capítulo 13

Yana kimi

Eu não quero ser o tipo de pessoa que afoga minhas frustrações com bebida, mas estou tão triste. Tudo o que Lívia me falou só fez eu perceber que minha paixão por ela se torna cada vez mais improvável e talvez nunca seja correspondida. Eu queria saber como deixar de amá-la. Queria que fosse mais fácil.

Virei a caipirinha em minha mão e respirei fundo. Eu não iria mais pensar em nada.

- Você aqui de novo? - Aquela voz era familiar, mas não conseguia me mexer para identificar que eram.  Não tinha forças. Meu corpo estava pesado e tudo que me lembro foi de alguém me segurando antes que eu caísse no chão.

                                     ***

- Acorda princesa.

Não conseguia abrir meus olhos. Minha cabeça estava pesada.

- Vamos Yana. Você precisa comer alguma coisa. - Com muito esforço abri meus olhos e aos pouco consegui identificar a mulher com uma bandeja de comida a minha frente.

- Oi Cris. - Falei rouca. - Porque eu estou aqui? - Levantei rápido demais e minha cabeça girou.

- Nada disso, pode ficar deitada. - Ela me forçou a deitar novamente. Não fui contra, já que mal conseguia ficar em pé. - Você precisa descansar.

- Desculpa não lembrar, mas agente dormiu juntas de novo? - Cris riu e colocou a bandeja na minha frente. Depois sentou na beira da cama.

- Bem que eu queria, mas não. Você desmaiou no bar e eu te trouxe aqui pra casa. Foi difícil te colocar no carro e convencer você a deitar. Mas relaxa que eu não curto necrofilia. Dormi lá na sala. - Sua expressão ficou séria.

- Obrigada por me ajudar ontem. - Agradeci enquanto sentei e peguei um copo com suco.

- Olha, você tem que tomar mais cuidado. E se eu não estivesse lá? Na situação que você estava, qualquer pessoa poderia fazer mal a você.  - Ela estava realmente chateada.

- Eu sei, me desculpa. Não estava pensando direito.

- Sei que não nos conhecemos bem, mas ficaria muito mal se acontecesse alguma coisa com a filha do meu chefe.

- Obrigada Cris, eu prometo que não vou mais fazer isso. Só estou cansada pelo tanto de coisas que estão acontecendo na minha vida. - Falei frustrada ao lembrar do que Lívia tinha me falado.

- Isso tem haver com a Lili?

- Não!  Do que você está falando? - Fiquei nervosa.

- Calma, não precisa ficar desconfiada. Só perguntei porque na outra noite você não parava de dizer o nome dela e noite passada não foi diferente. Mas se não quiser falar, está tudo bem. - Cris era uma mulher legal. Ela me ajudou e cuidou de mim essa noite. Quem faz isso hoje em dia? Eu lhe devia uma explicação. 

- Desculpa, é só que... Não sei o que fazer. - Me afundei nas almofadas soltando uma longa respiração.

- Talvez, se você me contar eu posso te ajudar. - Cris se aproximou e segurou minha mão.  Ela não parecia ter segundas intenções com aquele gesto. Estava apenas sendo solidária.

- Lili, na verdade Lívia. É a minha melhor amiga. Eu sou apaixonada por ela desde que nos conhecemos há 5 anos. E esse sentimento está me matando, porque ela não parece sentir o mesmo por mim. - Não queria chorar, mas era difícil segurar as lágrimas quando o assunto era esse.

- Entendo. Você já contou pra ela?

- Não, eu ia contar ontem, mas deu tudo errado. Ela tem um namorado. O idiota do Lucas, aquele cara é um babaca. Eles estão sempre juntos e ele não vai com a minha cara, mas eu também não gosto dele. Só que essa não é a questão. Ontem, Lili descobriu que eu sou lésbica. Ela me viu dançando com uma garota que quase me beijou. Não sei o que aconteceu, mas ela saiu quase correndo quando me viu. Aí eu fui atrás dela. Ela disse que me aceitava.  Que tudo bem. Mas quando eu perguntei se ela beijaria uma mulher, ela disse que não.  Que ela respeitava quem gostava, mas ela não era assim.

- Eu ia te aconselhar a contar pra ela, mas acho melhor você seguir em frente. Sei que parece algo duro de se dizer, mas você não pode passar a vida toda esperando que um dia ela acorde e esteja apaixonada. Essas coisas não são assim. Desculpa ser tão direta.

- Você tem razão. Ontem eu entendi que não posso mais viver essa fantasia. É uma coisa que está apenas na minha cabeça. É só que... Quando você idealiza por tanto tempo, as vezes parece real. - Falar aquilo doeu, mas eu precisava acordar e ser realista. Lívia nunca seria minha namorada.

- Olha, se você precisar, pode me ligar a qualquer momento para desabafar. Eu sei o quanto pode doer amar alguém que não te corresponde. - Cris ficou um pouco triste.

- Você já amou a sua melhor amiga? - Perguntei.

