Pensamentos perigosos

Um mês se passa e diversos colegas meus e da Lara perguntam se viramos amigos ou algo do tipo, mas até agora ninguém teve a coragem de perguntar para ela, pelo simples fato dela parecer um limão-azedo. Até mesmo Jonathan não ficou sem receber as respostas secas e “rudes” dela.

Bebo meu café estando junto de Angélica, Josh, Lara e Hailey, apenas eu e Lara estamos em pé. Eu e o pessoal estamos discutindo sobre qual seria o melhor lugar para se passar as férias.

— Então… Para mim, seria Paris. A cidade do amor, a Torre Eiffel, o croissant, as músicas em francês.

— Acho que está vendo muitos filmes de romance, Hailey.

— Ou você que nunca viu algum, senhor gelo.

— Posso ser tudo, menos gelo, sou a pessoa mais carismática do mundo.

— Um poço de humildade. — Lara sorri pela primeira vez e revira os olhos.

— Meu Deus, será que hoje o mundo acaba? — Josh olha pela janela.

— Por que acha isso?

— Depois de um mês, você sorriu, e ainda mais por algo que o Ethan disse.

— O quê? Vai dizer que vocês agora são amigos? Qual é, todo mundo já se perguntou umas dez vezes nesse mês.

Escondo uma risada ao ver que ganhei a aposta. Demorou, mas ganhei.

— Coloquei na minha cabeça que não posso ser mais rancorosa e agir como uma menininha que acabou de sair do Ensino Médio.

— Uau, então vocês realmente são amigos agora.

— Mas e então? Ethan e Lara, para onde vocês iriam?

— Las Vegas. — dissemos em uníssono.

— Parece que gostos parecidos. — Eu e ela trocamos olhares rapidamente, antes de ver todos sorrindo uns para os outros.

— Bom, nosso intervalo está terminado, precisamos voltar ao nosso trabalho. — Lara e os demais terminam seus cafés e colocam as xícaras na pia, indo embora, mas seguro levemente o cotovelo dela.

— Ei… parece que perdeu a aposta.

— Me recuso a ir em encontros com você.

— Felizmente, você perdeu e terá que ir, mas se isso te fazer se sentir melhor, eu posso conseguir ingressos para a próxima corrida para você.

— Você não faria isso, está só brincando.

— Tenho cara de que estou brincando?

Ela me olha como se pudesse olhar no fundo da minha alma e, por fim, abre um sorriso. O sorriso que me desmonta por algum motivo.

— Então, vai me levar mesmo para ver a próxima corrida?

— Vou, mas só se aceitar em sair comigo.

Lara revira os olhos e cruza os braços.

— Ok, eu saio com você, mas é só pela aposta.

— Só pela aposta.

Ela se afasta e, num impulso, passo as mãos pelo cabelo, tentando esfriar a cabeça. O calor sobe em mim, e a boca seca como se eu tivesse corrido uma maratona. “Que merda, Larabelle, por que você está me afetando tanto?”, penso, a voz interna quase como um grito, uma maldição perdida na noite. Meu coração bate descompassado, e por um momento, acho que ela pode ouvir. Ou ver. Por um momento, me sinto vulnerável, exposto de uma forma que não deveria ser possível.

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Depois daquele momento, minha cabeça fica totalmente bagunçada, tudo o que passa pela minha cabeça é ela, mas que droga. Isso não deve estar acontecendo.

Olho de esguelha para a mesa dela e a vejo concentrada, mas pelo menos vejo que ela está mais sociável. Por uma ligação, descobri que ela vai a uma psicologa. Talvez seja pelo que houve.

Josh me cutuca, me trazendo de volta para a realidade.

— Ei, cara, se gosta dela, deveria disfarçar mais.

— Não gosto dela, quem disse que gosto? — volto a olhar para o computador à minha frente.

— Foi o que eu disse antes de namorar a Penélope.

— Não começa, Joshua.

— Tudo bem, tudo bem, mas o que é essa aposta?

— Como sabe?

— Eu ouvi, minha mesa é perto demais da cozinha.

— Depois eu te falo, agora para de enrolar e vai trabalhar.

