Por alguns minutos eu me vi perdida observando Lúcio passar as mãos sobre a calça sacudindo resíduos de poeira, também observei suas mãos correrem direção seus cabelos.
O vento me sercou, percorrendo minha pele com uma brisa não tão quente quanto parecia o clima. Despertei do transe estranho voltando a seguir o meu caminho. Sem demorar muito eu adentrei o restaurante já falando com um dos garçons. Ele me direcionou a uma das portas que ficavam escondidas e que me levaram a cozinha muito grande e bem dividida.
— Não pode entrar aqui moça, o que faz aqui?— Um rapaz me perguntou ao dar a volta em um dos balcões enorme que tinha no meio onde ficava os fogões muito grandes e ágeis.
— Soube que estão procurando pessoas aqui para a cozinha. — Disse. Ele me encarou pensativo.
— Você não é muito nova? — Ele me analisou. O homem que eu ainda não conheci o nome tinha traços de pessoa super inteligencia, aquele tipo de pessoa magra de olhos grande que aparenta estar no mundo da lua. Pessoas de olhos sonhadores. Gostei dele! — É que assim, a vaga para auxiliar foi preenchida hoje pela manhã, só nos resta a de lavar os pratos. Pagamos por dia ou se preferir podemos fechar acordo por semana.
— Pra mim tá ótimo, eu aceito agora se possível. — Ele sorriu sincero. Ele me guiou pela cozinha me explicando todos os detalhes necessários que eu não podia esquecer.
— Isso é vital para que dê certo aqui com os colegas. — Quando ele terminou de falar três mulheres adentraram o local. Ele me as apresentou como Marina a morena de cabelos cacheados, a Fernanda ruiva e baixa, e Mayra a outra morena mas de cabelos lisos. Todos me receberam muito bem. No começo fiquei sem jeito mas aos poucos fui me enturmando, principalmente porque a mulherada amava conversar. Além de cozinharem divinamente bem.
— Você não é daqui Mayra? — Perguntei depois de perceber um sotaque dela.
— Sou de Boston. — Ela respondeu.
— Achei você muito culta. — Ela gargalhou animada e a ruiva Fernanda fez uma piada com ela que eu não consegui entender muito bem, mas sorri mesmo assim.
Depois de ter dado um jeito naquela pilha de louças eu perguntei onde ficava o banheiro, estava super necessitada de um. Elas me explicaram e eu segui a direção que me passaram. Enquanto seguia a direção do banheiro vi que uma das portas que ligavam ao salão principal onde serviam as comidas para os clientes estava aberta. Era uma visão muito boa do salão principal, pois conseguia observar todas as mesas, inclusive as mais afastadas próxima as paredes de vidro do lado esquerdo. Observei de longe um grupo de pessoas numa mesa não tão distante.
Vi que uma loira muito atraente falava diretamente com Lúcio. Então era pra cá que eles estavam vindo? Eu fiz uma careta ao perceber que a loira o encarava de forma muito obvia, eu acho que seria difícil a mulherada não ficar louca perto dele. Bonito, rico,desenvolvido na vida. Claramente eu era a única que tinha um certo desconforto, ele me tratava como se eu fosso uma criança, estava pronto pra reclamar de algo como fez quando caí na rua, odeio ser considerada boba, burra ou imatura. Ele sempre me fazia achar que eu era tudo isso.
Eu pigarreei e cruzei os braços vendo aquela cena. Claramente os homens do grupo estavam mais preocupado com saciarem a fome, as outras duas mulheres comentavam de algo entre si e só a loira encarava, gesticulava e tocava a mão de Lúcio a cada segundo. Mas como de costume lá estava ele evitando o contato de forma discreta.
Eu adentrei o salão sem pensar muito, pois se tivesse pensado não teria feito uma loucura daquela.
— Vem aqui. — Eu o chamei ao segurar seu pulso. Lúcio me encarou claramente assustado, talvez não esperava me vê ali e muito menos fazendo aquilo.
— Estou numa reunião de negócios Samira. — Ele deu as costas para os demais para que não fossem testemunha da cena dele falando de dentes serrados. — Depois conversamos. — Ele sorriu aquele sorriso falso e agasalhou o terno.
Eu o puxei pelo terno vendo ele me encarar.
Eu o arrastei junto comigo para uma região mais reservada, ele tirou meu braço de seu terno o agasalhando perfeitamente. Lúcio me encarou logo em seguida com aquele olhar ameaçador dele que antes me causava gagueira, agora nem tanto.
— Pode me explicar o que foi isso? primeiro me derrubou na frente dos acionistas e da possível sócia e agora fez aquela cena na frente de todos. O que está acontecendo com você afinal?
