Capítulo 11

...🌻 Lívia Fiore 🌻...

Me afastei do salão, com o coração acelerado e a sensação de que cada passo estava me levando para um lugar onde a dor que eu guardei por anos finalmente tinha espaço para sair. Não queria que ninguém visse a expressão no meu rosto, então fui direto para o banheiro, tentando me recompor.

Encostei-me à pia e olhei para o reflexo no espelho. O vestido impecável, o sorriso ensaiado… tudo parecia tão frágil agora. Eu estava tremendo, e minha mão foi instintivamente até o pulso, onde tinha duas assas e uma auréola tatuado descansava, um símbolo do pedaço de mim que nunca consegui deixar para trás. Ninguém sabia, a não ser eu mesma, meus pais e Thalita. Era o segredo que guardei, o motivo pelo qual nunca consegui realmente me despedir de tudo.

As lágrimas começaram a escorrer antes que eu pudesse impedir. Era como se aquela noite trouxesse à tona tudo o que eu tinha enterrado, tudo o que eu não queria mais enfrentar. O luto pelo bebê que perdi, o sonho que jamais poderia ser realidade… e agora, Augusto ali, reacendendo sentimentos que eu acreditava estarem superados.

Ouvi a porta do banheiro se abrir e rapidamente enxuguei o rosto, virando-me para disfarçar. Mas eu sabia, pelo som dos passos firmes, que era ele.

— Lívia... — A voz de Augusto era baixa, suave, cheia de uma preocupação que não conseguia esconder.

Ele se aproximou lentamente, como se não quisesse invadir o meu espaço. Mas, ao mesmo tempo, eu sentia que ele sabia exatamente o que eu estava passando. Ele parou ao meu lado, e naquele momento não havia palavras, apenas o peso de tudo o que a gente passou, e o que nunca dissemos.

Respirei fundo, tentando me manter firme.

— Augusto, eu… — Minha voz estava fraca, e senti a garganta apertar enquanto tentava explicar algo que nem eu mesma conseguia colocar em palavras.

Ele olhou para o meu pulso, onde o pequeno anjo estava desenhado, e me vi incapaz de esconder mais. Seus olhos ficaram sombrios, um misto de compreensão e tristeza que eu não esperava ver. Ele sabia o que aquilo significava. Sempre soube, talvez mais do que eu gostaria de admitir.

— Lív, eu... sinto muito que tenha passado por isso sozinha. — Ele estendeu a mão e segurou a minha, como se quisesse que eu soubesse que não estava sozinha naquele momento. — Eu só queria poder ter estado lá com você.

Aquelas palavras, tão simples e sinceras, quebraram o que restava da minha resistência. As lágrimas voltaram, e senti o peso de tudo desabar. Ele me puxou para um abraço, e ali, naquele instante, senti que tudo o que eu carregava finalmente estava se dissolvendo.

As palavras estavam ali, pesando em minha garganta, e eu sabia que era agora ou nunca. Ele me olhava com uma mistura de expectativa e confusão, sem saber a profundidade do que eu estava prestes a revelar.

Respirei fundo, tentando encontrar forças para contar a ele.

— Augusto... Eu só descobri que estava grávida no mesmo dia que… que perdi. — A voz saiu fraca, um fio de som cheio de dor. — Foi no mesmo dia em que terminamos.

O rosto dele empalideceu, e ele piscou algumas vezes, como se tentasse absorver o que eu acabara de dizer.

— Você... — Ele engoliu em seco, os olhos me analisando como se precisasse confirmar que tudo aquilo era real. — Então... quando a gente terminou, você estava…

— Sim, eu estava grávida. Mas eu descobri isso e perdi tudo no mesmo dia. Não teve tempo para pensar, para fazer planos, nem mesmo para entender. E eu nunca te contei porque... porque não sabia como lidar com o peso disso tudo, Augusto. Fiquei sozinha, e, ao mesmo tempo, achei que, de algum modo, seria mais fácil para você seguir em frente sem saber.

Ele passou a mão pelo rosto, a dor evidente em seus olhos. Ficou quieto por um tempo, processando o que eu tinha acabado de revelar.

— E você teve que passar por isso sozinha… sem ninguém do seu lado. — O tom de voz dele estava baixo, com uma dor quase palpável. — Eu devia ter estado lá, devia ter feito alguma coisa.

Eu balancei a cabeça, sem conseguir encontrar as palavras certas para responder.

— Naquele dia, tudo parecia errado, como se cada escolha só fosse piorar as coisas. E eu não queria te prender a uma história de dor que você nem sabia que existia. Era a minha cruz, e pensei que eu conseguiria suportar sozinha. — Abaixei o olhar, ainda sentindo o peso da culpa, da decisão de guardar tudo isso em segredo.

Ele estendeu a mão, segurando a minha com firmeza.

— Eu ainda gostaria de ter estado ao seu lado, Lívia. De algum modo, eu sinto que essa parte de nós nunca se foi.

O toque dele me trouxe um conforto que eu não esperava, uma conexão que parecia ultrapassar o tempo, os anos, a dor. Senti um alívio tomando conta de mim, como se finalmente tivesse me libertado de algo que me sufocava.

— Augusto, eu sinto muito. — A voz mal saiu, embargada com a sinceridade de tudo o que eu guardava.

Ele se aproximou ainda mais, o olhar cheio de uma ternura que me desarmou.

— Eu sei, Lív. — Ele acariciou meu rosto, e, naquele instante, percebi que talvez ele sentisse tanto quanto eu. — Eu só quero que você saiba que, não importa o que aconteça, eu sempre estarei aqui.

Mais populares

Comments

Erlete Rodrigues

Erlete Rodrigues

sem comentários 😡😡😡

2024-12-26

2

Meire

Meire

Vocês terminaram não, você terminou!
Quer saber fiquei feliz de você ter perdido o filho dele senão ele nunca ia ficar sabendo que era pai, você sendo essa egoísta que é nunca ia contar e se ficasse sabendo ia ser agora depois de tantos anos e teria perdido os melhores momentos do filho!
Você não me comove em nada com essas lágrimas de crocodilo!

2024-11-20

1

Fatima Maria

Fatima Maria

😭😭😭😭😭😭😭😭😭😭😭😭😭😭😭😭😭😭😭😭

2024-11-06

1

Ver todos

Baixar agora

Gostou dessa história? Baixe o APP para manter seu histórico de leitura
Baixar agora

Benefícios

Novos usuários que baixam o APP podem ler 10 capítulos gratuitamente

Receber
NovelToon
Um passo para um novo mundo!
Para mais, baixe o APP de MangaToon!