- Não foi minha melhor amiga, mas era a filha do meu padastro. Os nossos pais se casaram e ela veio morar com a gente um tempo depois. Eu me apaixonei assim que a vi. Mas nunca falei nada. Até que uma noite me declarei. A gente até se beijou, mas no outro dia ela apareceu com um namorado novo. Aquilo partiu meu coração. Fiquei tão triste e chateada. Quando fui tirar satisfação, ela disse que não conseguia ser como eu, livre e determinada. Que se o seu pai descobrisse, ele ficaria furioso. Ela pedia para ser apenas minha amiga. Fiquei tão revoltada que aluguei um canto e me mudei de casa. Já tinha mais de 18 e sabia me virar.

- Vocês voltaram a se falar?

- Raramente trocamos algumas palavras nos jantares de família. A última vez que eu tive notícia dela foi a alguns anos. Ela tinha ido estudar fora do país.

- Você ainda sente alguma coisa por ela? Sei que estou sendo evasiva. Mas é que... Eu preciso saber se consigo esquecer a Lívia.

- Com o tempo os sentimentos diminuem. Você vai ficar bem. - Percebi que Cris não respondeu minha pergunta. Talvez ela ainda sentisse alguma coisa, mas eu não iria insistir naquela conversa. Mudei de assunto e depois de um tempo fui pra casa.

Papai não estava em casa, mas tinha várias mensagens dele no meu celular. A última dizia para mim ligar assim que visse a mensagem.

Respirei fundo e disquei o número do meu pai.

- Yana, onde você tá filha? - Sua voz mostrava preocupação.

- Já estou em casa pai. Desculpa não ter avisado que iria dormir fora.

- Aconteceu alguma coisa?

- Não, eu só queria ficar um tempo sozinha.

- Filha, estou preocupado. Você nunca dorme fora de casa sem avisar e só nesse mês já foram duas vezes. O que está acontecendo?

- Eu só precisava de um tempo sozinha. Tá acontecendo tanta coisa em tão pouco tempo. Só preciso colocar minha cabeça no lugar. - Não era toda a verdade, mas já era um começo.

- Entendi. Filha... - A linha ficou em silêncio por uma tempo. - Estava pensando que talvez eu esteja exigindo demais de você. Por isso está tão cansada.

- Não pai, eu adoro trabalhar na empresa. Não é isso, eu só... - Não sabia como contar para o meu pai sobre minha paixão secreta por Lili.

- Sabe que pode contar tudo pra mim. Certo?

- Eu sei papai. É apenas uma desilusão amorosa, nada de mais.

- Uma desilusão amorosa nunca é simples. Se eu soubesse, poderia ter lhe ajudado meu amor.

- Acho que nem toda a ajuda do mundo poderia mudar o final dessa história papai, mas obrigada por ficar do meu lado. Desculpa não ter contado antes.

- Tudo bem filha, eu entendo. Se quiser conversar melhor, daqui a pouco vou para casa. Só preciso terminar uma reunião aqui na empresa.

- Não papai, eu já estou melhor. Fica tranquilo. Nos vemos a noite. Te amo.

- Também te amo filha... E Yana?

- Sim

- Acho melhor você ligar para a Lívia. Ela não parecia nada bem quando saí da sua casa ontem. Parece que é um problema com o pai dela. Não entendi direito. - Meu deus. O que será que tinha acontecido?

- Eu vou ligar agora mesmo papai. Beijos. - Me despedi e desliguei o telefone.

Resolvi ir direto para a casa da Lívia, era melhor saber o que tinha acontecido estando ao seu lado.

LÍVIA DUARTE

Aquilo não podia estar acontecendo. Não agora que tudo estava se ajeitando. No final da minha festa meu pai desmaiou e foi levado as pressas para o hospital. Quando chegamos o médico nos disse que como era previsto ele não estava respondendo ao tratamento e tinha poucos dias de vida. Aquela notícia me deixou chocada. Como assim, ele estava morrendo?

A sua esposa me explicou que ele estava com câncer no fígado e seu estado era muito grave. Porque ele não me contou? Só conseguia pensar eu seu aparecimento repentino e em como tudo fazia sentido agora

Ele queria ficar bem comigo porque estava morrendo. Por isso pediu uma nova chance. Me sentia mal por ter lhe tratado tão mal. Saber que ele estava a beira da morte me deixava muito mal. Mesmo que ele tenha errado comigo no passado. Eu ainda o amava. E esse último mês foi tão maravilhoso, nós aproximamos e nos conhecemos melhor. Não podia ser verdade, tinha que ter algum engano. Ele não iria morrer e tudo ficaria bem.

Quando voltei para casa já estava de manhã, minha mãe me esperava na sala de visitas.

- Lívia, como você está? - Ela se aproximou e tudo que eu consegui fazer foi me jogar em seus braços e chorar até cansar.

- A senhora já sabia?

- Ele me procurou antes de ir até você na faculdade. Me contou da doença e pediu minha permissão para falar com você. Ele queria uma chance de conseguir o seu perdão por tudo que tinha feito a nós. Eu vi que ele não era mais o mesmo. Sabia que você merecia uma explicação dele, mesmo que ele não fizesse parte da minha vida, eu sabia que vocês dois precisavam resolver muita coisa.

