Capítulo 14

Ele passava suas mãos pelo delicado rosto dela e secara uma solitária lágrima que escorria de seus olhos, sentia vontade de colocá-la no colo e a ninar, não podia acreditar que houvessem sido tão cruéis com ela àquele ponto.

— No final da faculdade, consegui fazer um estágio, e juntamente com o dinheiro que guardava trabalhando como garçonete, consegui sair de lá. Fiz alguns trabalhos esporádicos de arquitetura, mas ganhei pouco, pois era recém-formada. Quando minha prima me sugeriu que eu viesse para Londres, achei a ideia absurda, mas a cada dia que passava, a vontade de sumir daquela situação aumentava e eu sabia que se me mudasse apenas de cidade, ou de estado, de alguma forma ainda estaria liada à eles, então acabei vindo, e não me arrependo, pois amo este país. Nunca olhei para trás, enterrei meu passado e não sinto vontade alguma de desenterra-lo. A minha sorte, foi que Clara, minha prima, me ajudou a conseguir um lugar simples para morar, conseguiu inclusive colocar meu nome na lista de entrevistas em seu escritório. Depois de tudo o que passei, acho que valeu a pena!

— Mas não sente falta de nada, no Brasil? Amigos, familiares, não sei...Não deixou ninguém especial, por lá?

A pergunta havia sido feita de uma forma sugestiva, parecia que Michael queria saber se não existia algum outro homem que talvez tivesse sido importante na vida dela. Ela percebia a ansiedade que ele sentia ao esperar ela resposta, e ela própria queria deixar bem claro que não havia absolutamente ninguém na vida dela.

— Sinto muita falta do meu país, quando moramos fora, mesmo que nos adaptemos aos costumes, ao clima e às pessoas, no fundo, fica uma sensação de vazio. Eu sinto falta do churrasco brasileiro, pois é bem diferente do que temos aqui, sinto falta da imensa variedade das frutas, principalmente abacaxi, os de lá são tão doces, confesso que tenho o sabor guardado em minha memória. As festas são animadas e coloridas, como o carnaval, por exemplo, é um verdadeiro evento, mas a que eu mais gosto, são as festas juninas. No mês de junho, temos muitas comidas à base de milho, muitos doces e músicas típicas, como o forró por exemplo...Sinto falta de algumas coisas, mas com o tempo me acostumei a não ter isso. Em relação, a alguém especial, não! Não deixei ninguém que eu queira rever, nem mesmo minha mãe, afinal, ela fez a escolha dela, e não é a primeira vez que ela prefere homens, do que a mim.

Ao ouvi-la falando com entusiasmo sobre sua terra natal, Michael pode vislumbrar sua imagem alegre e sorridente entre as pessoas, gostaria de a ter conhecido em seu país. Era bom saber que ela não havia deixado ninguém especial, nem mesmo um homem que a marcara, não sabia dizer exatamente, o motivo, mas aquilo o deixou extremamente feliz, mas...por que?

— Você é ainda mais admirável do que eu pensei, Ivy! O homem que ganhar seu coração, será afortunado.

Ela queria dizer que esse homem, poderia ser Michael Wood, se ele quisesse. Um sentimento desconhecido crescia em seu coração, não sabia ao certo o que era, mas algo havia acontecido. Será que havia se encantado por ele tão rapidamente? Não era possível que em tão pouco tempo já o olhasse de outra forma.

— Não foi nada fácil ter que me virar praticamente sozinha, mas me fez amadurecer muito. Acho que foi por isso que nunca me entreguei a homem nenhum, nunca senti confiança em ninguém, sinto medo de me apaixonar perdidamente e acabar me machucando. Os exemplos de homens com que convivi não foram os melhores, acho que talvez nunca sinta confiança em homem algum para me entregar!

— Não diga isso, minha querida! Tenho certeza que ainda encontrará alguém digno de seu coração. Você merece conquistar o mundo, Ivy Garcia!

“Minha querida”. Àquelas palavras cravaram em sua mente. Como ela queria realmente ser a querida dele. Queria poder abraça-lo e dizer que talvez o homem que fosse digno de seu coração, fosse um certo senhor arrogante e frio, um tal de Michael Wood.

