Iriel
A escuridão da floresta se estende como um manto espesso, envolvendo cada árvore e arbusto em sua penumbra. Apenas a luz suave da lua consegue penetrar entre as folhas, criando um jogo de sombras e reflexos que dança ao longo do chão da mata.
O dia está prestes a amanhecer, e eu me encontro nas copas das árvores, observando atentamente o que se passa ao meu redor. Neste momento, estou avaliando o impacto da ventania que eu mesmo causei e fico aliviado ao perceber que, felizmente, não há grandes danos nas proximidades.
Contudo, essa sensação de tranquilidade é subitamente interrompida. De repente, ouço passos suaves entre as folhas secas e a vegetação do solo, um som delicado que altera minha percepção da quietude da noite. Instintivamente, fico em alerta, os sentidos aguçados, pronto para responder a qualquer imprevisto.
E então, para minha surpresa, escuto sua voz surgindo do meio da mata:
— Olá! Tem alguém aí?... Olá!
Uma onda de incredulidade me percorre. Negando com a cabeça, em um gesto quase automático, respiro fundo e sussurro para mim mesmo:
— Só pode ser brincadeira...
Alice... como é possível que ela esteja aqui novamente? Não posso me aproximar dela. É uma situação extremamente arriscada, considerando que ela ainda não conseguiu lidar adequadamente com sua energia.
Ao mesmo tempo, não posso simplesmente abandoná-la aqui na floresta, cercada por essa escuridão. E se uma onça aparecer outra vez? Essa possibilidade me aterroriza, e me deixa em um dilema muito complicado.
E assim, ao observar a cena de cima das copas das árvores, percebo que há uma distância segura entre mim e ela. Ela começa a caminhar na direção da cabana, e eu a sigo, flutuando suavemente entre os galhos, utilizando a energia que possuo para me mover com leveza.
A cada passo, faço questão de pisar com cuidado sobre os galhos, evitando qualquer ruído que possa chamar sua atenção. Enquanto sigo seus movimentos, tenho uma visão privilegiada dela, iluminada pela luz tênue da lamparina que segura em suas mãos. A luz destaca suas feições enquanto ela se aproxima da cabana.
Chegando até a cabana, ela bate na porta, olhando nervosamente para os lados, como se estivesse receosa de que alguém a visse ou a interrompesse. A pulsação em seu peito parece acelerar, e o toque insistente de suas mãos na porta revela a urgência que a guia.
— Ei? Por favor... podemos conversar? — ela chama, sua voz tremulando ligeiramente, misturando esperança e apreensão.
A cena me fascina, e fico aqui, observando de minha posição privilegiada, ciente do delicado momento que se desenrola diante de mim. Enquanto a observo do alto, tomo uma decisão e me dirijo a ela com firmeza:
— O que você deseja? Eu não te pedi para se afastar daqui? Por que você retornou? — minha voz ecoa na noite, levada suavemente pela brisa fresca.
Ela se vira rapidamente, levantando a lamparina que traz consigo, e começa a se afastar da porta, girando embaixo das árvores como se tentasse me encontrar, questionando:
— Onde você está?
Respiro fundo, sentindo a tensão no ar, e respondo de forma incisiva:
— Isso não importa. Saia imediatamente, daqui! Você quer correr o risco de ser atacada por outra onça, novamente?
Ela então levanta a lamparina bem acima da cabeça, suas mãos firmes segurando a fonte de luz, e grita com toda a força que consegue, tentando me enxergar na penumbra:
— Eu não me importo... Não me importo em ser atacada por mais uma onça se isso me ajudar a compreender quem você realmente é.
As palavras dela chegam até mim, com grande impacto e, meu coração dispara dentro do peito. A vontade de descer e ir até ela é imensa, como uma chama que me consome por dentro. No entanto, antes que eu consiga articular uma resposta, Augusto aparece, acompanhado de Natanael e mais algumas pessoas.
Alice os olha atônita, enquanto dá alguns passos para trás, buscando um pouco de distância. Nesse momento, a voz firme de Augusto ressoa através da mata, quebrando o silêncio envolvente:
— Já discutimos isso anteriormente, senhorita Alice. Por favor não venha mais aqui, por enquanto. Eu estarei ao seu lado para ajudá-la, e em breve, você terá a oportunidade de conhecê-lo de verdade. Agora, por favor, vamos embora. Permanecer aqui é muito arriscado.
