuperar o que é meu...naquele dia eu decidi que ia parar de temer, eu viveria para eliminar cada coisa que passasse pelo meu caminho...incluindo as anomalias.

Pois foi isso que eu decid-

— Acordaaa!! — uma voz estridente grita em meus ouvidos

— não grite, Lili, ele está desacordado!

—...

Aos poucos minha consciência estava voltando

—hm...?

— ele tá acordando!

— sério? Que ótimo, Lili!

Onde...eu tô...e quem são essas vozes? Minha visão ainda estava um pouco turva, antes que eu reconhecesse algo

— você dorme bastante, seu dorminhoco haha! — exclama uma das garotas, aparentemente a mais nova

— você está bem? — a outra garota mais velha pergunta

— claro que ele tá, não tá vendo sara?

Parece que o nome de uma delas é Lili... e a mais velha é sara, guardar os nomes delas possa ser útil...

— Claro que tô vendo... é que...

Enquanto minha visão se acostumava com o ambiente, eu me mantive atento observando o novo local em que eu estava, o local parecia ser uma pequena casa e eu estava dentro de um quarto, com duas garotas que aparentavam ser humanas, tirando um único detalhe. eu continuei calado.

— e aí? Não vai falar nada?

—...

Rapidamente sou surpreendido com o comportamento repentino da garotinha

— as orelhas dele são estranhas

— A-as orelhas dele são? N-não tem nada de errado com elas Lili, não seja rude — sara responde um pouco nervosa

— Tem algo estranho nele

— N-não tem nada, Lili

— você vai acabar assustando ele se continuar com isso

— vá para fora, E-eu preciso falar com ele

— hmm... Não sei, eu ainda quero conversar com ele — Lili resmunga enquanto levanta a sombrancelha

— por favor Lili...

Após muita insistência, Lili decide sair

— tá bom...

Ela caminha para fora do quarto, ao menos era o que aquele local parecia...

Minutos se passaram desde que Lili saiu, sara e eu permanecemos calados aguardando alguém dar o primeiro passo, ou falar a primeira palavra.

Essa garota...parece inocente, mas esconde algo, a lança ao lado revela isso, uma lança parecida com a dos guardas que levaram Beatriz...ela está aguardando um vacilo pra poder fazer algo.

— então...

— por favor, peço que permaneça em silêncio

A expressão de uma garota angelical muda completamente, transbordando uma aura de um demônio

— primeiro de tudo... você não é um de nós, não é mesmo?

— então...o que alguém como você faz aqui?

— eu...

Ela tá falando isso por saber que eu sou humano?

Por mais que eu quisesse dizer que eu fui atraído para esse lugar...eu não conseguia dizer nada, as palavras ficaram presas na minha garganta, esperando um momento para sair

— Responda, o que veio fazer aqui? — o tom de voz dela parecia um pouco mais sério, com um toque de irritação

—...

— admita... você veio pra nos caçar, não é?

— Nã-

— É SOMENTE PRA ISSO QUE VOCÊS HUMANOS VIVEM!

— Você veio pra nos dizimar e trazer dor...

Ela não estava errada, quando disse em que eu vim para caçar...mas, não era ela a minha presa, eu acabei seguindo um deles e acabei preso aqui...

— bom, independente do motivo pelo qual você está aqui, peço... imploro para que por favor vá embora

Seus olhos pareciam estar molhados com lágrimas, Suas palavras pareciam sinceras, e não parecia buscar guerra...ela estava protegendo apenas quem ama...assim como nós humanos

mas...

—Não posso...

— o que disse?

— eu não posso sair... não ainda —

Eu nem sei como sair daqui, pra início de conversa...mas Eu sabia que ainda havia algo a se fazer nessa ilha, eu ainda tenho esperanças de que Beatriz e Ticky estejam bem...ao menos vivos, é por isso... é por isso que eu vou ficar.

— Acho que você não está entendendo — ela dá um passo a frente

Rapidamente olho para os lados e buscando o meu machado

— tá procurando algo?... É o machado, não é?

— Impossível...

— como? — respondo assustado

— como eu sei? Isso é meio óbvio...

— a propósito, onde conseguiu ele? — ela estica sua mão para alcançar a lança

— dependendo da resposta...

— eu decidirei se eu irei ou não, te matar

Ela sabe de algo, ela conhecia aquele velho? Era conhecida dele? E-eu fiz besteira...