— Céus, você falou como a Lara; por isso, combinam.

Reviro os olhos e volto a me concentrar nos papéis de estudo para o caso da Entrancam, nossa próxima cliente.

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Todos começam a se despedir, após um longo dia de muito trabalho e quase nenhuma interação entre nós. Mas eu até que entendo, estamos atarefados demais com o caso do Entrancam que nem tivemos tempo para jogar conversa fora.

Coloco meus fones na mochila e me aproximo da Lara, que está trancando um caderno de cadeado na gaveta.

— O que está fazendo? Desculpa, não queria te assustar. — Digo após vê-la cair.

— Muito engraçado, Carter.

— Ouch, usou meu sobrenome.

Estendo a mão, a ajudando a se levantar.

— Não é nada, são algumas anotações sobre o caso, gosto de manter o trabalho no trabalho.

— Nos vemos amanhã?

— Ahn… consegue me dar uma carona? Meu carro ficou com a minha amiga.

— Claro, vamos.

Nos despedimos de todo mundo e entramos no elevador, ficando a sós.

— Então, quando serão esses encontros?

— Relaxa, eu te ligo umas sete horas depois.

— Eu não demoro tudo isso para me arrumar.

— Tudo bem, então te dou uma hora.

— É outra aposta para você?

— Depende. — Sorrio, olhando para as portas metálicas se abrirem.

— Por que tudo para você é motivo de aposta?

— Porque sou de Vegas, Belle. — A chamo pelo apelido que dei na faculdade e entro no carro, acompanhado por ela.

— Tudo tem que ser uma aposta?

— Só com você.

Ela ri e me xingo mentalmente. Isso não pode acontecer. Não de novo.

— Ficou pensativo, está tudo bem? Ai meu Deus, tem alguma coisa no meu rosto?

Ela começa a tocar no próprio rosto enquanto abaixa o quebra-sol e seguro sua mão.

— Tem como parar com isso? Você não tem nada no rosto.

— Não? Então, por que estava me olhando?

— Eu só estava divagando, não estava especificamente te olhando.

— Ah, sim, tudo bem, então.

Ela começa a mexer no celular e sorri ao ver que na rádio começam a falar sobre Fórmula 1. Esse esporte me persegue, só pode.

— Eu não deixei você aumentar o volume.

— Cala a boca, Carter, deixa eu escutar.

Conforme as notícias vão sendo transmitidas, ela exibe diversas reações, o que me diverte e fico dividindo meus olhos entre a estrada e ela.

Quando ela dá um pulo, me assusto com a maluquice dela.

— Qual é o seu problema?

— Nenhum. Me deixa ser feliz.

— Claro que deixo, só se você parar de se remexer no banco como se fosse uma criança.

— Chato. — ela fica emburrada e aperto sua bochecha.

— Fofinha.

Nos olhamos por poucos segundos e volto meu olhar para a estrada, chegando na casa dela, se instalando um silêncio desconfortável.

— Chegamos.

— Certo.

Ela desce e a acompanho até a porta.

— Bom, acho que nos despedimos aqui. Obrigada por me dar carona, estou te devendo uma.

— Uma não, duas.

— Duas? — ela se escora no batente da grande e majestosa porta.

— Vou te levar para ver a corrida, então…

— Ah, certo, então estou te devendo duas.

Fico olhando seu sorriso e como num fim da mágica, ela estala os dedos.

— Está tudo bem?

— Sim.

— Divagando?

— Pois é.

— Me lembre de te lembrar para nunca divagar enquanto dirige.

— Tem razão. Tchau Belle.

— Tchau Casanova.

— Meu nome do meio, sério?

— Você que começou, usando meu apelido da faculdade, nada mais justo eu fazer o mesmo.

Ela acena e entra na grande casa. Fico pensando no motivo pelo qual parece que voltei para a faculdade. O mesmo sentimento de quando a vi caminhando pela universidade, vestindo um blazer e uma saia, o cabelo meio preso por um laço de seda branco e lendo um livro, exatamente como a Bela de “A Bela e a Fera”.

Ao perceber o que é, suspiro. Droga, eu estou ferrado. Muito ferrado.

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