Capítulo 2

Eram sete da noite e a famosa reunião não tinha terminado. O que eu devia fazer? Esperá-lo? Ir embora? Correr para casa!

Encostei-me contra a parede de vidro e deixei escapar um suspiro. Meu primeiro dia tinha sido bastante confuso.

Recebi uma chamada da Jéssica.

— Como estás, Julen? — pergunta ela.

— Estou bem. Já é minha hora de saída, mas ele ainda não saiu da reunião. O que eu faço? Vou embora?

— Não, não vás embora. Espera que ele saia.

— Conseguiste esclarecer que eu não sou o secretário dele?

— Ainda não. Bom, ele não me deu oportunidade.

— Ai! Não me digas isso. Então amanhã vou continuar a ser o secretário dele.

— Espero resolver isso. Deixa-me ver o que faço amanhã.

— Está bem, Jessi.

— Diz-me.

— Eu sou digitador e gestor de base de dados. Espero terminar o meu estágio com o cargo para o qual entrei.

— Claro.

Terminámos a chamada. Guardei o meu telemóvel no bolso das calças. Tirei um pacote de batatas fritas que tinha guardado na minha pasta.

Ouvi a porta a abrir-se. Muitos executivos começaram a sair. Tentei endireitar a minha postura.

— É hora de irmos embora — o meu chefe parou ao meu lado.

— Claro.

A sua expressão tornou-se interessante, pareceu cheirar o ambiente. Dirigiu o seu olhar para mim.

— Estavas a comer Cheetos?

— Sim. Queres? — E não tive vergonha de tirar o pacote e oferecer-lhe.

O seu olhar não irradiava qualquer emoção. Não gostou da minha generosidade?

— Não, obrigado. Vamos para o escritório.

— Voltar para o escritório? Mas...

— O Carlos está à espera no carro. Temos de nos despachar.

Começou a andar com a sua autoridade inata.

— Christian. Espera.

Ele parou de repente.

— Como me chamaste? — franziu a testa.

— Christian.

— E por que me chamas assim?

— Porque é assim que te chamas.

Ele estreitou um pouco os olhos.

— Quem és tu? — perguntou.

— Sou o Julen.

Os seus lábios curvaram-se num sorriso odioso.

— Não me refiro ao teu nome. Diz-me quem és tu para me chamares assim?

— Bem, até agora, sou um funcionário da tua empresa.

— Um funcionário.

— Sim. Exatamente.

— Desde quando é que os funcionários tratam os chefes pelo nome?

As suas palavras deixaram-me muito chocado. O que raio se passava com ele? O tipo tinha um ar irritado, o seu olhar era muito firme e o seu temperamento parecia-me péssimo.

— Bem. Lamento que isso te incomode. Em muitos lugares o ambiente de trabalho é muito agradável e os chefes costumam ser menos delicados em questões como essa.

Ele aproximou-se um pouco de mim.

— Achas que eu sou delicado?

— Acho. Além disso, já não estou em horário de trabalho. Posso tratar-te pelo nome.

— Fora do horário de trabalho? Achas que eu...

— Contrataram-me num horário das dez da manhã às sete da noite. São sete e meia e ainda estou contigo. Devia começar a contar isso como hora extra — sorri.

Porque, na verdade, não tinha medo de ser sincero com ele.

— Queres que te despeça? Porque, na verdade, ser meu secretário é...

— Despede-me se quiseres. A verdade é que eu não fui contratado para substituir a tua antiga secretária. Nem sequer sei porque raio te passou pela cabeça que eu era o substituto dela.

As minhas palavras deixaram-no muito chocado, notei isso na sua cara.

— Tu és...?

— Despede-me. Não há problema nenhum — sorri amplamente. — Eu não estou qualificado para ocupar o cargo de teu secretário.

Os seus olhos focaram-se nos meus olhos, nunca me passou pela cabeça que as minhas palavras estivessem a desafiar o ego do Christian.

— Onde moras? — aproximou-se de mim e meteu a mão no pacote de Cheetos. Levou um à boca.

— Moro no Caminho Real.

— Vais apanhar um táxi?

— Sim.

...🍬🍬🍬...

São dez da manhã e estou a chegar ao meu escritório. Voltei a ser digitador! O Danny Ocean canta Dembow a todo o volume através dos meus fones de ouvido.

Ligo o meu computador. Deixo as minhas coisas na minha secretária e quando me vou sentar, o meu telemóvel começa a vibrar.

— Olá?

— Onde estás? — o tom da sua voz assusta-me.

— Quem fala?

— Não gravaste o meu número?

— Bem, não me lembro de me teres pedido para adicionar o teu número e também não sei quem és.

Termino a chamada. Quem raio era? Passaram dois minutos e a porta do meu escritório abriu-se. Os seus olhos focaram-se em mim.

— Porque não gravaste o meu número? — reclamou ele.

Ele estava mesmo aqui?

— Nunca me deste.

Franziu a testa.

— Seja como for. Quero que o graves. Está bem?

— As coisas não se pedem assim — pronuncio sem medo.

Ele apoiou-se na minha secretária e aproximou-se um pouco na minha direção. Parecia muito autoritário de onde eu estava sentado.

— Custa-te obedecer ao teu chefe?

