Capítulo 14

O homem ferido estava sentado com as costas apoiadas numa parede de madeira velha, os olhos cerrados e o rosto pálido. Ele segurava a mão direita contra o peito, o sangue seco já formando uma crosta escura. O ar no pequeno cômodo era pesado, com o cheiro de madeira úmida e o eco distante do vento lá fora.

— Doutor, cortei a minha mão sem querer.

— disse ele, a voz cansada, quase um sussurro.

O médico, um homem de estatura baixa, mas com mãos ágeis e experientes, aproximou-se lentamente, ajoelhando-se ao lado do homem ferido.

— Deixe-me dar uma olhada — pediu com calma.

Ao pegar a mão do homem, viu um pequeno corte no dorso, não muito profundo, mas irregular. O problema não era a gravidade do ferimento, mas a idade avançada do homem, que tornava qualquer lesão uma preocupação maior. O corte, embora simples, começava a mostrar sinais de inchaço, e a pele ao redor estava pálida.

O médico limpou o corte com precisão, usando um pano limpo e uma solução que trazia consigo. Fez o curativo com firmeza, mas com cuidado, olhando para o homem enquanto o fazia.

— Não é nada grave, mas devido à sua idade, podem surgir alguns sintomas como febre ou tontura. Será melhor descansar por um dia. Evite esforços com essa mão.

O homem acenou levemente com a cabeça, o olhar agora um pouco mais tranquilo.

— Obrigado, doutor.

O médico levantou-se e, antes de sair, olhou uma última vez para o paciente, com uma expressão de preocupação velada. Sabia que, às vezes, o corpo envelhecido não perdoava sequer os pequenos incidentes.

— Estarei por perto, se precisar de algo.

O homem inclinou a cabeça novamente, observando enquanto o médico desaparecia.

— Tem mais pessoas que precisam de atendimento por aqui? — perguntou o médico, ajeitando a bolsa de suprimentos no ombro.

— Não, apenas esse. — respondeu o capitão, observando o horizonte com preocupação.

O céu desabou. Uma chuva forte começou a cair, molhando os corpos dos dois homens em questão de segundos. O som da água batendo contra o chão enlameado e as folhas das árvores era quase ensurdecedor.

— Com essa chuva, precisamos esperar um pouco para voltar — disse o capitão, quase gritando por cima do barulho da tempestade.

O médico assentiu, limpando a água que escorria do rosto com as costas da mão. Olhou em volta, procurando abrigo. A casa velha era a única opção, embora mal oferecesse proteção contra o vento e a água que se infiltrava pelas frestas.

— Vamos nos abrigar ali, então — sugeriu o médico, apontando com a cabeça para a casa atrás de si.

O capitão hesitou por um momento, olhando para o céu escuro e para a estrada lamacenta que teriam de enfrentar na volta. Finalmente, fez um gesto afirmativo, e os dois foram à casa.

Dentro, o ambiente era abafado, mas seco. A tempestade rugia lá fora, mas por enquanto, estavam seguros. Agora, tudo o que podiam fazer era esperar que a chuva passasse.

O doutor deixou a bolsa de suprimentos no chão com um leve baque e começou a retirar a blusa encharcada, que grudava em sua pele devido à chuva intensa. Quando a peça saiu, o frio do ambiente tocou seu peito nu, revelando um corpo forte, marcado pelo tempo e pelas experiências. Na lateral de seu abdômen, uma tatuagem em mandarim chamava atenção, as letras escuras contrastando com sua pele molhada. "Esperança e coragem", dizia a inscrição.

Sem perder tempo, abriu sua mochila com precisão, como fazia em tantas outras situações de emergência. Lá dentro, tudo estava em seu lugar, organizado de forma quase meticulosa. De dentro da bolsa, retirou uma blusa branca, seca, que havia colocado previamente, como sempre fazia. Prevenido era uma palavra que o definia bem.

Enquanto vestia a camisa limpa, o capitão observava em silêncio, os olhos atentos à tatuagem que marcava a pele do doutor.

— Sr. Steve, quer uma blusa também?

— perguntou o doutor, o tom casual, mas com a gentileza de quem se preocupa.

O capitão desviou o olhar, focando na chuva que caía em cortinas pesadas do lado de fora.

— Ah, não — respondeu secamente.

— Certeza? A sua farda está molhada.

— insistiu o doutor, enquanto se sentava numa tábua de madeira desgastada, que rangia sob seu peso.

O capitão cruzou os braços e franziu a testa, visivelmente desconfortável, mas não por causa da chuva.

— Sim, tenho — disse ele de forma curta, quase ríspida, encerrando o assunto.

O doutor olhou para a porta entreaberta, onde a tempestade parecia incessante.

— Essa chuva está tão forte e com tantos raios — comentou, tentando aliviar a tensão com uma conversa.

O capitão deu de ombros, olhando para o céu escuro.

— Aqui tem muitas árvores e também muitas áreas de água. — respondeu com frieza, como se fosse óbvio.

O doutor balançou a cabeça, compreendendo.

— Agora está explicado — disse ele, percebendo o perigo de estarem tão expostos à natureza selvagem e seus caprichos.

O barulho da chuva era hipnotizante, o ritmo constante de pingos pesados misturado com o ocasional trovão que sacudia as paredes da velha casa. O tempo passava devagar, e a espera parecia interminável. A certa altura, a exaustão venceu o doutor Hyunwoo. Encostado na parede de madeira, com a cabeça pendendo para o lado, ele acabou adormecendo, o corpo finalmente cedendo ao cansaço.

O capitão observava o doutor Hyunwoo adormecido, sua respiração tranquila e seu corpo relaxado contra a parede de madeira. A expressão do médico, antes atenta e focada, agora era serena, quase vulnerável. O capitão, com a farda ainda encharcada, permaneceu de pé, imóvel, os braços cruzados, mas seus olhos não desgrudavam do homem que dormia.

O capitão desviou o olhar por um momento, fixando-o na chuva, que continuava a bater contra o chão com a mesma intensidade. O som dos trovões distantes ainda ecoava, mas dentro da casa, o tempo parecia ter parado. Ele sabia que, por mais durona que fosse a vida no campo, em zonas perigosas, pessoas como Hyunwoo eram essenciais. Não apenas pela habilidade médica, mas pela calma que traziam em meio ao caos.

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Da Silva Lopes Clinger

Da Silva Lopes Clinger

poxa vida não vai ter uma emoção a mais não por favor

2024-11-19

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