Penso contendo as minhas lágrimas, como chegamos a isto?
Agora não resta mais nada a não ser encontrar um lugar para viver e sobreviver.
Nos dias seguintes sai em busca de uma casa mais simples e pudesse comportar o pouco que nos sobrou. Mas como previsto, ninguem em sã consciência ia querer alugar um imóvel a duas mulheres sozinhas como nós.E sem recursos aparentes.
Nem a amizade de algumas famílias que antes comiam a nossa mesa, fez com que confiassem em nós.
São mesmo uns interesseiros.
Portas fechadas na cara e muitos nãos.
No fim do terceiro dia, com a chegada da noite a angustia. Amanhã teremos que sair, para evitar um escândalo maior que a nossa expulsão causaria.
Arrumamos tudo o que tínhamos em alguns baús e amarramos o resto em lençóis , caixas de madeira para itens de cozinha e costura e os objetos pessoais pequenos em baús menores.
Minha mãe está inquieta, pois tivemos que dispensar os últimos serviçais e apenas Ciri , a leal Ciri e nossa cozinheira, Ava , e o cocheiro senhor Kamut, que meu pai resgatou de um mercador de escravos, ficaram conosco.
Uma senhora alegre que por não ter família disse que não nos largaria por nada e ficamos as quatro ali, paradas na sala quase vazia.
Ela dá uma volta tocando as paredes que ainda tem o tom alegre da pintura e dos papéis de parede de tons claros que pela falta de manutenção, já começam a se soltar, os candelabros de parede e os quadros de família , que não teríamos com transportar, já que não sabemos mesmo para aonde ir.
Na cidade tem um abrigo para mulheres sozinhas e algumas delas são bem vindas as minas para ajudar com um ou outro mineiro que se fere, ou para ajudar a separar os pequenos cascalhos do mineral extraído das pedras. Por terem mãos pequenas com dedos finos e olhos atentos, mulheres e crianças sem renda fixa , são selecionados diariamente por algumas moedas. Outras trabalham em cozinhas, ou arrumadeiras, passadeiras ou lavandeiras...seja como for, vamos ter que trabalhar por lá. E foi com esta única opção que aguardávamos a madrugada para partir sem chamar muito a atenção.
Apesar da eminente miséria, o orgulho ainda dá suspiros.
Como levaram nossas camas, estávamos dormindo todos na sala, embrulhados e com a cabeça recostada em algumas almofadas, com renda inglesa, que passaram despercebidas por aquele inventariante do banco. As mulheres de um lado e nosso cocheiro. Kamut, pois era de origem africana, que ficava próximo da janela, vigiando para não sermos atacadas por algum baderneiro aproveitador querendo se divertir com mulheres sem marido para protege-las.
Que triste destino o nosso, mais ainda tenho fé que algo de bom vai acontecer, ou melhor, vai acontecer, só depende mesmo de mim, agora.
Então quando naquela nossa ultima noite na casa vazia, eu vejo todos dormirem , e olho para minha doce mãe, calejada de tanto tentar, e não conseguir, eu tomo a minha decisão.
É contra tudo o que desejo e sonho, mais se é para não ver aquelas ultimas pessoas que me sobraram morando na rua, eu farei.
Se existe ovelha do sacrifício, esta serei eu.
Levanto- me bem devagar para não acorda-los. Visto um vestido de tecido grosso , que me manterá aquecida naquela noite fria, e com a capa de capuz vinho, que meu pai mandou buscar na França para mim, eu saio de casa.
Sorrateira e determinada.
Caminho apressada pelas ruas vazias, com apenas alguns andantes , outros bêbados e até mulheres livres que discretamente buscam uma presa.
Vou com um único destino.
A hospedaria dos Miltons.
Chego na porta da famosa hospedaria da cidade logo um dos seguranças me barra.
— Aonde pensa que vai a estas horas mocinha?
Tiro meu capuz e deixo ele ver que não ofereço perigo.
O homem me olha de cima a baixo.Talvez deduzindo que minha situação atual tenham me conduzido a luxúria.
- Preciso falar com o sr Otto Montanese, ela está hospedado aqui, e me aguarda.
Ele me analisa mais de perto, tentando entender o que uma moça como eu aquela hora da noite ia querer com o sr Otto. Posto que mulheres de bem nunca andam desacompanhadas e ainda mais a noite.
- Por favor, é importante.
O homem suspira e me dá passagem.
Chegando ao balcão vejo o atendente já quase babando sobre o livro de registro. Abro um largo sorriso, pois o conheço. Sempre nos esbarrávamos nos festivais ou em algum baile que nossas famílias haviam sido convidadas, e ele me olhava tanto que as vezes tinha a impressão que teria torcicolos.
Dou um leve toque no sino da campainha e ele desperta alvoroçado.
- Srta Montanese... o que faz... aqui?
- Preciso falar com o sr Otto. Poderia chama-lo para mim?
O belo rapaz de porte esguia também estranha meu pedido.Mais como é funcionário sabe que precisa chamar seu superior, se me deixasse entrar aquela hora no quarto de um hóspede eu ficaria desmoralizada, e se o chamasse seria inconveniente.
