LÍVIA DUARTE.
Aquilo não podia estar acontecendo. Eu tinha acabado de me reconciliar com o meu pai. Ele não podia ter morrido. Era só o que eu pensava durante o seu velório. Porque você fez isso, voltou pra minha vida só para depois ir embora de novo. Segurei na mão de Kimi, que estava ao meu lado.
- Não sei se vou aguentar. - Comentei para que somente ela escutasse.
- Se quiser podemos sair daqui. - Pensei nessa possibilidade, mas não podia deixar Gabriel e Gabi.
- Não posso deixá-los sozinhos. Eles precisam de mim. - Meus irmãos estavam com suas cabecinhas baixas e olhavam para nosso pai deitado no caixão.
- Tem razão. Eles precisam de nós. - Kimi fez algo que me surpreendeu, ela foi até os meus irmãos e começou a conversar com eles. Depois de observar um pouco a interação dos três, resolvi me juntar a eles.
Me aproximei e abracei o Gabriel que estava mais calado. Enquanto a Gabi estava sentada no colo de Kimi e conversava com ela sobre desenhos e princesas.
- Porque o papi não acorda? Ele já dormiu muito. Quero brincar com ele. - Gabriel me surpreendeu com a sua pergunta. Era evidente que ele não entendia o que estava acontecendo. Eu não sabia o que falar, fiquei sem palavras.
- Porque a mamãe está chorando? - Ele continuou a fazer perguntas. Eu não tinha a menor noção de como lhe contar que nosso pai tinha morrido. Nem sei se ele sabia o que era morrer. Acariciei seus cabelos escuros e beijei seu rosto.
- O seu papai precisou dormir meu amor, ele me disse que estava com muita dor. A sua mãe está chorando porque ela sente falta do seu Papai. - Kimi foi quem respondeu. Gabriel olhou fixamente para o caixão e disse.
- A mamãe precisa de um abraço. - Ele correu até onde Clara estava e lhe abraçou. Ela o acolheu em seus braços enquanto ele secava suas lágrimas com as suas mãozinhas.
- Obrigada, eu não sabia o que falar. - Agradeci a Kimi.
- Sei que está sofrendo tanto quanto eles, vem cá. - Kimi me puxou para um abraço e senti o corpinho quente da minha irmãzinha se juntar ao nosso abraço. Tudo podia estar desmoronando, mas eu sabia que sempre teria Kimi ao meu lado.
Kimi disse que precisava falar com Clara e se afastou por alguns minutos, fiquei com minha mãe e Roberto que estavam lá desde o início da cerimônia fúnebre.
- Lívia, eu preciso conversar com você. - Lucas se aproximou e estendeu a mão para que eu fosse com ele.
- Não pode ser depois? - Falei.
- Não, precisa ser agora. - Minha mãe me olhou desaprovando a atitude dele. Eu não queria mais confusões por isso aceitei falar com Lucas.
- Tudo bem. - disse para minha mãe que logo voltaria e fui com Lucas para o lado de fora da igreja. O que será que ele tinha pra mim dizer que não podia esperar o velório terminar.
- O que a Yana tá fazendo aqui? - Aquela com certeza era a última pergunta que eu esperava ouvir.
- Ela é minha melhor amiga.
- Vi vocês abraçadas. Não precisa mentir pra mim. Sei que você está escondendo alguma coisa de mim. - Ele só podia estar louco.
- Você perdeu o juízo Lucas. Vai ter uma crise de ciúmes logo agora. - Falei chateada e não acreditando no que tinha acabado de ouvir.
- Não estou com ciúmes, só não gosto de ser feito de trouxa.
- Olha, eu não quero conversar agora. Será que você não entende que é um momento difícil pra mim.
- Entendo e é por isso que vim prestar meu apoio. Mas quando cheguei vi você nos braços da Yana. - Ele estava tão cego de ciúmes que enxergava o que queria e não percebia que o que eu tinha com a Kimi era uma amizade muito profunda e nada mais.
- De verdade, não vou perder meu tempo te dando satisfação. Acredita no que você quiser. Se me der licença, vou entrar. - Passei por ele sem nem virar o rosto para lhe olhar.
- Se você entrar estará tudo terminado entre a gente. - Que idiota, como pude achar que gostava dele. Não me virei, apenas voltei para o lado da minha mãe e Kimi já estava lá me esperando. Seu olhar estava desconfiado, as vezes me assombrava o fato dela me conhecer mais do que eu mesma me conhecia.
