Quando desembarcamos na estação ,me despeço daquele lindo gigante , que tão majestosamente nos trouxe até aqui, e já sinto a visível diferença do clima.
Bem mais frio do que estamos acostumadas. Sorrio de Ciri, se encolhendo toda.
Recebemos casacos mais grossos para nos ajudar a nos manter aquecidas.
Outra linda carruagem já nos aguardava , e o cocheiro já fixou os olhos em nós, estranhando a nossa presença ao lado do patrão.
- Como vai Francisco , as estradas estão seguras?
- Sim sr, patrão, sem chuvas, só a poeira vai atrapalhar um pouco e sujar as belas damas que o acompanham.A policia tem feito um bom trabalho por estas bandas. Nos mantendo livre de salteadores.
-Ótimo.
-Podemos ir agora. Sr.
- Esta é Adelaide , minha esposa, e a sua dama, a jovem Ciri.
O homem arregala os olhos , surpreso. O patrão passa alguns dias fora e volta casado?
Mais a submissão e o respeito ao patrão não o deixaram indagar, afinal, casamentos por conveniências são mesmo comuns em nossa época.
Talvez sua maior surpresa fosse mesmo por minha idade aparente, perto da dele.
Ele tem 55 e eu tenho apenas 19. Uma menina perto dele, apesar de bem conservado as rugas e o grisalho lhe denunciam.
Mais com certeza eu chamei muito a sua atenção. Como aliás a de todos por onde passamos. Tanto que, se o sr Otto fosse meu marido de verdade, teria surtado de tanto ciúmes.
Ele ajuda os serviçais a transportar nossa bagagem, pouca coisa, pois o sr Otto me garantiu que eu e ela teríamos vestidos novos a nosso gosto sempre que desejássemos.
Casei-me com um dos maiores produtores de café da região e talvez do país.
Então trouxemos apenas o essencial para duas jovens mulheres como nós.
Embarcamos novamente ,e aí sim, começo a ver em pouco tempo a extenção das terras daquele homem.
Uma imensidão.
Ele me mostra orgulhoso as suas fazendas, duas só próximas uma da outra, fora as terras que ficavam depois das margens do rio.
De fato era de impressionar. Como será que ficou tão rico em tão pouco tempo?
Mamãe me contou que ele foi embora de Valedouro a cerca de 30 anos e só a alguns , bem poucos, de fato prosperou.
Só espero que não seja um comerciante ilegal.
Sempre vivi minha vida inteira na cidade e poucas vezes fui ao campo, mais aquele clima, já estava me deixando bem animada com minha estadia por ali.
Com certeza farei longas caminhadas por aqueles campos.
Cerca de uma hora , pela estrada de chão batido e logo avistaríamos a entrada de sua propriedade principal.
Uma cerca branca a se perder de vista com um campo no fundo e a casa principal no centro.
E ao lado ,O moinho e a casa de torra, com certeza para o café. Esta era imensa.
Um pouco mais atrás uma casa menor, feita de barro O que supus com grande tristeza ser a casa dos escravos. Pois ainda não conversamos sobre isto.
Porem um homem com seu status com certeza tem escravos, só espero que os trate bem, ou vamos ter um pequeno ajuste em nosso contrato.
E ao chegarmos a entrada, constato que sim, ele tem escravos. Mas são bem diferentes dos que costumamos ver.
Estes estão bem vestidos, e calçados, então não são escravos qualquer, acho que o generoso patrão deve trata-los apenas como servos.
Já deve estar se habituando a nova revolução que em breve libertará de vez a todos os escravos no Brasil.
Espero mesmo que sim.
Meu pai era totalmente contra esta prática e aprendi com ele a repudiar também.
Fomos recebidos com grande alegria. Acho que o lugar sentiu sua falta.
Servos e escravos sorriam e cumprimentavam de longe o distinto sr Otto.
Sr Otto me ajudou a descer da carruagem, e quando pisei os pés no chão, meu corpo gelou.
Agora sim, nosso contrato vai começar.
Olho discretamente ao redor e não vejo nenhum sinal dos filhos, pois logo os discerniria ou eles não seriam capazes de vir receber o pai depois de uma longa viagem como estas?
- Venha Adelaide, vou leva-la até a D . Maria, a inha da casa.
Deve ser a governanta ou algo do tipo.
Subo os seis degraus que separam o chão da entrada da casa, e olho para trás, contemplando o belo lugar.
Acho que serei feliz por aqui.
Depois sigo atrás dele e Ciri atrás de mim, e ao entrar, que beleza de casa. Nem parece que estamos no campo.
O estilo vitoriano em sua essência e requinte.
Seria obra dele ou de sua falecida esposa? Com certeza dela.
A beleza é extasiante.
Olhamos ao redor admiradas. E eu comento da beleza. E Sr Otto me responde alegre por ter alguém que se interesse pelo que vê.
Cresci cercada de pessoas ricas e frequentando lugares refinados, mais aquela casa de fato me impactou.
Ele me fala alguma coisa sobre a decoração mais confesso que não entendi muito bem
Fomos interrompidos bruscamente.
Virei-me afim de encontrar o dono dela. Pois era uma voz firme , grossa e de tom abafado, e chamou-me muito mais atenção.
- Pai, já em casa? pensei que só chegaria amanhã...
- Mudança de planos .
