capítulo 09

LIVIA DUARTE

Aquela manhã não estava sendo fácil. Eu e Kimi nunca tínhamos nos desentendido. Tudo o que eu queria era que minha amiga e o meu namorado se entendessem. Mas eles não se cheiravam e colocar os dois no mesmo ambiente foi uma péssima ideia. Kimi não era assim, ela nunca se estressava e nem se exaltava. Agora eu não conseguia me concentrar em nada. Olhava para o meu computador sem entender nada do que estava escrito no livro a minha frente.

Na faculdade não foi diferente. Fiquei dispersa em todas as aulas. Pensei em mandar uma mensagem para a Kimi, mas depois desisti. Ela precisava de um tempo. Alguma coisa estava errada. Minha amiga estava diferente. Primeiro foi no nosso encontro duplo e depois ontem com Lucas. Eu só não conseguia entender porque ela estava agindo assim. Talvez fosse a pressão do formatura chegando e também o trabalho na empresa do pai. Era muita coisa pra lhe dar. Kimi sempre me ajudou com os meus problemas e agora que ela estava tão sobrecarregada eu não estava com ela. Como pude ser tão tapada, era isso. Ela está estressada com tantas responsabilidades. Vou ligar pra ela e me desculpar.

Quando saí da sala de aula estava ansiosa pra acertar as coisas com a Kimi, mas algo me deixou sem reação. Olhei para o portão da faculdade e aquele rosto conhecido estava lá novamente. O que ele queria de mim? Eu não quero falar com ele. Passei sem falar nada e o ignorei.

- Lívia? Espera. Eu preciso muito falar com você. - Ele estava me seguindo. - Por favor só um minuto. - Insistiu.

- O que você quer de mim? - Gritei sem me importar com as pessoas ao redor.

- Podemos conversar?

- Eu não quero conversar com você.

- Por favor filha, se você me...

- Não me chama de filha. Você perdeu esse direito a 10 anos atrás. - Falei irritada.

- Me desculpa. Por favor Lívia, me deixa explicar. - Implorou. O seu rosto era igual ao do meu pai, mas esse homem não agia como ele. Essa era uma versão cansada e cautelosa dele.

- Tudo bem. Pode falar. - Cruzei os braços abaixo do peito.

- Aqui? Agora?

- Sim, agora.

- Você não quer ir pra algum lugar mais particular. Eu pago um lanche e conversamos melhor. - Sugeriu.

- Eu não tenho muito tempo.

- Vai ser rápido eu prometo.

- Tudo bem.

Atravessamos a rua e ele me seguiu até uma lanchonete que ficava na frente do campo. Fizemos o pedido e sentamos.

- Eu queria te ver. Eu queria ter te procurado antes. - Ele esperou eu falar alguma coisa, mas fiquei calada. Então ele continuou. - Eu fui tão estúpido. Não estou dando desculpas para o que eu fiz com você e com a sua mãe. Se eu pudesse consertar tudo eu consertaria.

- Você não pode consertar nada. - Falei séria.

- Eu sei Lívia. O passado eu não posso mudar, mas quero te mostrar que eu mudei e que estou realmente arrependido. Naquela época eu era novo e imaturo. Depois de um tempo me envolvi com drogas e virei outra pessoa. Eu achava que tinha o controle de tudo, mas desgracei a minha vida e a sua também. Não consegui ser um bom pai. E me tornei um pai horrível. Eu me arrependo tanto e tenho medo de não ter tempo para concertar as coisas.

- Eu não confio em você e não sei se quero confiar. - fui sincera.

- Eu te entendo Lívia. E sei que é difícil acreditar no que estou dizendo depois de tantos anos.

- Porque você não me procurou antes? - Perguntei.

- Eu estava com vergonha. Depois que saí de casa minha vida só piorou. Eu virei um viciado, cheguei a passar dias na rua. Eu virei um animal. Depois desse episódio eu me internei em uma clínica de reabilitação e passei dois anos lá. Quando saí eu estava com vergonha de você e da sua mãe. Cheguei a ir algumas vezes na sua casa, mas não tive coragem de tocar a campainha. Não sabia o que dizer. Vocês já tinham me superado e eu não queria ser um peso. Achei melhor ir embora de vez e me afastar de vocês. Eu sei que fui egoísta e vejo isso agora. Eu não peço o seu perdão, só peço a chance de passar um tempo com você. - Eu nunca tinha visto meu pai tão vulnerável. Ele parecia está sendo sincero e confesso que fiquei um pouco mexida com sua história.

- Como você pretende se reaproximar de mim? - Perguntei receosa.

- Da forma que você quiser. Você pode dizer todos os termos que eu vou seguir. Só quero está perto de você e saber um pouco sobre a sua vida.

- Eu não tenho tempo agora, mas amanhã a noite podemos sair. Só que eu tenho uma condição.

- Eu aceito qualquer condição.

- Vou levar uma pessoa junto comigo.

- Tudo bem. Você pode me dar o seu número. - Falou animado.

- Tudo bem. Me dá o seu celular. - Ele me entregou o aparelho e eu digitei meu número. - Me manda uma mensagem e eu te falo o local que vamos nos encontrar.

- Ok Lívia. Até amanhã. Prometo que você não vai se arrepender.

Fiquei calada e saí do local sem olhar pra trás. O que tinha acabado de acontecer? Eu tinha aceitado me aproximar do homem que eu jurei odiar por toda a minha vida. Alguma coisa nele ou na sua forma de falar me deixou curiosa. Talvez ele realmente estivesse arrependido.

