Alice
Assim que saio do banheiro, escolho uma camiseta grande e um short mole, e me visto com um pouco de pressa. Olho para o espelho do guarda-roupas e vejo que meus olhos ainda estão vermelhos. Um suspiro profundo me escapa, e eu pego o secador para secar meu cabelo, depois passo a escova e saio do quarto.
Dirijo-me para a cozinha e vejo Melissa preparando o jantar. Sem muita certeza de como me comportar, dou uma leve pigarreada para chamar sua atenção. Ela se vira, me observa com uma expressão séria, tampa uma panela e cruza os braços.
— Você não devia ter tratado o Natanael daquela forma, Ali. Ele só estava sendo gentil.
Aceno com a cabeça, dizendo:
— Eu sei, Melissa. Eu sou realmente insensível, deve ser por isso que...
Antes que eu possa terminar, ela vem até mim e me abraça, beijando suavemente minha cabeça.
— Está bem, você foi um pouco grossa com ele, mas desculpe eu ter dito que você é insensível. Você não é. Apenas é um pouco complexa.
Dou um sorriso meio forçado, mas logo me recomponho e respondo:
— Esqueceu de mencionar que sou chata, monótona, quase mórbida.
Melissa sorri e diz:
— Ai, Alice! Para com isso!
Rimos juntas, abraçadas. Melissa então se afasta rapidamente e corre para o fogão, dizendo:
— Droga, o macarrão vai queimar!
Ainda sorrindo, me aproximo do balcão e ofereço ajuda:
— Quer que eu ajude?
Enquanto ela tira a panela do fogo e coloca o macarrão no escorredor, diz, chacoalhando o dedo por ter tocado na vasilha quente:
— Não precisa, amiga, eu já estou quase terminando.
Assinto e me dirijo à geladeira para pegar um pouco de água. Ao abrir a porta, o aroma de uva imediatamente me envolve. Meus olhos são atraídos para uma torta. Sem demora, Melissa comenta:
— Ah, a torta que está aí foi o Natanael quem trouxe. E adivinha, é de uva! Uma das suas preferidas.
Engulo em seco enquanto observo a torta, e uma sensação estranha começa a tomar conta de mim. Lembro-me claramente dele mencionando que aproveitássemos a torta antes de ir embora.
Pego a torta, encarando-a com uma sensação de familiaridade estranha. Coloco-a no balcão e pego uma faca, cortando um pedaço.
— Ei! Espera para jantar primeiro. A sobremesa vem depois — diz Melissa, movendo-se de um lado para o outro na cozinha.
Mas sua voz e sua imagem tornam-se borrões de fundo. Ignorando sua advertência, levo o pedaço da torta até a boca e dou a primeira mordida. Imediatamente, o sabor divino da torta preenche meu paladar. Meus olhos se arregalam e meu coração acelera, mas, acima de tudo, às lágrimas começam a escorrer incontroláveis.
É como se a torta me transportasse para um lugar familiar, porém distante e desconhecido. Choro compulsivamente, uma cena quase surreal: eu, saboreando a torta maravilhosa e chorando sem parar. Melissa percebe minha reação e se aproxima, visivelmente preocupada.
— Você está chorando? O que aconteceu, Alice? — pergunta ela, com a sobrancelha erguida, revelando sua confusão.
Com as mãos tremendo levemente e o coração batendo forte, olho para ela entre as lágrimas e, em um sussurro, digo:
— Eu não sei... Eu me senti... acolhida... Senti uma nostalgia, saudade de alguém de um lugar... que não sei quem ou onde é.
Melissa ainda me observa com uma expressão de crescente preocupação, seus olhos suavizando à medida que tenta compreender o que está acontecendo. Ela se aproxima e, com um gesto reconfortante, me envolve em um abraço acolhedor.
Fecho os olhos por um momento, lutando para controlar o choro que teima em escapar. As lágrimas continuam a escorregar pelo meu rosto, e eu respiro fundo para tentar me acalmar. A torta de uva parece ter desencadeado uma avalanche de emoções reprimidas que eu não sabia que estavam aqui. Lentamente, abro os olhos e encaro Melissa, esforçando-me para encontrar as palavras para descrever o que estou sentindo.
— É como se essa torta... — começo, a voz trêmula e carregada de emoção — me lembrasse de algo que eu não consigo exatamente definir. Não é só o sabor, mas o cheiro, a textura... É como se eu tivesse vivido um momento muito especial relacionado a isso, mas agora não consigo me lembrar exatamente do que se trata.
Melissa parece captar a profundidade do que estou dizendo. Ela passa a mão suavemente pelas minhas costas e diz com ternura:
— Às vezes, esses sentimentos vêm como memórias difusas de algo que nem sabemos que vivemos. Pode ser algo que aconteceu há muito tempo ou uma sensação associada a um momento significativo para você.
Enquanto as palavras dela ecoam em minha mente, o aroma da torta continua a invadir meus sentidos, e a nostalgia persiste, como se houvesse uma conexão inexplicável com um passado distante e esquecido.
— Você acha que isso pode ter algo a ver com a minha infância? — pergunto, mais para mim mesma do que para Melissa. — Tipo, algo que eu possa ter esquecido, mas que agora voltou à tona?
Melissa me dá um olhar encorajador e responde:
— Pode ser. Às vezes, o subconsciente nos envia esses sinais para nos lembrar de algo importante. Talvez você possa tentar se lembrar de momentos específicos da sua infância que se relacionem com isso. Falar sobre essas memórias pode ajudar a entender melhor o que está acontecendo.
Aconchego-me ainda mais em seu abraço, o calor e o conforto de sua presença me ajudando a lidar com a intensidade das minhas emoções. O sabor doce da uva persiste em minha boca, criando uma sensação envolvente. Fecho os olhos novamente, tentando puxar à tona qualquer lembrança associada a esse gosto.
— Eu vou tentar. Obrigada por estar aqui para mim, Mel. Você sempre sabe o que dizer e como me ajudar — digo, minha voz um pouco mais firme.
Melissa sorri, visivelmente aliviada ao ver que estou começando a me acalmar.
— Não se preocupe, Ali. Estamos aqui para isso, para apoiar uma à outra. Vamos conversar mais sobre isso quando você se sentir pronta. Estou aqui para o que você precisar.
Assinto com gratidão, e Melissa volta ao fogão, cuidando para que o jantar não queime. Eu permaneço, mergulhada em pensamentos e memórias, aguardando que a conexão com o passado se revele.
O ambiente da cozinha continua a me envolver com seu conforto familiar, e eu me deixo levar pela esperança de que, ao revisitar minhas memórias, eu possa encontrar uma compreensão mais clara sobre o que está me afetando.
***Faça o download do NovelToon para desfrutar de uma experiência de leitura melhor!***
Atualizado até capítulo 47
Comments