LÍVIA DUARTE
Quando acordei me sentia um pouco melhor. Olhei ao redor e estava sozinha no quarto. Talvez Kimi estivesse tomando banho. Mexi em meu celular e tinha mais de dez mensagens do Lucas. Ele dizia que estava arrependido do que fez, que sabia que aquele era um momento difícil pra mim e que tinha sido muito insensível.
Pensei nas suas mensagens durante o meu banho, mas decidi que não queria vê-lo. Eu tinha que me focar no meu trabalho e ter começado a namorar agora foi um grande erro. Outra coisa ocupava a minha mente no momento, como o fato de eu ter beijado minha melhor amiga. Estava tentando entender o que me levou a fazer aquilo. Talvez eu só estivesse carente de afeto e Kimi sempre era muito carinhosa. Qual o problema de demonstrar carinho através de um beijo? A quem eu estava querendo enganar. Era um problemão, Kimi gostava de mulheres e eu passei uma impressão errada pra ela. Tenho que consertar essa erro.
Desci as escadas e encontrei Kimi na cozinha. Como sempre ela já tinha feito o nosso café da manhã.
- Bom dia. - Anunciei minha chegada.
- Bom dia Lili. Ela se aproximou e beijou meu rosto. Fiz sanduíche pra você. - Ela me serviu e sentou ao meu lado.
- Obrigada. Você como sempre, alimentando o dragão que existe em mim. - Sorrimos. Ela não parecia nervosa ou diferente. - E minha mãe, já desceu?
- Ela saiu faz um tempinho. Disse que tinha uma reunião no trabalho e não podia se atrasar.
- Ela está defendendo um caso difícil. - Comentei.
- Sim, ela comentou comigo outro dia.
Um silêncio tomou conta do ambiente. Algo que nunca tinha acontecido antes entre mim e Kimi. Não sabia o que dizer e ela parecia estar da mesma forma. Foi aí que confirmei o erro que cometi em beijar minha melhor amiga, porque isso poderia acabar com nossa relação, resolvi que iria esclarecer aquilo para que as coisas voltassem a ficar leves. Terminamos o nosso café da manhã em Silêncio. Mexi um pouco em meu celular e mandei algumas mensagens para Clara perguntando como estavam meus irmãos e que mais tarde iria no hotel me despedir deles.
Quando terminei de comer fui até a pia lavar meu copo. Quando me virei percebi que Kimi estava me encarando. Queria tanto saber o que se passava na cabeça dela. Será que estava como a minha?
- Tudo bem? - Perguntei.
- Você quer me dizer alguma coisa? -
- Não. Eu... - Dei uma longa pausa.
- Eu queria... - Falamos ao mesmo tempo.
- Fala você primeiro. - Eu disse.
- Não, pode falar. Tudo bem. - Ela insistiu.
- ok, sobre o que aconteceu ontem. Eu estava pensando e... Foi apenas uma coisa de momento, eu estava fragilizada e precisava de você, foi uma forma de carinho, um selinho de amizade. - Concluí, acho que era aquilo mesmo.
- Um selinho de amizade? - Ela repetiu.
- Isso. Não quero que você intérprete de outra forma porque não foi minha intenção. O que você queria me falar? - Perguntei. Kimi demorou um pouco a me responder. Seu rosto estava sério, bem diferente de agora a pouco.
- Não era nada não. Eu só queria saber se você melhorou.
- Na medida do possível, estou melhor. Obrigada por cuidar de mim. Vou para o trabalho mais tarde. Preciso começar um novo projeto.
- Ah sim. Eu preciso ir também.- Kimi falou meio afobada.
- Mas ainda está tão cedo. - Não queria ficar sozinha.
- É que combinei de me encontrar com o meu pai antes de ir pra faculdade. - Kimi pegou sua mochila que já estava arrumada em cima do sofá.
- Tudo bem.
- Até mais. - Ela estava andando rápido para a porta.
- Ei. - Chamei.
- Sim?
- Estamos bem? - Era importante pra mim saber que tudo ficou esclarecido. Afinal, não queria criar falsas expectativas na minha amiga.
- Claro. Agora realmente eu tenho que ir. - Kimi saiu que nem um foguete pela porta.
Que bom que estava tudo certo entre a gente. Eu iria me odiar se o meu erro acabasse com a nossa amizade.
YANA KIMI
Selinho de amizade? É sério isso, Que merda foi aquela? Pensava enquanto dirigia até a faculdade. É óbvio que eu não tinha que me encontrar com o meu pai. Só inventei aquilo pra sair o mais rápido possível daquela situação constrangedora. O que eu estava pensando? Como pude achar que aquele beijo tinha tido a menor das intenções? Se eu não conhecesse tão bem a Lívia, poderia dizer que ela estava mentindo. Mas sabia que ela falava sério e não me beijou com segundas intenções. Como ela disse, foi apenas um gesto de amizade. Como eu odeio ser tão esperançosa.