YANA KIMI
Depois do Velório fui deixar Clara e os gêmeos em um hotel. Eles ficariam hospedados lá até amanhã e depois voltariam para casa. Quando estive na casa deles, percebi que eles eram muito humildes e não tinham tanta condição financeira. Não queria que a situação ficasse mais complicada do que já estava então antes de sair deixei meu número de telefone e um envelope com dinheiro suficiente para eles se manterem por um tempo. Convenci Clara a me ligar assim que chegassem em casa e prometi que lhe ajudaria a conseguir um emprego. Não suportava a idéia de ver os irmãos de Lívia passando necessidade. Eu sabia que Lili faria de tudo por eles, mas sabia que ela ainda estava em processo de estabilizar a sua vida financeira então não tinha recursos pra sustentar seus irmãos. Fiz Clara prometer para mim que não contaria nada para ninguém, porque eu estava fazendo aquilo de coração e não queria que ninguém soubesse. Me despedi dos três e fui para a casa da minha amiga.
Quando cheguei, não encontrei ninguém na sala. Subi as escadas e fui direto para o quarto de Lívia. Bati na porta e pedi permissão para entrar.
- Pode entrar Kimi. - Lívia estava sentada em sua cama. Ela tinha uma toalha enrolada no corpo e outra na cabeça. Claramente tinha acabado de sair do banho.
- Posso esperar lá em baixo até você se trocar. - Sugeri.
- Não precisa, senta aqui do meu lado amiga. - Caminhei em sua direção um pouco receosa e sentei na cama, mas fiquei o mais longe que consegui. Vê-la de toalha me desconcertava e eu não podia deixar com que ela percebesse.
- Meus irmãos estão bem?
- Quando saí de lá eles estavam dormindo. Tenho certeza que estão bem. Vai demorar um tempo pra eles entenderem o que aconteceu, mas aos poucos eles vão entender. Difícil está sendo para a Clara, não consigo imaginar o dor que deve ser perder o seu companheiro de vida. Ela parecia assustada.
- Obrigada por ter levado eles até o hotel. Queria poder ajudá-los. - Lili estava triste. Me aproximei e limpei as lágrimas que escorriam por seu rosto.
- Não fique se martirizando, você também está precisando de cuidados. Ele era seu pai, eu não tenho palavras pra dizer o quanto eu sinto pela sua perda. - Envolvi Lili em um abraço.
- Vem, deixa eu cuidar de você. - Tirei a toalha da cabeça de Lívia e comecei a pentear os seus cabelos. Depois escolhi uma roupa e lhe entreguei. Ela estava tão fraca. Lhe ajudei a vestir sua roupa, sem olhar para seu corpo desnudo. Ela deitou na cama e eu a embrulhei e beijei sua testa.
- Você precisa descansar. Vou deixar você dormir um pouco. - Fiz menção de levantar da cama, mas Lili me segurou.
- Não vai, fica aqui comigo. - Me deitei ao seu lado de frente pra ela. Que encostou sua testa na minha. Da mesma forma como fez quando estavamos no pico da bandeira. - Porque dói tanto?
- Porque você o amava. - Foi o que consegui dizer.
- Mas ele fez tanto mal pra mim, eu não devia sentir tristeza com a morte dele. - Ela sussurrava como se alguém pudesse nós escutar.
- Acho que você se sente mal porque sabe que ele mudou e estava tentando de verdade se aproximar de você. Ele sabia que não tinha muito tempo para conseguir o seu perdão.
- E eu o perdoei. Ontem no hospital foi uma das perguntas que ele me fez. Se eu o perdoava, e eu disse que sim. Estava cansada de guardar mágoas dele. Queria que ele descansasse em paz. Mas não sabia que ele morreria tão rápido. O que ele falou pra você?
- Pediu pra mim cuidar de você. Ele sabia que não estaria aqui para participar das suas conquistas e pediu pra mim representar ele. - Falei parte do que ele me disse, a parte que Lívia precisava ouvir.
- E o que você disse?
- Que eu estaria sempre com você.
- Obrigada você é a melhor. - Lívia se aproximou de mim e me abraçou. Depois acariciou meu rosto e ficou bem perto de mim. Eu conseguia sentir sua respiração e ouvir seus batimentos cardíacos. Era tentador me aproximar mais e sentir o gosto de seus lábios, mas eu não me arriscaria, é claro.
Para minha surpresa, Lívia roçou seus lábios nos meus. Eu não conseguia me mover. Tinha medo de fazer qualquer coisa e estragar aquele momento. Mal respirava quando ela depositou um selinho em meus lábios. O contato demorou somente alguns segundos, mas pra mim tinha sido o momento mais íntimo que já tinha compartilhado com alguém. Depois Lívia virou e se aconchegou colocando meu braço ao seu redor em nossa posição favorita. Em pouco tempo ela estava dormindo. Mas eu não consegui pregar os olhos a noite inteira. Só ficava revivendo aqueles momento mágico em minha cabeça. O que aquilo significava?
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Atualizado até capítulo 45
Comments
Ana Lúcia
Até que enfim elas estão se entendendo.
2024-04-13
0
barbara cristina🌈🏳️🌈
👭❤
2022-07-13
0
Nataly Lopes
aí meu coração,que emocionante autora
2022-07-09
3