Alice, parecendo sentir uma mistura de ansiedade e confusão, responde com a voz trêmula:
— Não... Por que tanto mistério? Por que você não me diz tudo de uma vez? Quem ele é? O que tudo isso significa?
Enquanto os observo, percebo que a situação está se arrastando, tornando-se cada vez mais insuportável e angustiante. A sensação é como se o tempo estivesse se estendendo sem propósito, aumentando a tensão a cada momento.
— Leve-a daqui, Natanael — digo com firmeza, minha voz ecoando no ar como um comando claro e resoluto.
Augusto e Natanael, visivelmente alarmados, lançam olhares apreensivos ao redor, buscando minha presença a todo custo, mas não conseguem me localizar. A inquietação é evidente em seus semblantes.
Então, em um tom ansioso, Augusto, diz:
— Peço desculpas, Iriel; eu deveria ter estado mais atento ao comportamento da senhorita Alice.
As suas palavras soam como um murmúrio de arrependimento, um reconhecimento da gravidade da situação em que nos encontramos, e a pressão do momento torna tudo ainda mais intenso.
Eu, por minha vez, não posso evitar um profundo suspiro. Então, digo com um tom sério:
— Está certo, Augusto, mas é fundamental que isso não aconteça novamente até que ela esteja realmente pronta.
Ele acena rapidamente em concordância, respondendo:
— Pode deixar. Vou garantir que isso não se repita.
Nesse momento, a voz de Alice se eleva, cheia de firmeza e um pouco de indignação:
— Eu estou aqui! Parem de conversar como se eu não estivesse presente! Por que todo esse mistério?
Sem hesitar, respondo de imediato:
— Alice, ninguém está fazendo mistério. Pare de ser tão teimosa! Vá com eles e, quando o momento chegar, você vai entender quem eu sou.
Neste instante, um silêncio se faz presente, e Natanael se aproxima dela com cautela, dizendo:
— Alice, por favor, vamos voltar. A Melissa está apenas chorando lá e dizendo que, se você estiver morta, a culpa é dela por ter te ajudado.
Alice parece ponderar por um momento, e então sua voz suave surge novamente, soando mais calma desta vez:
— Iriel? Esse é o seu nome?
Sem demora, respondo:
— Sim, Alice, esse é meu nome.
E então ela continua e diz:
— Você me dá sua palavra, Iriel? Me dá sua palavra de que, se eu seguir o que o Augusto me diz, você se apresentará a mim? E que eu irei entender tudo isso?
Dou um pequeno sorriso enquanto ajusto meu chapéu na cabeça e digo:
— Tem minha palavra, Alice. Se você seguir o que ele diz, nos veremos mais cedo do que imagina. E eu estarei aqui, te esperando como sempre.
Observo-a rodear com a lamparina erguida, tentando me localizar a todo custo. Mas então, ela finalmente diz:
— Tudo bem, então, eu irei... mas voltarei.
Com certa pressa, digo:
— E eu estarei aqui... aguardando seu retorno.
E assim a observo se distanciar, seguida por Natanael e Augusto. Então, finalmente, com um pulo certeiro, chego ao chão, me erguendo lentamente, enquanto a brisa balança suavemente meu casaco.
Enquanto a observo deixar o lugar, com a lamparina nas mãos, cuja luz tênue dança suavemente entre as árvores, sinto um aperto no peito ao vê-la se afastar e se perder na densa vegetação.
O crepitar da luz parece ecoar em meu coração, e, em um gesto instintivo, ajusto meu chapéu, tentando guardar um último vislumbre dela. Com um leve suspiro, lanço um murmúrio quase inaudível ao vento:
— Não demore, minha Alice... não demore.
As palavras saem de meus lábios carregadas de ansiedade, como se a floresta ao redor pudesse ouvir meu desejo de que ela retorne rapidamente, trazendo consigo a segurança de sua presença.
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Atualizado até capítulo 47
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