Alice
À noite, cai sobre o alojamento enquanto eu estou no quarto, me olhando em frente a um pequeno espelho. O vestido que uso é branco, de tecido simples, e chega quase até meus pés. Sinto-me um pouco estranha nele, já que não sou muito de usar vestidos.
Melissa rapidamente entra no quarto e, me olhando, diz:
— Ficou perfeito em você, amiga.
O que Melissa me diz faz eu me sentir um pouco mais confiante. Olho novamente para o meu reflexo no espelho, tentando enxergar o que ela via. O vestido, apesar de simples, realmente me cai bem, moldando minhas curvas de uma forma que eu nunca tinha notado antes.
Seu branco puro, que antes me parecia um pouco frio, agora me transmite uma sensação de leveza e pureza. É como se o vestido estivesse me dizendo que eu também podia ser assim: delicada e serena.
Eu então suspiro e, passando a mão pelo vestido, digo:
— Obrigada, Mel. Eu resolvi que vou ficar de vez aqui com eles. Depois do que o Senhor Augusto me contou sobre meu pai, quero permanecer aqui; de certa forma, por eles também serem pesquisadores, parece fazer com que eu me sinta mais próxima do meu pai. Entende?
Ela se aproxima e me abraça. Enquanto nos olhamos através do reflexo do espelho, diz:
— Eu entendo, amiga. Mas você não está fazendo isso com segundas intenções, não é? Digo, querendo se vingar de quem assassinou seu pai.
Rapidamente nego com a cabeça, embora, de imediato, quando soube, eu realmente senti uma fúria crescente e quis revidar de certo modo. Mas entendi que esse não é o melhor caminho para resolver as coisas.
Ao invés disso, quero ajudar eles a irem mais a fundo nas pesquisas com base no que meu pai já deixou. Quero saber mais sobre essas coisas; de certo modo, isso parece estar me instigando a avançar.
Assim me viro e olho para Melissa nos olhos ao responder:
— Não quero vingança, Mel, quero justiça, e é isso que meu pai terá: justiça. Quero ajudar o pessoal daqui, quero me envolver nisso e provar a todos que meu pai tinha razão no que descobriu em suas pesquisas.
Melissa, então, colocando uma mecha do meu cabelo atrás da minha orelha, diz:
— Olha, eu só quero o melhor para você, amiga. E então seremos as duas a permanecer aqui, pois eu também não irei voltar. Estamos nisso juntas, como sempre.
Eu pego na mão dela e, em seguida, a abraço forte, susurrando:
— Eu te amo, Mel. Obrigada por tudo.
Ao nos separarmos do abraço, ela sorri e limpa as lágrimas, me dizendo:
— Imagina, sou eu quem tenho que te agradecer. E, eu também te amo. Agora vamos lá fora com o resto do pessoal.
E assim, saímos do alojamento e nos juntamos ao pessoal nas barracas. Uma grande mesa está disposta ao ar livre, onde começam a servir o jantar. Melissa, que está conhecendo melhor Natanael e sua espécie, logo se junta a ele, enquanto eu observo tudo ao meu redor.
E é nesse instante que vejo, mais afastada, uma trilha. Meus olhos, surpresos, observam Augusto emergir por ela; ele parece estar vindo de algum lugar. Ele diz algo a um dos homens, apontando na direção de onde veio.
Com meus sentidos em estado de alerta, concentro minha atenção neste homem que acabou de receber alguma instrução de Augusto. Ele começa a preparar um prato com diversos alimentos que se encontram à mesa.
Logo, percebo que ele finalizou o prato e, num gesto sutil, lança um olhar ao redor, quase capturando-me em flagrante, enquanto o observo cuidadosamente.
No entanto, consigo disfarçar rapidamente, desviando meu olhar antes que ele suspeite de minha observação. Ao aparentar sentir-se à vontade e seguro de que não está sendo observado, ele se dirige à trilha.
E, sem pensar muito, eu o sigo sorrateiramente, me embrenhando na mata atrás dele. A noite é iluminada apenas pelo brilho opaco da lua, fazendo sombras dançarem por entre as árvores.
Então logo chegamos a uma cabana, e eu me apresso a me esconder atrás de uma árvore, observando-o. Ele olha de um lado para o outro e bate na porta, deixando o prato com os alimentos no chão e retorna rapidamente pela trilha, quase correndo. Eu então volto meu olhar para a porta da cabana.
A ansiedade me consome neste momento, e minha total atenção se fixa na porta quando ela é aberta lentamente, e o rangido da madeira reverbera na escuridão da mata. Endireito-me, estreitando meus olhos, quando vejo uma figura.
Parece ser um homem trajando um sobretudo marrom, e na cabeça, seu chapéu preto, de maneira um pouco torta, cobre boa parte do seu rosto. Estranhamente, meu coração acelera.
— Quem é você? — sussurro, deixando as palavras serem levadas pelo vento.
E, como se me ouvisse ele ainda curvado, apanhando o prato com os alimentos no chão, lentamente ergue a cabeça. Seu olhar se fixa em minha direção de maneira intensa, e esse movimento é tão calculado e cuidadoso que sinto um arrepio percorrer todo o meu corpo.
A tensão no ar é palpável. Neste momento, acabo pisando em um galho seco que estala sob meus pés, o barulho parece amplificar o silêncio ao nosso redor, atraindo ainda mais a sua atenção para mim.
Meu coração dispara, como se estivesse prestes a sair pela boca, pulsando em um ritmo acelerado. Começo a tremer de forma incontrolável, e não estou exagerando, a tremedeira é real, como se uma força poderosa estivesse emanando dele em minha direção, envolvendo-me em uma espécie de energia avassaladora.
É uma mistura de medo e curiosidade que me domina, e, a cada instante que passa, a atmosfera ao nosso redor se torna ainda mais carregada, intensificando a conexão silenciosa entre nós. No entanto, tudo acontece em um instante, de forma tão rápida que mal consigo processar.
De repente, como um fantasma vindo do nada, uma onça aparece diante de mim. Sem qualquer aviso prévio, ela salta em minha direção, exibindo seus dentes afiados e rosnando de maneira feroz. O coração acelera em meu peito e, completamente tomada pelo desespero, afasto-me da árvore e deixo-me cair no chão, revelando-me de vez.
— Ahhhh — grito, num desespero quase instintivo, fechando os olhos enquanto involuntariamente coloco os braços à minha frente, como se essa fosse a única defesa que eu pudesse oferecer a mim mesma.
Aguardo, então, o impacto do ataque que parece inevitável, prendo a respiração e sinto o tempo se arrastar. O ataque, porém, não vem. Lentamente, com cautela, abaixo os braços. Aos poucos, começo a abrir os olhos, e a cada milésimo de segundo, uma sensação estranha se apodera de mim.
Quando finalmente consigo ver, meus olhos se arregalam de espanto ao perceber que a onça está flutuando acima de mim, suspensa no ar, desafiando todas as leis da gravidade.
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Atualizado até capítulo 47
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