Ao retornarem à casa de Annete, o clima entre os dois era de bem-estar, haviam trocado confidências, e sabiam que aquilo os aproximara muito. No momento que entram pela sala, encontram a avó de Michael, quase terminando de preparar a mesa para o almoço. Mesmo tendo vários empregados pela casa, ela gostava de se manter ativa. Cuidava de sua horta, o jardim, preparava belos pratos quando recebia visitas, e se envolvia com todas as atividades possíveis da casa. Mesmo sendo uma idosa saudável, tinha suas limitações, pois noventa e três anos, não são noventa e três dias.

— Pelo sorriso dos dois, vejo que se acertaram!

— Sim, senhora! Acho que seu neto e eu temos uma personalidade difícil, somos teimosos, então, acabamos nos estranhando de vez em quando.

— Ah, minha filha! Mas isso é ótimo. Aposto que as reconciliações no quarto são ainda melhores, não é?

— Vovó! Vai acabar deixando Ivy sem graça, falando assim!

Ivy sentia seu rosto pegar fogo com o comentário sugestivo da avó de Michael, não era uma mulher tímida em vários aspectos, mas em se tratando de homens, se sentia desconfortável, ainda tinha muito o que aprender.

— Me desculpe Ivy, mas eu já tive sua idade, sei como é maravilhoso estar apaixonada. Vejo nos olhos de vocês dois o quanto se gostam.

Certamente aquela senhora estava vendo coisas onde não existiam, pois o que havia entre ela e Michael, era apenas um acordo, e nada mais. Aparentemente a sanidade de Annete não estava intacta, nem ela, nem Michael sentiam algo, um pelo outro, tudo não passava de fantasia daquela senhora. Aqueles pensamentos só não eram mais absurdos, pois ela queria desesperadamente que o neto se casasse e formasse uma família, e se olhassem por aquele ângulo, era compreensível.

— Pronto! Terminei de arrumar a mesa, podemos nos sentar.

Os três se sentam à mesa e logo uma das empregadas começa a servi-los. O cheiro de comida caseira estava fazendo Ivy salivar. Comiam em silêncio, mas não porque o clima estivesse tenso, e sim, porque estava tudo delicioso.

— Acho que nunca comi nada tão delicioso em toda minha vida, senhora Annete!

— Obrigada, minha querida. Cozinhar sempre foi uma de minhas atividades preferidas. Se quiser, depois te ensino a preparar os pratos preferidos do Michael, já que vão se casar, tenho certeza que vai querer agradá-lo de vez em quando, não é? Acho que quando nos sentamos à mesa e partilhamos de uma boa refeição, estamos também distribuindo amor. Para mim, cozinhar é apenas uma das muitas formas de demonstrar amor.

— Tem razão, vovó! Sua comida sempre me fez feliz.

— Eu sei, meu neto!...Michael, meu querido, não sabe quem ligou esta manhã! Eu fiquei pasma ao ouvir a voz de Rebeca.

— Rebeca? Então ela se lembrou, que tem uma avó?

— Você contou a sua noiva sobre sua prima, Rebeca?

— Não tive oportunidade ainda, vovó, mas contarei em breve.

— Pois acho bom se apressar, ela me garantiu que comparecerá ao meu aniversário, e vai trazer seu noivo!

— Noivo? Desde quando, Rebeca é capaz de amar alguém?

— Michael, olhe para você! Eu também achei que jamais se apaixonaria, e olhe só para você e a Ivy!...além do mais, você sabe muito bem que não é apenas o amor que une um casal, às vezes é somente um acordo comercial, e no caso de sua prima, não me espantaria que ela estivesse preparando o próximo bote, é só o que ela sabe fazer, “depenar” homens ricos!

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Comments

Fátima Silveira

Fátima Silveira

Caramba vovó acertou o neto fez mesma coisa que a prima

2025-01-19

1

Rose Gandarillas

Rose Gandarillas

Vó Annete, enxerga longe!

2024-10-06

1

Salomé Silva

Salomé Silva

Será que o noivo da prima dele é o ex da Ivis😀

2024-09-04

1

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