LIVIA DUARTE
Aquela manhã não estava sendo fácil. Eu e Kimi nunca tínhamos nos desentendido. Tudo o que eu queria era que minha amiga e o meu namorado se entendessem. Mas eles não se cheiravam e colocar os dois no mesmo ambiente foi uma péssima ideia. Kimi não era assim, ela nunca se estressava e nem se exaltava. Agora eu não conseguia me concentrar em nada. Olhava para o meu computador sem entender nada do que estava escrito no livro a minha frente.
Na faculdade não foi diferente. Fiquei dispersa em todas as aulas. Pensei em mandar uma mensagem para a Kimi, mas depois desisti. Ela precisava de um tempo. Alguma coisa estava errada. Minha amiga estava diferente. Primeiro foi no nosso encontro duplo e depois ontem com Lucas. Eu só não conseguia entender porque ela estava agindo assim. Talvez fosse a pressão do formatura chegando e também o trabalho na empresa do pai. Era muita coisa pra lhe dar. Kimi sempre me ajudou com os meus problemas e agora que ela estava tão sobrecarregada eu não estava com ela. Como pude ser tão tapada, era isso. Ela está estressada com tantas responsabilidades. Vou ligar pra ela e me desculpar.
Quando saí da sala de aula estava ansiosa pra acertar as coisas com a Kimi, mas algo me deixou sem reação. Olhei para o portão da faculdade e aquele rosto conhecido estava lá novamente. O que ele queria de mim? Eu não quero falar com ele. Passei sem falar nada e o ignorei.
- Lívia? Espera. Eu preciso muito falar com você. - Ele estava me seguindo. - Por favor só um minuto. - Insistiu.
- O que você quer de mim? - Gritei sem me importar com as pessoas ao redor.
- Podemos conversar?
- Eu não quero conversar com você.
- Por favor filha, se você me...
- Não me chama de filha. Você perdeu esse direito a 10 anos atrás. - Falei irritada.
- Me desculpa. Por favor Lívia, me deixa explicar. - Implorou. O seu rosto era igual ao do meu pai, mas esse homem não agia como ele. Essa era uma versão cansada e cautelosa dele.
- Tudo bem. Pode falar. - Cruzei os braços abaixo do peito.
- Aqui? Agora?
- Sim, agora.
- Você não quer ir pra algum lugar mais particular. Eu pago um lanche e conversamos melhor. - Sugeriu.
- Eu não tenho muito tempo.
- Vai ser rápido eu prometo.
- Tudo bem.
Atravessamos a rua e ele me seguiu até uma lanchonete que ficava na frente do campo. Fizemos o pedido e sentamos.
- Eu queria te ver. Eu queria ter te procurado antes. - Ele esperou eu falar alguma coisa, mas fiquei calada. Então ele continuou. - Eu fui tão estúpido. Não estou dando desculpas para o que eu fiz com você e com a sua mãe. Se eu pudesse consertar tudo eu consertaria.
- Você não pode consertar nada. - Falei séria.
- Eu sei Lívia. O passado eu não posso mudar, mas quero te mostrar que eu mudei e que estou realmente arrependido. Naquela época eu era novo e imaturo. Depois de um tempo me envolvi com drogas e virei outra pessoa. Eu achava que tinha o controle de tudo, mas desgracei a minha vida e a sua também. Não consegui ser um bom pai. E me tornei um pai horrível. Eu me arrependo tanto e tenho medo de não ter tempo para concertar as coisas.
- Eu não confio em você e não sei se quero confiar. - fui sincera.
- Eu te entendo Lívia. E sei que é difícil acreditar no que estou dizendo depois de tantos anos.
- Porque você não me procurou antes? - Perguntei.
- Eu estava com vergonha. Depois que saí de casa minha vida só piorou. Eu virei um viciado, cheguei a passar dias na rua. Eu virei um animal. Depois desse episódio eu me internei em uma clínica de reabilitação e passei dois anos lá. Quando saí eu estava com vergonha de você e da sua mãe. Cheguei a ir algumas vezes na sua casa, mas não tive coragem de tocar a campainha. Não sabia o que dizer. Vocês já tinham me superado e eu não queria ser um peso. Achei melhor ir embora de vez e me afastar de vocês. Eu sei que fui egoísta e vejo isso agora. Eu não peço o seu perdão, só peço a chance de passar um tempo com você. - Eu nunca tinha visto meu pai tão vulnerável. Ele parecia está sendo sincero e confesso que fiquei um pouco mexida com sua história.
- Como você pretende se reaproximar de mim? - Perguntei receosa.
- Da forma que você quiser. Você pode dizer todos os termos que eu vou seguir. Só quero está perto de você e saber um pouco sobre a sua vida.
- Eu não tenho tempo agora, mas amanhã a noite podemos sair. Só que eu tenho uma condição.
- Eu aceito qualquer condição.
- Vou levar uma pessoa junto comigo.
- Tudo bem. Você pode me dar o seu número. - Falou animado.
- Tudo bem. Me dá o seu celular. - Ele me entregou o aparelho e eu digitei meu número. - Me manda uma mensagem e eu te falo o local que vamos nos encontrar.
- Ok Lívia. Até amanhã. Prometo que você não vai se arrepender.
Fiquei calada e saí do local sem olhar pra trás. O que tinha acabado de acontecer? Eu tinha aceitado me aproximar do homem que eu jurei odiar por toda a minha vida. Alguma coisa nele ou na sua forma de falar me deixou curiosa. Talvez ele realmente estivesse arrependido.