— Eu soube de tudo que você fez. — Lúcio suspirou voltando a passar as mão sobre as têmporas, afinal aquilo era um costume dele sempre?
— Isso não é tão importante, tudo bem eu fiz. — Ele falou.
— Mas porque? — ele suspirou claramente nada satisfeito.
— Vamos fazer o seguinte. — Ele enfiou a mão nos bolsos retirando um cartão de visita. — Venha no meu escritório na parte da tarde. Vamos conversar melhor, porque por enquanto estou numa reunião importante. — Ele completou após me entregar o cartão.
— Claro, pelo visto pra você os seus negócios são sempre muito mais importante. — Lúcio me encarou com um olhar tão firme que por alguns segundos eu tremi as pernas. Ele conseguia assustar um quando queria.
— Conversamos mais tarde. — Ele deu uns passos para trás e assentiu de cabeça como confirmação saindo logo em seguida.
Eu não fazia ideia do que tinha feito, até parar de frente a mesa do escritório de Lúcio aquela tarde, eu pensei seriamente em voltar. Pensei em dizer..."Não é nada, deixa pra lá" mas a verdade era que eu queria saber onde minha vó tinha sido enterrada, essa era a pergunta que eu iria fazer. Era por isso, só por isso que eu fiz tudo aquilo, desde que tudo aconteceu ainda não tive a chance de despedir, precisava saber onde ela tinha sido enterrada. Lúcio ergueu-se da cadeira ficando de frente um pouco curvado e então perguntou.
— E então?— Ele me olhou à espera de uma resposta.
— Onde minha vó foi enterrada?— Questionei rapidamente. Lúcio pareceu suspirar mas ele sentou-se novamente e pediu que eu sentasse na cadeira a frente da sua mesa.
— Posso leva-la.— Ele se prontificou-se.
— Não preciso de sua ajuda pra isso.— O respondi na lata sem muitos rodeios. Lúcio me olhou com um olhar desdenhoso.
— Mas precisa que eu leve você, afinal não sabe onde fica.— Ele respondeu sem mostrar ignorância ou impaciência, ele era sempre muito superior na forma de falar e Isso me fez querer batê-lo pelo menos nos dedos da mão. Detesto ser passada de boba.
— E então?— Percebi que ele estava na porta à espera de uma resposta.
Foi um trajeto longo mesmo de carro, Lúcio me fez entrar no carro dele mesmo após ter me negando todo o tempo de que não era necessário, mas não tinha outra escolha, até onde eu sei não se tem ônibus com passagem a cemitério. Principalmente um que eu não fazia ideia de onde ficava. Percebi que as horas voaram, e que já era noite. Eu o encarei suspirando me sentindo enjoada de rodar dentro daquele carro.
— Você a enterrou na China?— Lúcio me olhou de relance soltando uma gargalhada que foi inesperada para mim. Primeiro porque nunca o tinha ouvido sorrir, e era completamente estranho e ao mesmo tempo engraçado de ouvir. Sua gargalhada era tão bem entonada e diferente que senti no fundo uma vontade de sorrir.
— Nunca tinha conhecido uma mulher tão impaciente como você Samira.— Ele disse ao parar o carro. Percebi que tínhamos chegado ao nosso destino. Lúcio me guiou em meio a tantas estradas que me deixava confusa. Ele parou de frente à alguns túmulos e eu fiquei completamente confusa.
— Porque a enterrou perto da sua família Lúcio?— Eu questionei pasma. E se aquilo desse problema depois? Bom eu não esperava que enterrar alguém desse problema, mas era estranho o fato de que ela estava tão próxima dos pais dele já que não tínhamos nenhum parentesco.
Mas Lúcio estava completamente diferente aquele momento, não era o mesmo Lúcio que gargalhou no carro minutos atrás. Vi ele rapidamente limpar os olhos de uma lágrima que deu sinal aquele momento. Foi como um choque de realidade pra mim encarar aqueles túmulos e para Lúcio não era diferente, era doloroso pra ele que também perdera a mãe de forma tão dolorosa. Dona Cecília era uma mulher tão boa, e ser assassinada. Doía só de lembrar.
Eu encarei o túmulo de minha vó. Senti uma dor enorme ao vê aquela cena. Doía de lembrar que ela teve que aguentar toda aquela barra sozinha. Por mais que eu tentasse eu nunca me perdoaria por causar toda a angústia que eu causei a ela.
Copyright ©️ Todos os direitos reservados, 2023 |
***Faça o download do NovelToon para desfrutar de uma experiência de leitura melhor!***
Atualizado até capítulo 95
Comments
Ritacassie
Entendo que sofreram dos dois lados
2023-10-03
1
Ritacassie
Inacreditável, finalmente tudo que ela mais precisava
2023-10-03
0
Mundoliterario
Espero que se entendam
2023-09-23
0