— Pensei que me tinhas despedido.

Sorriu ligeiramente, como se eu o estivesse a irritar.

— Sim. Despedi-te como digitador. Decidi que te quero contratar como meu secretário.

— Mas...

— Este escritório já não será teu. Vim buscar-te. Vou levar-te à tua nova área de trabalho.

Isto estava mesmo a acontecer comigo?

— Eu não quero ser teu secretário, no meu contrato...

— Pago-te o dobro do que diz o teu contrato.

Pagar-me dinheiro? Que fixe! Na verdade, por ser estagiário, não me pagavam.

— Porque queres que eu seja teu secretário? Pensei que estarias chateado comigo por causa de ontem.

— Sim, deixaste-me chateado. Mas gosto da maneira como me trataste. Não tenho medo de ti!

Ri-me ligeiramente.

— Na realidade não tenho medo de ti. Mas não tenho vontade de trabalhar como secretário. Não quero acabar a ser teu escravo.

— Meu escravo? Não te vejo como um escravo.

— Se quiseres uma nova secretária, posso informar a minha escola. Há pessoas que estudaram para ser...

— Vem comigo! Por favor!

Isso foi muito inesperado. Ouvi-lo dizer "por favor".

...🍬🍬🍬...

O meu novo escritório era menos espaçoso do que o anterior, na verdade, não era um escritório propriamente dito. A minha secretária ficava mesmo em frente ao escritório central, onde o Christian costumava estar.

— Podes vir ao meu escritório? — o Christian tinha-me ligado.

Não demorei nada.

— Em que posso ajudar? — perguntei em tom jovial.

— Que educado soaste.

— É que senão, depois sinto que magoo o teu ego — ri-me ligeiramente.

— És muito direto nas tuas palavras. Gosto disso.

— Eu...

— O que tenho na minha agenda de hoje?

— Reunião à uma da tarde com o Carlos Mayers. Jantar com a Juliana Betancourt às seis da tarde e...

— Preciso que me arranjes um ramo de flores para a Juliana Betancourt. Agenda uma consulta com a minha mãe este fim de semana e agenda uma consulta com o meu advogado para restringir a minha ex-mulher.

— Está bem. Mais alguma coisa? — fiz contato visual com ele.

— Porque tens uma chupa-chupa na boca enquanto falas comigo?

Sorri.

— Queres uma? Ando sempre com doces — e de forma muito casual, tirei um Tutsi do bolso e atirei-lhe.

As suas mãos apanharam-no no ar.

— O que foi isso? — perguntou, confuso.

— Para te adoçar o dia. Dizem os rumores na tua empresa que costumas ser muito amargo.

— Amargo? Eu não...

— Vou-me embora. Vou começar as minhas tarefas para hoje. Se precisares de alguma coisa, liga-me para o meu telemóvel, vou pôr os fones de ouvido e não te vou ouvir se me falares normalmente.

Sorri e fui-me embora.

Sentei-me na minha secretária e comecei a pesquisar.

Os minutos passaram a voar e embora agora não tivesse privacidade como no meu antigo escritório, pelo menos ninguém se atrevia a incomodar-me. Estava a pesquisar no Google locais de floristas e de repente, sendo meio-dia em ponto, notei que o Erick estava a olhar para mim ao longe.

Sorri e fiz-lhe o sinal de paz com a minha mão direita. Ele correspondeu à minha saudação.

O meu telemóvel começou a tocar segundos depois. Era um número desconhecido.

— Olá?

— Como está a ser o teu dia? Sou o Erick.

— Como conseguiste o meu número?

— Está na lista telefónica da empresa. Apareces como Julen, secretário pessoal do diretor executivo.

— A sério?

— Sim.

— Parece bem como apareço.

Fizemos contato visual ao longe.

— Almoçamos juntos hoje? Compro frango frito.

— Claro. A minha hora de almoço é às duas.

— Perfeito. Vou buscar-te.

Vir buscar-me? Que fixe!

— Encontramo-nos na cafetaria.

...🍬🍬🍬...

São duas e vinte. A reunião ainda não terminou e eu já tenho fome. O que devo fazer? Se não tirar a minha hora de almoço, não vou ter oportunidade de comer depois.

Demoro dez minutos a chegar à cafetaria.

— Ainda bem! — é a primeira coisa que digo ao chegar à mesa.

O Erick, a Jéssica e o Kevin estão sentados a comer.

— Obrigado!

— Como estás? Vejo que sobreviveste ao teu primeiro dia — diz o Kevin.

Peguei num prato e tirei uma coxa do balde do KFC.

— Não foi mau. O Christian é muito intenso, mas estou a aprender a lidar com ele.

Pus um pouco de molho picante e quando ia a dar a minha primeira dentada, o meu telemóvel começa a tocar. É o Christian.

— Olá?

— Onde estás?

— Na cafetaria, vim...

— Espero por ti no átrio em três minutos.

— Mas...

Ele desligou a chamada.

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Comments

Ana Lúcia

Ana Lúcia

ele não cime e quer te matar de fome também

2024-12-02

1

Literatura Bela 📚✨

Literatura Bela 📚✨

Julen: "O terror do CLT" kkkk

2025-01-27

0

Alê

Alê

mds pq tá em português de portugal??

2024-11-28

0

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