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Passei o dia inteiro dentro da biblioteca escrevendo o meu TCC. Liguei para o meu pai e avisei que não iria para o escritório hoje. Não respondi ninguém no celular a não ser o meu orientador. Não saí para comer e aproveitei para começar a planejar o evento da empresa que seria realizado no final dessa semana. Deixei com que os estudos e o projeto me dominassem e fizessem com que eu esquecesse toda aquela merda de estar apaixonada por uma pessoa que nunca iria me corresponder.
Sinceramente eu já estava cansada de imaginar que um dia os sentimentos de Lívia iriam mudar. É claro que eu ainda seria sua amiga. Mas até quando iria aguentar aquela situação, porque tinha certeza que não conseguiria parar de amá-la. Ainda tinha a promessavque fiz ao seu pai e isso incluía ficar ao lado dela. Mas e quanto a mim? Será que eu aguentaria ver a vida passando e Lívia casando, tendo filhos e sendo feliz com outra pessoa. Talvez eu fosse sadomasoquista mesmo.
Na saída a caminho do meu carro recebi uma mensagem de Lívia.
" Vamos fazer uma noite das meninas? Terminei com o Lucas e preciso desabafar. " 😢
Já estava na hora dela terminar com aquele cretino. Não posso afirmar, mas tenho quase certeza que eles brigaram no velório do seu Fernando. Ou talvez o nosso beijo tinha alguma coisa haver com o término deles? Já chega. Eu disse que não iria mais suportar essa situação. A partir de hoje iria tratar a Lili apenas como minha melhor amiga. Porque ter esperanças de que um dia ela sinta alguma coisa alem de amizade está acabando comigo.
Eu não estava com cabeça pra ouvir sobre como foi o término com o Lucas, então não respondi a mensagem.
Entrei em meu carro e dirigi até a casa da Cris. Ela sabia como me animar e seria a melhor forma de esquecer a merda que foi aquele dia.
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- Oi princesa, sentido minha falata? - Cris brincou quando me viu em sua porta.
- Preciso de um pouco do seu auto astral.- Falei e lhe puxei para um beijo.
- Nossa, você tá selvagem hoje. - Cris falou brincalhona. - Tá precisando de uma sessão de terapia? - ela ironizou.
- Digamos que hoje eu só quero esquecer de tudo.
- Eu posso resolver isso. - Ela me puxou para o seu quarto e fechou a porta atrás de si.
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Alguns tempo depois...
- Tô morrendo de sede. Você quer água? - Cris levantou da cama.
- Quero.
Quando ela voltou para ao quarto me perguntou?
- Você e sua Lívia brigaram? - Cris me entregou o copo com água e me olhou curiosa.
- Ela não é minha. E não brigamos.
- Então o que foi dessa vez?
- Não posso simplesmente querer transar com você?
- Eu me sentiria lisonjeada se esse fosse o caso, mas sei que não é. - Ela estava a todo momento ironizando.
- Lili me beijou.
- Ela fez o que? Não acredito. - Cris bateu palmas como seu eu tivesse ganhado o prêmio Nobel.
- Não é o que você está imaginando. O pai dela morreu e eu estava dando apoio. Ontem a noite ela estava muito triste e me pediu pra deitar com ela. Depois conversamos sobre coisas profundas e ela me deu um selinho, virou e dormiu.
- Sinto muito pelo pai dela, mas isso não justifica ela ter te beijado.
- Ela disse que foi um selinho de amizade.
- O que? - Cris caiu na gargalhada. - Desculpa Yana, mas essa história está muito mal contada. Não estou dizendo que não existam beijos que só demonstrem amizade, mas acho que esse não é o caso.
- Você acha que ela me beijou porque sente alguma coisa por mim? - Perguntei curiosa.
- Bom, isso não cabe a mim dizer. Só ela pode te dizer isso. Mas pra ser sincera, eu acho que você não devia criar esperanças. Esse tipo de mulher só fode com o nosso psicológico.
- Não acho que ela fez por mal.
- Talvez você tenha razão. Mas toma cuidado, um coração machucado demora para cicatrizar. - Ela parecia me entender muito bem.
- A filha do seu padastro partiu o seu coração, certo?
- Ela fez muito mais do que isso. Ela esmagou meu coração e depois comeu ele vivo. - Mesmo que o seu tom fosse de brincadeira dava pra ver a tristeza em seu olhar.
- Sinto muito.
- Isso foi a muito tempo, mas já chega de melação. Vou sair com uns amigos pra beber. Você quer vir junto? - Cris levantou da cama e foi até o seu closet.
- Talvez um outro dia. Hoje eu vou pra casa. Faz tempo que não apareço por lá e meu pai deve estar me esperando.
- Tudo bem então. Se mudar de ideia vamos estar no bar de sempre. - Ela mandou um beijo no ar e foi para o banho.
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Quando cheguei em casa meu pai estava jantando.
- Desculpa a demora pai. - Me sentei ao seu lado e servi meu prato.