- Não posso srta, está muito tarde e a srta nem deveria estar na rua. Por que não vai pra casa e volta amanhã, quando ele acordar eu aviso que esteve aqui.
- Se eu não falar com ele agora mesmo, amanhã eu não terei mais casa para morar. Por favor, me ajude ...
Ele sabe da minha condição e foi um dos poucos na cidade que não virava a cara quando nos via.Se compadeceu da minha fisionomia desolada e resolveu arriscar o pescoço por mim. Estou mesmo desesperada.
Ele sai de detrás do balcão e pede que eu me sente num canto discreto da sala de recepção.
- Fique aqui, eu vou até lá, se o sr ainda estiver acordado eu venho avisa-la ok?
Acinto com a cabeça, nervosa, pois sei dos riscos que corro por ali.
Espero ansiosamente por um bom tempo.
O rapaz chega apressado e me olha indeciso.
- E então ele vem?
Ele coça a cabeça e me olha de lado.
- O senhor por acaso é seu parente?
- Sim, por que?
- Ele disse para a srta ir até la, disse que a sobrinha queria vê-lo e que era um bom sinal, mas de antemão lhe aviso, ele está acompanhado... se quiser posso ficar lá com a srta, pois não ficaria bem estar no mesmo ambiente que as pessoas que estão com ele.
Reviro os olhos.
-Vamos então.
Não sei quem está com ele e nem me interessa, só quero salvar minha casa.
Chegamos ao quarto e ouvimos risadas femininas.
- Tem certeza que é aqui?
Ele dá de ombros e bate .
O sr alto de porte imponente abre a porta e sorri ao vê-me.
- Eu sabia que a srta. viria. Entre!
Entrei e o meu amigo foi impedido de passar, me olhando da porta com os olhos esbugalhados, temendo por mim. Eu o tranquilizei com o olhar e ele me sinalizou que ficaria ali fora caso precisasse.
De fato teme por mim, mais do que eu mesma.
E só então entendo o que ele quis dizer com o sr não estar sozinho.
Ele está vestido de calça e um camisão branco sem botões e os cabelos grisalhos bagunçados, o quarto tem um cheiro estranho e ao olhar para a cama, vejo duas mulheres deitadas e ... com certeza estão... nuas ou quase.
Meu coração disparou. Se alguém me pega ali, vão achar que sou como elas. Já as ví passando na rua algumas vezes , e são aquelas que trabalham na casa de diversão masculina nos limites da cidade. Todas as mulheres de bem comentam delas ,mas não as respeitavam nem um pouco em suas palavras. Chamam elas de escória da sociedade e já foram até expulsas de locais aonde famílias estavam presente, embora todos saibam o seu ofício os que usufruem de seus serviços nunca ousariam defende-las em público.
Faço menção de sair , e o sr. me segura, engulo seco. Estou perdida.
- Me desculpe por isso. Mais achei melhor que viesse até aqui do alguem nos vir conversando lá fora.
-Vocês, saiam!- ele ordena com voz firme. – esperem lá fora, preciso dar uma palavra com minha sobrinha.
As duas pegam algumas roupas espalhadas pelo chão e saem resmungando em tom baixo, e eu nem tive coragem de abrir os olhos para ver. Aquilo é tão indecente.
- Já pode abrir os olhos Adelaide estamos sozinho.
Abro meus olhos e ele agora veste um casaco fechado .
- E então sobrinha- ele desdenha- o que deseja de mim?
- O sr sabe. Quero ouvir... sua proposta.
Sinto meu peito se revolver. Se de fato aceitar esta proposta ridícula, agora já tenho uma pequena ideia do que me aguarda. O homem é um depravado.
-O banco foi até lá?
- O sr sabe que sim. Por isso vim.Não temos para onde ir, e já que.. se ofereceu em nos ajudar. Vim apelar ao seu bom senso, e ...a ligação de família entre o sr e meu pai.
- E sua mãe?
- Não sabe que vim. Mais não se preocupe, eu entendo as condições de termos a sua ajuda, e não me importo nem um pouco com as consequências. Só quero ver minha mãe... amparada.
O homem se aproxima de mim, e abre um sorriso diferente do que já tinha visto. Parece satisfeito e feliz , mais não de um jeito malicioso.
-Muito bem, enfim, coragem em uma mulher . Ultimamente esta qualidade é bem rara. Uma jovem bela como você , capaz de se entregar em sacrifício para salvar a família... isso sim é louvável. De fato, é mesmo filha do seu pai. Mas fique tranquila. Sente-se eu vou lhe explicar os reais motivos e termos do nosso futura casamento, e quando terminar, me diga se aceita ou não.
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Atualizado até capítulo 76
Comments
New Biana
bom
2024-07-04
1
Maria De Fatima Carvalho
amando 💖 💖 💖 💖
2023-11-24
7
Edna Aparecida Rodrigues Pereira
tá muito boa a história tô amando
2023-10-24
0