- Você devia ter me contado. Todos sabiam menos eu. - Chorava sem parar. Meus soluços eram tão altos que faziam meu peito doer.

- Eu sei minha filha. Mas não cabia a mim contar pra você. O Fernando me pediu pra não contar. Ele não queria que você se aproximasse dele por pena.

- Não acredito que ele está morrendo. - Só conseguia pensar em como meus irmãos iriam ficar sem nosso pai.

Minha mãe insistiu para que eu fosse descansar um pouco. Disse que não ia adiantar voltar para o hospital agora. Que quando o meu pai pudesse receber visitas a mulher dele ligaria nos avisando. Eu fui resistente a ideia de ir dormir, mas minha mãe me acompanhou até o quarto e ficou comigo até que eu pegasse no sono.

-

YANA KIMI.

Quando cheguei na casa de Lili quem me recebeu foi a sua mãe. Ela me explicou toda a situação com o pai da minha amiga e eu fiquei sem reação. Lívia devia estar muito triste. A Lena me incentivou a ir até o quarto de Lili para ficar com ela. Me disse que ela ia precisar muito de mim nesse momento tão difícil e agradeceu por eu estar ali apoiando sua filha.

Quando entrei no quarto Lívia estava deitada olhando para o teto, seu olhar era de muita tristeza. Me aproximei e lhe abracei, tentando passar toda solidariedade que eu conseguisse através daquele abraço. Ouvi seus soluços descontrolados e senti suas lágrimas molharem meu rosto.

- Ele está morrendo. - Foi a única coisa que ela conseguiu falar antes de sua voz ser embargada por mais soluços e lágrimas.

- Eu sinto muito. - Segurei seu corpo enquanto ela desmoronava em prantos.

A tarde passou lentamente, eu me sentia impotente diante da tristeza de Lívia. Queria ajudar de alguma forma, mas sabia que não tinha como controlar o que poderia acontecer com o seu pai. Só podia ficar ao seu lado e lhe apoiar em tudo que ela precisasse.

Quando a noite chegou Lívia quis ir ver o seu pai novamente. Ela me pediu para lhe acompanhar e eu a levei até o hospital. Quando chegamos ela entrou no quarto onde ele estava internado e eu fiquei esperando na sala ao lado com sua madrasta e seus irmãos. Eles não estavam entendendo o que estava acontecendo, mas podia ver seus rostinhos preocupados. Sentei no meio dos dois e comecei a distraí-los contando histórias de aventuras. Logo os dois estavam brincando e me mostrando seus brinquedos.

Depois de alguns minutos Lívia voltou para a sala e disse.

- Meu pai quer falar com você. - Fiquei surpresa com seu recado. Mas caminhei até o quarto onde seu Fernando estava instalado.

Quando ele me viu sorriu e me olhou ternamente.

- Yana, eu queria muito falar com você. - Sua voz estava franca.

- Pode falar senhor Fernando. - Me aproximei da sua cama e consenti para que ele continuasse.

- Preciso que cuide da Lívia. Ela confia muito em você e eu também confio. Sei que não vou estar presente nos momentos mais importantes da vida da minha filha, mas por favor, esteja lá por mim. Ela precisa de você mais do que imagina. - Eu não entendia o que ele estava querendo me dizer.

- Não se preocupe, eu vou cuidar de Lívia. Ela é muito especial pra mim. - Ele segurou em minha mão e senti sua pele fria.

- Promete? - Seu olhos estavam serenos e naquele momento eu vi o quanto ele tinha mudado.

- Eu prometo.

- Yana, sei que você ama minha filha. - Ele falou com muita certeza.

- Claro que eu a amo. Ela é minha melhor amiga.

- Não é desse jeito que estou falando. Sei que você ama a Lívia como muito mais do quê sua amiga. - Sua afirmação me pegou de surpresa. Como ele sabia? Como se pudesse ler meus pensamentos ele disse. - Não tem como negar o amor que vejo em seus olhos toda vez que você olha para a Lívia. E eu sei que ela te ama também.

- Não do jeito que eu gostaria. - Comento mais pra mim do que pra ele .

- Tudo o que sei é que vocês se olham da mesma forma. - O que ele estava tentando me dizer? Não tive tempo de perguntar pois os aparelhos que o mantinham vivo começaram a apitar. A equipe médica entrou na sala e pediu para que eu me retirasse.

Voltei para o lado de Lívia e vi a aflição em seus olhos. Ela sabia que seu pai não resistiria. E foi o que aconteceu. Naquela noite seu Fernando morreu, era doloroso ver o desespero de Lívia, mas eu estava ao seu lado e não a soltaria até que ela estivesse bem novamente.

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Comments

Ana Lúcia

Ana Lúcia

Há que triste não queria que ele morasse agora que estavam se entendendo.

2024-04-13

1

sua crush? ~ ♀️🔞

sua crush? ~ ♀️🔞

necrofilia? q isso

2023-01-18

1

Maria Andrade

Maria Andrade

qui história linda, parabéns autora

2023-01-05

1

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