Os olhos do interlocutor do meu marido passeiam pelo ambiente até encontrar a dona da bela voz que conversava com tanto entusiasmo com seu pai:
Eu.
Ele se levanta da poltrona de braços largos e se adianta sem tirar os olhos de mim. Ignorando a presença do pai
Um olhar firme, intenso, que me fez tremer só em corresponder.
Um azul tão límpido que mais parecia o próprio mar.Olhos apertadinhos e sobrancelhas grossas. O rosto fechado como uma porta e o maxilar largo, trincado , tão firmemente que vi suas bochechas se movendo em atrito com ele.
- E você quem é?- Fala entre dentes.
A pergunta foi de um tom esmagador, e eu fiquei na dúvida se respondia ou não. Mesmo por que nem sei se consigo falar.
A presença daquele homem me petrificou.Poucos tem este efeito sobre mim. Se é bom ou ruim, ainda não sei. Só sei que parei. Meu coração acelerou na hora, e minha respiração acho que perdeu o rumo dos meus pulmões, minhas pernas bambearam.
Apertei as mãos para voltar o sangue ao meu corpo.
Que medo daquele estranho!
- Boa tarde para você também , filho. Esta é minha esposa, Adelaide.
Sr Otto responde ainda mais firme e de forma autoritária, mostrando que está ali.
Agora vejo zombaria em seus olhos. Ele franze o cenho e me analisa sem piscar.
Me varre de cima a baixo. De dentro para fora.Com aquele ar de superioridade que me irrita nos homens.
Como se eu fosse um inseto na sua sopa.
- Esposa?- Pergunta num tom irônico. Agora acho que meu sangue ferve e pula pra fora.
O pai se põe atrás de mim e coloca as mãos em meus ombros.
- SiM. Casei-me faz uma semana, eu a trouxe da minha cidade natal.
O rapaz alto de porte elegante , alinha os cabelos soltos com apenas uma mão. Depois abre os braços em sinal de confusão.
- Casou-se? Mas como assim? O sr não foi a negócios?
Sr Otto sorri e põe uma mão me enlaçando os ombros.
- Exatamente. Um belo negócio, não acha filho? Encantei-me por esta prima e como ela estava livre, e eu também, resolvi traze-la logo comigo. Já tinha um acordo com o pai dela e agora, ela é a nova sra Montanese.
- Sem nos consultar antes pai? O sr não acha que deveríamos saber que teríamos uma madrasta? E ainda por cima... tão...jovem...
Seu tom foi de quase ameaça ao pai. Mais o confiante sr não se deixou intimidar. Engulo seco, pois vejo que há um forte impasse ali.E eu sou uma causa, ou apenas o agravante?
- Desde quando um pai precisa da autorização dos filhos para encontrar uma companheira? E pelo que me consta, na nossa ultima conversa, você me deixou bem claro que, o que faço da minha vida é da minha conta e, vice versa lembra?
Ele sorri mordendo o lábio. Aponta o dedo com ar desdenhoso para o pai.
-Ponto para o sr, velho Otto.O sr está certo.Parabens, por seu, c–a-s-a-m-e-n-t-o.
Ele zomba nitidamente do sr Otto e aquilo irritou até a mim. Se me fosse permitido falar, e eu conseguisse abrir a boca,falaria umas poucas e boas aquele insolente, que trata o pai de forma tão desrespeitosa na frente da esposa que aliás ele nem conhece.
Quem ele pensa que é?
Por aquelas breves palavras de extrema frieza entre os dois, tive uma ideia do que vou presenciar dalí para a frente. Espero que pelo menos o outro irmão, seja menos rude , pois aquele ali , já me deixou de orelha em pé com ele.
Grosso desrespeitoso e irritante.
O pai viaja a negócios em prol do futuro dele, e quando chega ao invés de um “seja bem vindo de volta” , recebe um “ o sr agiu errado sem nos consultar”. Que filho ingrato e malcriado.
Sua expressão fechada, reflete bem o que parece que tem em seu coração: Rancor e escuridão. Embora o rosto bonito dê espaço a imaginação de que ali tem um.
Será que o pai tem culpa neste tipo de comportamento, ou o rapaz é assim por sua própria conta e falta de senso?
Seja como for , não gostei dele. E tomei para mim as dores do sr Otto.
Num ato de estrema surpresa para mim, após se encararem por alguns segundos, sr Otto me dá um beijo rápido no rosto . Sem tirar os olhos do filho.
-Vamos querida Adele Vou leva-la até a inha Maria , e depois ela vai providenciar seus aposentos, você precisa descansar, e mais tarde eu a levo para conhecer o resto da casa e... da minha amorosa família.
Acompanho meu marido depois de uma leve reverencia ao meu novo “enteado” sim, pois é isto o que é. Apesar de parecer bem mais velho do que eu.
Saímos da sala, onde o mal educado rapaz ficou a nos observar enquanto caminhávamos pelo longo corredor até a parte de trás da bela casa,aonde ficava a cozinha.
Tenho poucas certezas do que viverei ali, mais uma delas, é bem realista: Aquele filho arrogante eeu não vamos nos dar bem.

Só não entendei bem a reação do meu corpo aquele olhar .
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Atualizado até capítulo 76
Comments
jocilene dos santos silva
T
2024-09-07
0
VÓ CICI
Enfim um verdadeiro ogro 🥴🥴
2023-12-02
3
Maria De Fatima Carvalho
só quero ver o que vai rolar kk
2023-11-24
0