Iriel
Enquanto ando pelas ruas de cristal da cidade dourada, o pôr do sol intensifica o brilho resplandecente do lugar. A atmosfera ao redor é envolvente, e um sorriso se forma em meu rosto ao recordar o que fiz recentemente.
Preparei aquela torta com minhas próprias mãos e Natanael a levou para suas vizinhas, especialmente para Alice. A torta de uva sempre foi uma das suas favoritas desde que chegamos à terra. Ela se deliciava cada vez que os povos originários a presenteavam com uma dessas iguarias.
Ainda sorrindo, dirijo-me à minha videira de uvas. Abro o pequeno portão branco que cerca toda a minha plantação e ajusto o meu chapéu preto, antes de começar a caminhar entre os cachos carregados de uvas. Meus dedos deslizam suavemente por eles.
— Nossa missão será um sucesso. Tenho fé de que tudo dará certo no final. Você, assim como muitos, será finalmente livre, meu amor. Nos encontraremos novamente, e nada mais irá nos separar. Eu te amo, Alice.
Minhas palavras, carregadas pela brisa, se misturam com o aroma inconfundível das uvas, envolvendo o ar ao redor. No fundo, espero que a torta que enviei a console, neste momento de tribulação que ela enfrenta.
Eu mesmo gostaria de estar ao seu lado; cada instante torna-se mais difícil de ignorar, a nossa eterna ligação. Enquanto mergulho nesses pensamentos, ouço passos se aproximando e, sem precisar olhar para trás, reconheço que é Leonard.
Ele caminha mais rápido e se coloca ao meu lado, acompanhando-me em silêncio. Continuo a olhar para frente, passando gentilmente os dedos pelos cachos de uvas.
— Tudo dará certo, Iriel. No final, vocês se reencontrarão e viverão eternamente o amor de vocês — diz Leonard com uma calma reconfortante.
Dou um profundo suspiro e respondo:
— É, mas é neste instante que ela mais precisa de mim.
Após minhas palavras, Leonard permanece em silêncio por um momento. O crepúsculo pinta o céu com tons de laranja e rosa, refletindo uma luz suave sobre a cidade dourada e sobre nós.
— A distância e o tempo podem ser cruéis — Leonard diz, sua voz carregada de empatia. — Mas a força do seu amor e a certeza de que, um dia, estarão juntos novamente, são maiores que qualquer obstáculo.
A caminhada ao longo das parreiras de uvas me oferece uma sensação de tranquilidade. A terra sob meus pés e o aroma doce das frutas me ajudam a manter o foco. Meus pensamentos continuam a se voltar para Alice, e para como posso aliviar seu sofrimento, mesmo estando longe.
— A torta foi um gesto pequeno, mas eu espero que ela traga algum conforto a Alice — digo, olhando para as uvas que brilham ao sol poente. — Ela sempre adorou esses momentos simples.
Leonard concorda com um gesto de cabeça. Seus olhos observam o horizonte, onde o sol está quase se escondendo, deixando a cidade iluminada apenas pelos tons do crepúsculo.
— Você fez o melhor que pôde, Iriel. E a verdade é que, às vezes, o melhor que podemos fazer é mostrar que nos importamos, mesmo que não possamos estar fisicamente presentes.
Passo a mão pela última fileira de uvas e paro, contemplando o cenário. A brisa que passa faz com que as folhas das videiras balancem suavemente, e um sentimento de esperança começa a surgir dentro de mim.
— Eu só quero que ela saiba que estou pensando nela, que estou fazendo tudo o que posso para garantir que ela esteja segura e que, em breve, possamos estar juntos novamente.
Leonard olha para mim com um sorriso encorajador.
— E ela sabe disso, Iriel. A conexão que vocês compartilham transcende a distância e o tempo. A fé que você tem em seu amor é um farol para ela, mesmo nos momentos mais sombrios.
Diante destas palavras de Leonard, meu coração se aperta no peito e um peso esmagador toma conta de mim. Olho para ele, a dor visível em meu rosto, e minhas palavras saem com um tom desesperado:
— Não, Leonard, ela não sabe disso. Ela não se lembra de mim, não se lembra do nosso amor, não sabe quem é. E você não tem ideia do quanto isso é doloroso. É como ter um punhal cravado no coração, e cada batida que ele dá sem ela é uma dor aguda e incessante. Cada batida é uma lembrança constante, um lembrete cruel de que ela está longe, perdida para mim.
Sinto o calor das lágrimas se acumulando, mas mantenho os olhos fixos à frente, evitando que elas caiam. O crepúsculo ao nosso redor parece refletir minha angústia, enquanto a cidade dourada, com sua beleza serena, contrasta com a tempestade interna que estou enfrentando.
Leonard coloca uma mão reconfortante em meu ombro, o gesto leve, mas cheio de empatia. Ele observa o horizonte, procurando as palavras certas.
— Iriel, a dor que você sente é imensa, eu sei. Mas mesmo que Alice não se lembre agora, o amor que vocês compartilharam ainda existe em algum lugar dentro dela. E é justamente por isso que nossa missão é tão importante. Precisamos ajudar a todos que, se esqueceram, reconectando o que foi perdido para que todos, inclusive ela, possam encontrar o caminho de volta para casa.
Eu balanço a cabeça lentamente, minha voz quase um sussurro.
— Eu sei. Eu só… eu só queria poder fazer mais, estar ao lado dela agora, quando ela mais precisa de mim. Cada momento longe dela é agonizante, e a dor nunca parece diminuir.
A brisa suave que passa entre as videiras ecoa meus sentimentos, e as últimas luzes do dia começam a se apagar, mergulhando a cidade em sombras suaves. Leonard permanece ao meu lado, oferecendo seu apoio silencioso. Juntos, caminhamos em direção ao desconhecido, com a esperança de que o futuro nos traga a união que tanto ansiamos.
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Atualizado até capítulo 47
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