- Tudo bem filha. Conseguiu escrever seu TCC? - Ele perguntou animado.
- Sim, estou quase terminando. Essa semana eu já vou defender e depois é só esperar a formatura.
- Estou tão orgulhoso de você minha filha.
- Obrigada pai.
- De nada. Como estão os preparativos para o evento dessa semana?
- Tudo encaminhado. Amanhã eu vou definir o local e depois contratar alguns serviços.
- Perfeito, hoje eu falei com os executivos e eles estão muito empolgados para ver o resultado final do seu projeto.
- Pode deixar comigo que tudo vai sair como o planejado. Eles não vão se arrepender.
Eu estava me esforçando muito para que tudo fosse perfeito nesse evento, afinal seria minha inauguração na empresa da família. Não podia decepcionar, tinha que merecer o cargo de vice-presidente. Por isso dediquei todo o meu tempo livre para está causa. Quando não estava na faculdade, estava na empresa verificando se tudo estava como o programado. Acabei conhecendo muitos funcionários, o que me deu uma noção de quanto nossa empresa era grande.
Lívia e eu conversamos por mensagem algumas vezes, mas nada fora do comum. Ela começou a escrever seu primeiro livro e eu estava bem ocupada terminando meu TCC e trabalhando para que tudo no evento funcionasse perfeitamente.
A semana passou rápido e o dia do evento chegou. Fora alguns imprevisto, tudo estava como o planejado. Me certifiquei de que todos estavam em suas funções e monitorei cada mínimo detalhe, nada passava despercebido pelos meus olhos de águia. A empresa que nos contratou era de de automóveis importados e o objetivo era divulgar a marca ao Brasil.
Não percebi ela se aproximando, nunca tínhamos nós falado na empresa e fiquei surpresa quando ela me abordou. - Nossa Chefinha, você arrasou. - Era Cris a minha amizade colorida e confidente.
- Obrigada, você estava aqui o tempo todo? - Perguntei.
- Só o tempo suficiente para ver você mandando em todo mundo. - Sorri e lhe cumprimentei com um beijo no rosto.
- Está gostando da festa?
- Sim, achei a proposta do evento bem diferente das que a empresa costuma realizar. Gostei muito.
- Espero que isso seja um bom sinal. Preciso me sair bem para impressionar nossos novos sócios.
- Tenho certeza que eles estão bem impressionados. - Cris apontou para o grupo de executivos que conversavam animadamente com meu pai.
- Estou tão nervosa. - Confessei.
- Relaxa, você tá impressionando todo mundo. Ouvi alguns funcionários comentando que acham você muito competente e que é tão criativa quanto o seu pai. Talvez até mais. - Nossa, aquilo me deixou surpresa.
- Só quero que todos se divirtam e aproveitem a festa.
- Pode deixar que eu estou me divertindo pra valer. - Cris levantou sua taça com bebida, o que me fez rir.
No final do evento meu pai fez questão de reunir todos os envolvidos e propor um brinde.
- Quero agradecer a todos os nossos colaboradores. Tudo estava perfeito e não tenho palavras para descrever o quanto sou sortudo por ter a melhor equipe. - Todos brindamos. - Agora quero fazer um brinde especial para uma pessoa que está mudando a maneira que enxergo as coisas dentro desta empresa. Ela é inovadora e criativa. Mas acima de tudo é comprometida e dedicada. Sem ela essa noite não teria sido tão mágica. A minha filha, Yana. - Todos levantaram sua bebidas e comemoraram. Eu estava morrendo de vergonha, mas tentei disfarçar.
- Obrigada papai. Gostaria de agradecer aos senhores que me deram a oportunidade de desenvolver este projeto. Prometo que este será o primeiro de muitos outros. - Olhei para os investidores daquela marca. - Também gostaria de agradecer a todos os funcionários da nossa empresa. Vocês são a base de tudo, obrigada pela colaboração e comprometimento de cada um. Estou ansiosa para criar e inovar junto com os senhores. Me coloco a disposição de vocês e peço que acabem todas as bebidas, pois hoje é um dia de celebração. - Todos riram e brindaram junto comigo.
O mais importante pra mim era ver o olhar de satisfação do meu pai. Era bom saber que ele estava seguro em relação a sua escolha de me colocar como vice-presidente. Eu não o decepcionaria. Aquela noite foi um escape para mim. Me entreguei totalmente ao trabalho e pela primeira vez consegui para de pensar em Lívia. Se não fosse o olhar de inveja e reprovação do meu tio e do meu primo, essa noite teria sido perfeita.
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Atualizado até capítulo 45
Comments
Ana Lúcia
E muito difícil ter pessoas por perto desejando o fracasso da gente e pior ainda quando e pessoas da própria família .
2024-04-13
2
Kelly fernanda Da Silva Lima
chará mais por favor
2022-08-03
1
Edjania Rodrigues
e o resto?
2022-07-09
1