Iriel
Enquanto eu e Augusto percorremos a mata, a escuridão ao nosso redor é suavemente iluminada pela luz prateada da lua, que brilha intensamente, criando sombras dançantes no chão.
O ambiente é envolto em um manto de mistério, com os sons da vida noturna se fazendo presentes: os grilos cantando em coro, e o farfalhar das folhas, nas árvores.
Num tom de preocupação, volto-me para Augusto e digo:
— Você não deveria ter compartilhado com Alice quem foi o responsável pela morte do pai dela. Essa revelação com certeza despertará nela o desejo de vingança, e isso pode complicar muito a nossa missão.
Ele então solta um suspiro profundo, como se o peso da decisão que havia tomado estivesse finalmente se manifestando. Vira-se para mim e diz, com a voz carregada de sinceridade:
— Eu não tive outra escolha, ela estava realmente determinada a descobrir a verdade. E, para ser completamente honesto, acredito que foi mais do que justo que ela soubesse disso.
Concordo com a cabeça, compreendendo a situação, e continuo a falar à medida que avançamos na mata:
— Você precisa começar a orientá-la o quanto antes. É fundamental que ela ajuste a frequência. Agora, mais do que nunca, será necessário que ela se encontre comigo para que possamos trabalhar juntos.
Augusto concorda com a cabeça, e, à medida que chegamos ao topo da colina, o vento começa a se intensificar, soprando com bastante força. Ajusto o meu chapéu para que não seja levado pelo ar e, juntos, dirigimos nossos olhares em direção ao horizonte, onde o céu se encontra com a terra, pintando uma cena de beleza indescritível.
— Você tem consciência de que ela pode te rejeitar, não é? — comenta ele, ainda com os olhos fixos ao longe.
Sorrindo de forma tranquila, respondo:
— Eu tenho plena consciência disso. No entanto, sinto uma leve intuição de que iremos nos entender muito bem. Afinal, ela é minha companheira de alma.
Augusto, com um gesto pensativo, cruza os braços à altura do peito. Ele inclina o olhar na minha direção, demonstrando uma curiosidade genuína. Então, com um leve pigarrear para clarear a voz, faz uma pergunta que paira no ar.
— Você observou ela vivendo tantas vidas ao longo desse tempo todo... É provável que, nessas inúmeras experiências, ela tenha conhecido amores terrenos, constituído famílias e até mesmo tido filhos. Desculpe pela curiosidade, mas isso nunca lhe trouxe incômodo?
Um sorriso se forma em meu rosto enquanto balanço a cabeça de forma negativa, pronto para explicar meu ponto de vista
— Não, de forma alguma. A ligação que tenho com ela é transcendental, algo que ultrapassa as limitações humanas que vocês conhecem.
Ele balança a cabeça e, de forma contemplativa, diz:
— Uau! Isso é incrível. Duas almas companheiras separadas por dimensões. Mas, você diz que ela se sacrificou pelos originários da terra quando vocês chegaram aqui. O que aconteceu?
Inspiro profundamente, e com a voz firme, começo a explicar:
— O que ocorreu foi um conflito de grandes proporções, envolvendo espécies oriundas de diferentes anéis do sistema Terra. Esses colonizadores vieram com um propósito singular: a conquista dos recursos naturais que existem neste sistema.
Minhas palavras parecem chocá-lo. Ele arregala os olhos de surpresa e, com um tom de preocupação, questiona:
— Diferentes anéis? Nossa pesquisa ainda não tem conhecimento sobre isso.
Com um aceno de cabeça, confirmo sua interrogação e continuo:
— Sim, são anéis, chamamos assim as diversas camadas que compõem este sistema em que vocês vivem. Cada um deles abriga diferentes formas de vida e tecnologias.
Ele, passa a mão pelos cabelos de maneira nervosa e me pergunta, com uma expressão de confusão:
— Mas então, eles são como vocês?
Imediatamente, respondo, negando com firmeza:
— Não. Nós somos seres que existem em dimensões diferentes, enquanto eles são espécies que habitam a mesma dimensão que vocês. Podemos dizer que eles são, de certa forma, seus vizinhos. Muitos dos que decidiram ficar por aqui se refugiam para além das geleiras e em locais tão remotos que vocês quase não conseguem acessar. Esses lugares são inexplorados e isolados, longe do olhar humano.
Ele, ainda me olhando fascinado, diz:
— Isso sanou boa parte dos meus questionamentos.
Eu então olho firme para ele, dizendo:
— Mas nunca deixe de questionar. Voltando ao quesito do sacrifício da minha companheira, foi precisamente por isso: para ajudar muitos originários a sobreviverem e a garantirem que seus descendentes povoassem este sistema até hoje. Ela os protegeu com tudo o que podia, lutou bravamente ao lado de guerreiros e guerreiras, e foi assassinada em batalha.
Augusto franze o cenho, demonstrando uma expressão de confusão. Ele me lança um olhar intenso e questionador, como se tentasse esclarecer uma situação que parece obscura para ele.
— Mas você não estava ao lado dela? — ele pergunta, sua voz transmitindo um pouco de incredulidade.
Sinto um frio na barriga e nego com a cabeça. Uma onda de desconforto me invade, uma sensação estranha que parece persistir, mesmo após tanto tempo.
— Não — respondo, com a voz firme, mas interiormente lutando contra os meus próprios sentimentos inconfessáveis. A lembrança daquele momento ainda me incomoda, e é um peso que carrego comigo até hoje.
Ele, percebendo que não quero falar sobre isso, muda o foco de sua próxima pergunta, dizendo:
— Mas vocês têm habilidades únicas. Por que ela não as usou para se defender?
Inspiro profundamente, o vento gelado me envolvendo, enquanto ergo meu chapéu e passo a mão pelo meu cabelo, dizendo:
— Ela ajudou muitos, fazendo uso de seu próprio líquido vital, o que vocês chamam de sangue por aqui. Isso a deixou ainda mais fraca para enfrentar os adversários.
Ele, num momento inesperado, exibe uma expressão de compreensão enquanto reflete sobre o que eu disse. Começa a se movimentar agitado, caminhando de um lado para o outro, com a mão na cintura, como se tentasse organizar suas ideias.
Em meio a esse turbilhão mental, sua voz explode em incredulidade:
— Meu Deus! Você está dizendo que pode ter ocorrido uma mutação genética? Eu quero dizer, se for isso, pode ter acontecido porque o sangue de vocês era diferente dos originários.
Sua mente parece elaborar possibilidades e conjecturas, enquanto ele continua a andar, sua excitação e curiosidade transparecendo em cada movimento. Ele interrompe sua caminhada, direciona o olhar em minha direção e expressa:
— Você não acha que isso pode justificar a presença de indivíduos com tipos sanguíneos raros, cujas origens e características não são compreendidas pela ciência convencional?
Neste momento, fixo meu olhar nele e respondo com uma voz tranquila:
— Calma, Augusto, isso é irrelevante. O que importa é que o sistema Terra agora está definitivamente sob supervisão para reorganização.
E rapidamente continuo:
— E o que realmente importa é o que te pedi: ajude a Alice o quanto antes, com a energia dela. Quando ela estiver pronta, peça para que ela venha até mim; estarei esperando.
Ele assente e, assim, retornamos pela mata, enquanto a luz da lua ilumina nossos caminhos. Neste instante, só consigo pensar em Alice e no nosso encontro que se aproxima.
***Faça o download do NovelToon para desfrutar de uma experiência de leitura melhor!***
Atualizado até capítulo 47
Comments
Vivi
estória cheia de mistérios adoro
2024-10-11
2