— quem é você?

— sara, mas ele não vai ser importante se você estiver morto

sem pensar duas vezes, ela puxa a lança e pressiona a ponta contra meu pescoço

— você não vai ter a mesma sorte de antes... Diga suas últimas palavras

— Cala a boca!

Meus braços reagem, fazendo força para afastar a ponta da lança, sua aparência fofa escondia uma força bruta inimaginável

— depois que você morrer, eu direi para Lili que foi um acidente

— isso não vai acontecer

Sara fazia o dobro de forças para empurrar a ponta da lança contra meu pescoço

— não resista!

Controlando um pouco da força, eu movo a ponta para uma parte segura e permito que ela transpasse meu estômago, A lança adentra violentamente, rasgando completamente meu interior, acabando com meu plano anterior

— O que...o que você fe-

Ao baixar a guarda, sara recebe uma mordida violenta logo abaixo do seu pescoço, os dentes serram seus músculos, quase despedaçando, um pouco mais de força e ela estaria morta

— Aaaah! — ela recua um pouco

— S-seu...monstro —

— idiota... — retruco

Sangue transbordava do meu estômago... eu iria ficar sem comer por algum tempo, a regeneração vai ser útil...mas melhor não deixar ela sabendo disso

De repente, a porta se abre, revelando uma cena perturbadora

— Já conversaram!?

Lili adentra a porta, e rapidamente nota a cena, sara sangrando pelo pescoço e eu com um buraco no estômago

— O-o que aconteceu?

— C-calma Lili, não é nada disso

— N-não, Saraaa!

Antes de qualquer explicação, Lili corre desesperadamente batendo a porta, seus olhos corriam lágrimas de enquanto gritava por ajuda

— Você teve o que...o que queria... satisfeito?

— eu...eu nunca quis isso — tento falar enquanto sangue, Vaza de dentro do meu estômago

— Quem diria...que eu morreria justamente pra um humano — sara fala enquanto se senta na cama

— tudo... tudo que eu queria é que ela não tivesse me visto nesse estado

—...

— QUE DROGA!

Dois mortos em um único dia...quem diria em, talvez no fim, ela não tivesse a intenção de me matar, ou talvez queria... a culpa foi minha, que forcei ela a utilizar mais força...receber o golpe também foi proposital

— Quando foi...quando foi que eu mudei tanto, a ponto de matar alguém?

*Cof* *Cof*

Um mar de sangue jorrava de dentro de mim

— você provou...

— huh?...

— você provou que os seres humanos são uma raça podre e desprezível, que só pensa em matança...

— vocês... vocês também não são muito gentis

— Vocês??

— idiot-...

Ela apagou...

É realmente meu fim?...parece patético demais pra acabar aqui...

Lentamente me arrasto até a cama, estendo a minha mão e aplico o efeito de cura sobre o ferimento, não havia certeza de que aquilo iria funcionar... não funcionou no lobo, espero que não seja o mesmo caso.

Os ferimentos aos poucos cicatrizavam magicamente, as marcas dos meus dentes também estavam sumindo, o sangramento logo parou...

— foi mal aí... Sara, não era pra ser assim.

Bom...agora seria minha vez, suavemente aprofundo minha mão sobre o buraco causado pela lança e libero o efeito de regeneração, a sensação da luz é aquecedora... aquilo era tão bom, me lembrava da época em que tudo era mais simples... época essa que nunca existiu.

Aos poucos os ferimentos iam se fechando, eu estava ficando bom em fazer aquilo, é como dizem, a prática leva à perfeição

— eles...Eles estão aqui!

— Sara! — uma voz um pouco mais grossa, grita

— tá tudo bem?

— ela... Ela está

Parecia ser algum médico, ele era um idoso se comparado as outras duas garotas

— ela está bem, apenas inconsciente

funcionou dessa vez...ainda bem, Eu ainda não sou um assassino...

Após saber que sara havia sobrevivido, Arthur é tomado por uma onda de alívio, seus olhos lentamente se fecham, permitindo um momento de descanso

Horas se passaram desde o ocorrido

— o que aconteceu sara?

