Tentativa de mudança

 ETHAN'S POV

 Desde que aquele desgraçado do Caleb entrou no quarto da Lara, ela vem evitando tudo, até mesmo brigar comigo. Diversas vezes tive que cutucá-la, pois não estava prestando atenção no que nossa cliente dizia.

  Ela tenta ao máximo não falar sobre o assunto, mas sei muito bem que isso a afetou demais, então decido dar o tempo dela, não a provocando.

  Bato duas vezes na porta dela, esperando que a mesma abra, no tempo dela.

  Vejo a porta abrir e me surpreendo pelo fato dela estar acabada. Calça larga, moletom, cabelo que sempre fica solto, agora preso, olheiras profundas e a aparência mais cansada do que quando passava a madrugada acordada esperando por uma corrida de Fórmula 1.

— O que foi?

— Você precisa comer.

— Mas estou comendo. — Olho para dentro do quarto e vejo embalagens de comida coreana e de fast food na mesinha de centro.

— Comida de verdade, Belle...

Ela revira os olhos e dá um passo para o lado.

— Entra.

— Acho melhor não.

— Não precisa ficar assim, eu estou bem.

Ela me puxa pelo braço e suspiro, vendo que tem livros por toda parte da cama, a televisão ligada em algum canal, o notebook dela ligado com planilhas abertas. Uma verdadeira bagunça.

— Eu sei, preciso arrumar.

— Jura? Nem reparei.

Ela me olha como se tivesse pensado em alguma ideia e então se encosta na mesinha.

— Você pode arrumar se quiser.

— Eu não vou invadir o seu espaço pessoal.

— Estou te dando permissão, então arrume e pare de reclamar.

Ela se levanta e começa a pegar umas roupas.

— Vou me trocar, para comer comida de verdade, como você disse, mas você paga.

— Já que você vai se trocar, eu vou saindo.

— Não precisa, aprendi a lição, trancar a porta do banheiro e levar a roupa para se trocar lá dentro.

  Fico desconcertado quando ela fala de um jeito como se isso não estivesse afetando ela, mas sei que está, ela só está se fechando, como na época da faculdade.

— Se é assim que deseja.

  Começo a arrumar o quarto do jeito que ela sempre arrumou enquanto a mesma toma banho.

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  Após ela terminar, ela sai do banheiro com uma calça jeans e uma camiseta simples com uma estampa de uma Ferrari vermelha com a seguinte frase: “I’m a Ferrari girl”.

— Você e sua paixão por Fórmula 1.

— E o que têm?

— Nada.

— Você deve ter arrumado tudo errado. — Ela revira os olhos, começando a analisar o quarto e me encosto no batente da porta, cruzando os braços e sorrindo.

— Eu te conheço com a palma da minha mão, sei exatamente onde você guarda tudo.

  Ela arqueia as sobrancelhas e sorrio.

  Começa a analisar tudo e suspira ao ver que realmente está tudo nos seus devidos lugares que ela sempre arrumou, seja em hotéis ou no próprio quarto dela.

— Aparentemente, você acertou todos os lugares.

— A seu dispor, milady.

  Sorrimos e ela senta para colocar os tênis que havia dado de presente para ela quando fez 16 anos.

— Ainda tem esses tênis?

— Nunca se deve jogar um presente bonito no lixo. Jogue as memórias.

  Abro a boca para falar algo, então aceno, ela não está totalmente errada.

— Pronto, podemos ir.

Ela pega a bolsa e saímos, ela vai primeiro e eu vou depois, aproveitando para fechar a porta.

— Então... Aonde vamos?

— Surpresa.

— Odeio surpresas e você, mais do que ninguém, sabe disso.

— OK, OK, eu te digo, mas não reclame. Vamos ao La Pelouse.

— Tá brincando?

— Está vendo? Era por isso que eu não queria contar, você odiou.

  Reviro os olhos e ela segura meu braço.

— Na verdade, eu amei, sempre quis lá, mas minha mãe sempre reclamava, e sabe por quanto tempo ela reclama, então sempre evitei. Mas é sério, não precisava.

— Fiz isso porque não quero te ver dentro daquele quarto sem sair, precisa viver, sei que o que houve não foi fácil, mas não se esqueça de que você não está sozinha.

  Ela, que até então estava olhando para o chão, me olha com aqueles olhos que sempre me encantaram, não só pela cor.

  Larabelle sempre foi aquela garota que sempre evitou falar dos próprios sentimentos, ela sempre se fazia de forte mesmo quando estava destruída por dentro, e como sei? Bom, quando namorávamos, vivíamos saindo para almoços e jantares com a mãe dela, e devo dizer, a mãe dela é uma completa narcisista que só se importa consigo mesma.

  Diversas vezes, ela brigava com a filha em público, como se a garota estivesse fazendo birra por algo que não pode ter, e às vezes, ela só queria conversar com a mãe.

  Clarisse fazia questão de falar mal da filha para mim, mas é óbvio que não devemos dar ouvidos para uma pessoa narcisista.

  E agora que ela tem uma vida fora do radar da mãe, ela parece um pouco mais vulnerável, seus ombros que vivem tensos estão aliviados, como se estivessem extremamente aliviados de estar fora da cidade.

  Sou tirado dos meus pensamentos quando sinto um peso em meu pescoço, quando me dou conta, percebo ela me abraçando.

  De início, travo, mas retribuo, colocando minhas mãos em suas costas, bem longe da cintura ou do quadril, sabendo que isso pode a assustar, devido ao acontecimento com Caleb.

  Desde que aquilo aconteceu, venho pesquisando e estudando as consequências na cabeça de uma mulher quando este tipo de situação acontece.

  Ficamos um tempo assim, abraçados, até que ela se afasta com vergonha.

— Isso nunca aconteceu. — Ela desvia o olhar, típico dela, fingir que não teve vontade de fazer isso, e aí finge que nada aconteceu.

— Como quiser.

  Caminhamos pelas ruas e sempre fico olhando ao redor, para qualquer sinal masculino se aproximando dela, não que alguém vá tentar algo, é mais por precaução e ela não acabar se assustando e gritando, o que é bem comum entre as mulheres que sofrem tentativas assim.

  Ao chegarmos no restaurante, fico atrás dela de forma protetora e ela logo se senta em uma mesa bem afastada de todo mundo.

— O que vai querer?

— Eu vou querer um frango à Cordon Bleu.

— Certo, madame, e de sobremesa, duas fatias de bolo de chocolate com muita cobertura, acertei?

— Acertou.

  Em passos apressados, ela vai até a mesa que escolheu e se senta, colocando o capuz, como se quisesse se esconder, e tento ir o mais rápido que consigo ao ver suas pernas tremerem embaixo da mesa.

  Logo vou para a mesa e ela não levanta o rosto.

— Ei, sou eu, não precisa ficar assim, não vai acontecer nada, eu prometo, ei, olha para mim, você está segura, você está segura.

  Aos poucos, suas pernas param de tremer e ela levanta o rosto, agora com um semblante que reconheço muito bem, quando ela quer chorar, mas ela não consegue simplesmente chorar.

— Quer ir embora?

  Ela nega e suspiro.

— Tem certeza?

  Ela assente e não faço nada, apenas observo ela comer em silêncio, como se ela estivesse perdida em seu próprio mundo, alheia a tudo.

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Comments

Tatiana Fonseca Naffah Bertoni de Melo

Tatiana Fonseca Naffah Bertoni de Melo

A história é muita bem escrita. Parabéns autora

2024-10-26

0

Ceridwen

Ceridwen

Não vejo a hora de ler mais, parabéns pelo trabalho!

2024-08-23

0

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