Eu queria conversar com a minha mãe, mas ela ia chegar tarde do trabalho. Ela precisava saber o que estava acontecendo.
YANA KIMI
Sabe quando você age no piloto automático o dia inteiro? Era assim que eu estava me sentindo. Passei o dia todo como uma marionete, meu corpo ia para os lugares onde eu devia ir, mas a minha mente estava em Lívia. Eu sentia a falta dela e queria me desculpar pelo que tinha falado ontem. Eu precisava voltar para o meu normal. Era muito mais fácil quando eu não me importava com os namorados de Lívia. O problema é que esse sentimento que sinto por ela só cresce a cada ano.
Eu lembro exatamente o dia em que me apaixonei pela minha melhor amiga.
" Entrei na sala de aula atrasada e o professor estava passando uma prova em dupla. Ele me olhou com desaprovação e eu me encolhi toda. Mas o pior ainda estava por vir.
- Yana, porque você chegou atrasada? - O professor perguntou.
- Eu... Eu..
- O gato mordeu sua língua?
- Não eu só..
- Vejam alunos. Ela não consegue nem falar direito. - A turma começou a rir e eu fiquei calada.
- Você não vai poder fazer a prova. Saia da minha sala. - Gritou. Eu me encolhi mais ainda. Quando já estava na porta escutei alguém se levantado e vindo até mim.
- Venha Yana , você vai fazer a prova comigo. - Lívia nunca tinha me notado, ela era popular. Fiquei sem sabe o que fazer, mas segurei sua mão e ela me levou até o seu lugar.
- O que pensa que está fazendo Senhorita Duarte? A Yana não vai fazer essa prova, eu já ordenei.
- Você não pode tratar seus alunos dessa forma. - Falou encarando o professor.
- Sim, eu posso fazer o que eu quiser. - O professor estava vermelho de raiva, mas Lívia não se intimidou.
- Se a Yana não fizer a prova eu e todo mundo da sala vamos até a diretoria contar para o diretor que você estava destratando uma aluna. E assim como eu você sabe que agressão verbal é crime. - Pela primeira vez o professor ficou calado. - A escolha de não perder seu emprego é sua. - Lívia o desafiou. Todos na sala assistiam aquela cena como se fosse o último episódio de uma série. Lívia não deixou de encarar o professor. Ele estava cada vez mais nervoso.
- Dessa vez eu vou deixar passar. Sentem e comecem a fazer a prova. - O professor voltou a escrever e não falou mais nada.
- Oi, me chamo Lívia. Você tá bem? - Ela sussurrou.
- Sim, obrigada. - Falei.
- Esse professor é um idiota. Qual o seu nome completo, pra mim escrever na prova?
- Yana Kimi. - Falei tímida.
- Kimi... gostei.
E foi assim. Lívia desafiou o professor por minha causa. Ela não vacilou nenhum momento. Ela era minha princesa sem cavalo branco. A partir daquele dia nos tornamos inseparáveis e ela se tornou muito mais do que uma amiga pra mim.
- Kimi?
- Kimi?
- Oi Van. Desculpa eu não escutei. O que você disse?- Vanessa estava na minha frente sem entender nada.
- Alguém tá te ligando. - Disse apontando para o meu celular na mesa. Olhei e vi o nome Lili ❤ na tela.
- Me dá licença Van. Eu tenho que atender. - Falei um pouco apressada.
- Claro. O trabalho já acabou por hoje. Até amanhã senhorita Yana.
- Até. - Vanessa saiu da sala e eu praticamente voei até o meu telefone.
- Alô?? - Falei apressada.
- Kimi? Atrapalhei alguma coisa? - Sua voz estava baixinha.
- Não Lili... - A linha ficou em silêncio.
- Eu queria me desculpar... - Falamos ao mesmo tempo.
- Fala você primeiro. - Sugeriu.
- Me desculpa Lili, eu fui uma idiota. Ontem era pra ser um dia especial e eu estraguei tudo.
- Tudo bem Kimi. Eu sou tão tapada. Eu já sei porque você ficou tão chateada ontem.
- Você sabe? - Perguntei nervosa. Ela sabia que eu era apaixonada por ela?
- Sim, você está sob muita pressão com o seu TCC e o trabalho na empresa da sua família. Eu não devia ter insistido para sair ontem.
- Ah, é isso?
- Não é por isso que você está tão estressada ultimamente?
- Claro, você tem razão. - Falei triste.
- Eu te entendo amiga. Não é fácil ser herdeira de um império e ainda tem toda a pressão de se formar. Mas saiba que eu estou aqui pra qualquer coisa que precisar.
- Obrigada Lili.
- Queria te perguntar uma coisa.
- O que?
- Você aceita ir comigo encontrar com o meu pai?
- Como assim? Você viu ele de novo? - Tentei não mostrar minha preocupação.
- É uma longa história. Depois eu conto. Mas você aceita?
- Aceito. Não deixaria você sozinha com ele.
- Obrigada Kimi. Eu vou me sentir mais segura se você estiver lá.
- Eu não vou sair de perto de você. Pode deixar. Ele não vai te deixar triste porque eu não vou permitir.
- O que seria de mim sem você?- Quando Lili falou aquilo meu coração acelerou e um sorriso se formou no meu rosto.
- Eu espero que nunca descubra.
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Atualizado até capítulo 45
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