— Não... não foi nada

Sussurros podiam ser escutados, uma voz que parecia ser de sara e a outra ainda é desconhecida

— ele... Ele é um humano

— que?... — a outra pessoa recua um pouco assustado

— sim... É isso mesmo

— mas isso é impossível

— o que faremos com ele? — sara pergunta

—eu não sei...mas não podemos deixar as outras pessoas saberem disso, entendeu sara?

— podem haver mais deles por aí... Pode ser perigoso

— sim...

— mantenha ele próximo de você a todos instante

— Bom...eu vou indo, fique de olho nele

O quarto volta a ficar silencioso novamente, mesmo não enxergando muita coisa, eu pudia sentir a presença de sara no quarto...eu estava deitado novamente como antes

— falando mal de mim...sara?

— huh... você acordou... era melhor que estivesse morto seu desgraçado

— digo o mesmo de você...

— idiota... — sara resmunga

Nos encaramos por alguns segundos, antes que um de nós dois falasse algo

— só deixando claro, que isso não teria acontecido se você não tivesse tentado me matar...

— agora a culpa é minha?

— você deveria estar grato por Herman ter nos curado

Então Ela não sabe que fui que a curei...

— É... — concordo

Repentinamente a porta se abre

— Vocês acordaram!!!

Que bom!!

Lili adentra gritando, demonstrando entusiasmo pela nossa melhora, sua animação era nítida e iluminava o ambiente que outrora estava sombrio

— Como se sente?

— eu já falei que estou bem, Lili

— você não, sara. Perguntei a ele

—...

— eu tô...bem

— espero que se lembre do que conversamos — sara sussurra no meu ouvido enquanto se retira do quarto

— fique de olho nele, Lili

— pode deixar!

Após a saída de sara, Lili me encara por alguns segundos antes de falar algo

—...

— é...

— de onde você veio?

— qual seu nome?

— por que tava caído no chão?

—É...

Minha mente seu esforça para dar uma resposta boa o suficiente para convence-la.

A irmã dela provavelmente está escondendo o fato de eu ser um humano...por algum motivo

— e o que aconteceu com suas orelhas?

— o que aconteceu?...

— elas...

— elas....

— Elas caíram...acredita?

—...

Lili volta a me encarar por alguns momentos, minha resposta teria sido boa o suficiente para convence-la? Mas inesperadamente...

— Wow! Que demais!!

— Como elas caíram?

— é... Um dia eu acordei e elas tinham se descolado da minha cabeça

As orelhas de lobo são um dos traços mais chamativos em Lili e sara... não só nela mas em todas as pessoas que eu já vi antes, as orelhas delas não são como as minhas, então é normal que ela ache estranho...

— você é estranho haha

— as orelhas do meu papai também caíram

— caíram, é?...

— sim!

— mas mesmo assim, ele era bem forte

— entendi...

Só por essa informação, já dava pra deduzir o que estava acontecendo naquele momento... Com certeza é surpreendente saber disso

— qual o seu nome?

— o meu?...

— é! Qual é?

Eu não queria ter que mentir mas... Pela minha própria segurança...

— meu nome é...

— é segredo

— segredo?

— isso, meu nome é segredo

— hmm...que nome estranho

— sim...

— gostei haha!

Ufa... A mentira parece ter colado por enquanto... Enquanto continuamos conversando, alguns minutos se passam e sara retorna

— oh! A sua comida chegou, a comida de sara é a melhor, sabia?

— não é pra tanto, Lili

Ela se aproxima e me entrega uma tigela com algo que parecia ser um pouco de sopa...

— não se preocupe, não coloquei veneno, mas bem que você merecia — sara sussurra em meu ouvido

—...

— bom apetite — ela responde com um tom irônico

Com educação, eu recebo a tigela, aproximo a minha boca e bebo todo o conteúdo de uma vez só

— estava bom, obrigado—

— Ooh! Impressionante — Lili bate palmas enquanto me parabeniza pela velocidade na qual eu tomei a sopa

*Tsc*

— idiota... — Sara lança um olhar de reprovação, enquanto recolhe a tigela

Após algum tempo, todos passam a se encarar, esperando novamente alguém dizer a primeira palavra para se iniciar uma conversa

— de onde você veio?? — Lili pergunta com empolgação

— de onde eu vim?

— é mesmo...de onde você veio, em? — sara pergunta em um tom de sarcasmo

— De onde eu vim...