Eu queria conversar com a minha mãe, mas ela ia chegar tarde do trabalho. Ela precisava saber o que estava acontecendo.

YANA KIMI

Sabe quando você age no piloto automático o dia inteiro? Era assim que eu estava me sentindo. Passei o dia todo como uma marionete, meu corpo ia para os lugares onde eu devia ir, mas a minha mente estava em Lívia. Eu sentia a falta dela e queria me desculpar pelo que tinha falado ontem. Eu precisava voltar para o meu normal. Era muito mais fácil quando eu não me importava com os namorados de Lívia. O problema é que esse sentimento que sinto por ela só cresce a cada ano.

Eu lembro exatamente o dia em que me apaixonei pela minha melhor amiga.

" Entrei na sala de aula atrasada e o professor estava passando uma prova em dupla. Ele me olhou com desaprovação e eu me encolhi toda. Mas o pior ainda estava por vir.

- Yana, porque você chegou atrasada? - O professor perguntou.

- Eu... Eu..

- O gato mordeu sua língua?

- Não eu só..

- Vejam alunos. Ela não consegue nem falar direito. - A turma começou a rir e eu fiquei calada.

- Você não vai poder fazer a prova. Saia da minha sala. - Gritou. Eu me encolhi mais ainda. Quando já estava na porta escutei alguém se levantado e vindo até mim.

- Venha Yana , você vai fazer a prova comigo. - Lívia nunca tinha me notado, ela era popular. Fiquei sem sabe o que fazer, mas segurei sua mão e ela me levou até o seu lugar.

- O que pensa que está fazendo Senhorita Duarte? A Yana não vai fazer essa prova, eu já ordenei.

- Você não pode tratar seus alunos dessa forma. - Falou encarando o professor.

- Sim, eu posso fazer o que eu quiser. - O professor estava vermelho de raiva, mas Lívia não se intimidou.

- Se a Yana não fizer a prova eu e todo mundo da sala vamos até a diretoria contar para o diretor que você estava destratando uma aluna. E assim como eu você sabe que agressão verbal é crime. - Pela primeira vez o professor ficou calado. - A escolha de não perder seu emprego é sua. - Lívia o desafiou. Todos na sala assistiam aquela cena como se fosse o último episódio de uma série. Lívia não deixou de encarar o professor. Ele estava cada vez mais nervoso.

- Dessa vez eu vou deixar passar. Sentem e comecem a fazer a prova. - O professor voltou a escrever e não falou mais nada.

- Oi, me chamo Lívia. Você tá bem? - Ela sussurrou.

- Sim, obrigada. - Falei.

- Esse professor é um idiota. Qual o seu nome completo, pra mim escrever na prova?

- Yana Kimi. - Falei tímida.

- Kimi... gostei.

E foi assim. Lívia desafiou o professor por minha causa. Ela não vacilou nenhum momento. Ela era minha princesa sem cavalo branco. A partir daquele dia nos tornamos inseparáveis e ela se tornou muito mais do que uma amiga pra mim.

- Kimi?

- Kimi?

- Oi Van. Desculpa eu não escutei. O que você disse?- Vanessa estava na minha frente sem entender nada.

- Alguém tá te ligando. - Disse apontando para o meu celular na mesa. Olhei e vi o nome Lili ❤ na tela.

- Me dá licença Van. Eu tenho que atender. - Falei um pouco apressada.

- Claro. O trabalho já acabou por hoje. Até amanhã senhorita Yana.

- Até. - Vanessa saiu da sala e eu praticamente voei até o meu telefone.

- Alô?? - Falei apressada.

- Kimi? Atrapalhei alguma coisa? - Sua voz estava baixinha.

- Não Lili... - A linha ficou em silêncio.

- Eu queria me desculpar... - Falamos ao mesmo tempo.

- Fala você primeiro. - Sugeriu.

- Me desculpa Lili, eu fui uma idiota. Ontem era pra ser um dia especial e eu estraguei tudo.

- Tudo bem Kimi. Eu sou tão tapada. Eu já sei porque você ficou tão chateada ontem.

- Você sabe? - Perguntei nervosa. Ela sabia que eu era apaixonada por ela?

- Sim, você está sob muita pressão com o seu TCC e o trabalho na empresa da sua família. Eu não devia ter insistido para sair ontem.

- Ah, é isso?

- Não é por isso que você está tão estressada ultimamente?

- Claro, você tem razão. - Falei triste.

- Eu te entendo amiga. Não é fácil ser herdeira de um império e ainda tem toda a pressão de se formar. Mas saiba que eu estou aqui pra qualquer coisa que precisar.

- Obrigada Lili.

- Queria te perguntar uma coisa.

- O que?

- Você aceita ir comigo encontrar com o meu pai?

- Como assim? Você viu ele de novo? - Tentei não mostrar minha preocupação.

- É uma longa história. Depois eu conto. Mas você aceita?

- Aceito. Não deixaria você sozinha com ele.

- Obrigada Kimi. Eu vou me sentir mais segura se você estiver lá.

- Eu não vou sair de perto de você. Pode deixar. Ele não vai te deixar triste porque eu não vou permitir.

- O que seria de mim sem você?- Quando Lili falou aquilo meu coração acelerou e um sorriso se formou no meu rosto.

- Eu espero que nunca descubra.

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