Ambas aguardam ansiosamente pela minha resposta, eu precisaria ser cuidadoso, evitando mentiras

— eu vim de fora da ilha

— Wow! Sério? — Lili grita de empolgação

— sim...eu enfrentei tempestades para chegar aqui, matei criaturas e quase morri

— que tipo de criaturas?

— pássaros elétricos...serpentes aquáticas e...

— E...?

— mentiroso... — sara resmunga

— então é por isso que você tava caído? Haha

— sim...

Era uma boa mentira...por mais que só houvesse verdades nela, eu realmente enfrentei uma tempestade...matei criaturas e perdi meus amigos

— e por que veio até aqui? — sara pergunta

— foi um acidente, enquanto eu viajava, acabei encontrando esse lugar

— então você tá perdido!?

— acho que sim, Lili... — respondo

Lili parece acreditar em minhas palavras, diferente de sara que parecia ainda mais desconfiada que antes, o clima segue morno e já era noite

— tudo bem, chega de histórias tá meio tarde Lili, tá na hora de dormir

— quee? Mas por que, sara??

— por que sim, vai pro seu quarto

— mas eu quero conversar mais

As duas discutem, enquanto Lili tenta convencer sara a continuar acordada. O interrogatório parecia estar perto de chegar ao fim, mas sara não facilitaria as coisas

— vá agora Lili, não vou repetir mais

— aah, chata

Lili resmunga e segue em direção ao seu quarto

— amanhã conversamos mais!

— tudo bem...eu acho — retribuo o sorriso de Lili

O clima volta a ser o mesmo de antes, e eu sentia a avalanche de perguntas que se aproximava, vindo de sara, mas inesperadamente...

— sabe...

— eu não concordo que fique aqui nesse mundo e muito menos acredito nessa sua história

— mas é melhor te manter perto e visível aos meus olhos... então te deixarei ficar...por enquanto

— entendido?

Meus olhos se fixam aos dela, com uma expressão inicialmente séria, eu respondo

— como quiser...

Eu não teria para onde fugir mesmo... A resposta parecia ser satisfatória aos olhos de sara, por mais que não parecessem, essas eram palavras verdadeiras.

— não ouse fugir e nem faça nada de suspeito

— pra onde mais eu iria?

Ela hesita em responder, provavelmente aceitando o fato de que não haveria outro refúgio para que eu pudesse me esconder

Ela se retira do quarto, fechando a porta atrás de si. Ainda sentado na cama, reflito sobre a situação. Estar preso neste lugar misterioso, rodeado por pessoas que parecem esconder segredos obscuros, gera uma sensação de inquietação.

O tempo passa devagar enquanto encaro o teto. As palavras de sara ecoam na minha mente, e uma dúvida persiste: por que ela decidiu me deixar ficar? Seria apenas por precaução, como uma forma de me manter sob controle, ou há algo mais em jogo?

Meus olhos aos poucos vão se fechando e o sono logo chega, minha mente e levada a uma dimensão diferente dessa, uma dimensão onde meus problemas atuais não existem.

No dia seguinte, sou acordado por batidas suaves na porta. Lili entra com um sorriso no rosto, ignorando as regras estabelecidas por sua irmã.

— Bom dia! Já acordou? — ela cumprimenta animada.

— Bom dia, Lili. Sim, já acordei.

Lili parece não se importar muito com as formalidades, o que cria um contraste evidente com a postura mais rígida de sara. Enquanto conversamos, percebo que Lili é mais receptiva, ansiosa para compartilhar histórias e fazer perguntas sobre o mundo fora da ilha.

— Você já viu muitas coisas legais lá fora? — ela pergunta, os olhos brilhando de curiosidade.

— ainda não

— nossa vila é pequena, mas é bem receptiva, sabia?

— mesmo?

— sim! Vamos sair um pouc-

Antes que pudesse terminar de falar, sara interrompe Lili

— Ele não vai não

— que? Claro que vai! Ele precisa conhecer a vila

— não há nada para se mostrar a ele, Lili

— mas...mas!

Sara se aproxima e com um tom sério me diz algo

— Não importa o que ela diga, você não vai sair... não sem minha permissão

— então eu vou sair?

— eu... eu ainda não sei

A decisão de me permitir sair ou não, parecia ser algo profundo, quais os perigos de se sair lá pra fora? Não é como se todo mundo fosse me matar

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