Após a intensa experiência no cemitério, voltamos ao hotel com uma sensação de realização e, ao mesmo tempo, de expectativa. As sombras da noite começavam a se alongar, e a atmosfera ao nosso redor parecia vibrar com a energia das almas que ainda habitavam Gettysburg. Embora tivéssemos gravado uma homenagem significativa, sentíamos que havia muito mais por vir.
Assim que entramos no saguão do hotel, a recepcionista nos cumprimentou com um sorriso enigmático. “Parece que tiveram um dia cheio”, ela disse, observando o brilho em nossos olhos. “O campo de batalha e o cemitério podem ser emocionantes, mas cada local tem suas histórias. Não se esqueçam de que a noite traz consigo outros segredos.”
“Você tem razão”, respondi, a adrenalina da nossa jornada ainda pulsando em meu corpo. “Sentimos que a energia aqui é diferente, como se houvesse mais a descobrir.”
Ela nos convidou a se sentar e compartilhar o que tínhamos vivido. Enquanto falávamos, percebi que o olhar dela se tornava cada vez mais profundo. Havia um entendimento compartilhado, uma conexão que transcendia o tempo. Foi quando ela mencionou algo que despertou nossa atenção.
“Vocês sabiam que, em certas noites, alguns hóspedes relataram ouvir ecos de batalhas? Os gritos, os tiros, tudo isso parece reviver, especialmente quando a lua está cheia.”
Um frio percorreu minha espinha. “E isso acontece com frequência?” perguntei, minha curiosidade crescendo.
“Depende do clima e da energia do lugar. Mas, às vezes, as emoções dos que viveram aqui são tão intensas que podem ser sentidas mesmo por aqueles que não estão em contato com o mundo espiritual.”
Uma ideia começou a tomar forma em minha mente. “O que você sugere que façamos?” Eu queria saber mais, estava pronto para enfrentar qualquer coisa que o passado quisesse revelar.
“Se vocês realmente desejam experienciar essas manifestações, eu recomendo que façam uma vigília durante a lua cheia. É um momento poderoso. Muitas almas se reúnem para recontar suas histórias”, ela disse, seus olhos brilhando com entusiasmo. “Se estiverem dispostos a ficar acordados até a madrugada, talvez possam ser agraciados com uma visita.”
Troquei olhares significativos com minha esposa e filho. Todos nós sentíamos a mesma energia pulsando em nosso interior: uma mistura de ansiedade e excitação. “Estamos dentro”, respondi.
A recepcionista sorriu e começou a nos contar sobre os melhores locais para a vigília. “O campo de batalha, o cemitério, e até mesmo o próprio hotel. Existem muitos relatos de fenômenos estranhos que ocorreram aqui.”
Com as instruções em mente, decidimos preparar tudo para a vigília mais tarde. Antes de voltar ao nosso quarto, decidimos fazer uma última visita ao campo, agora sob a luz do crepúsculo. O céu estava tingido de laranja e rosa, e as sombras se alongavam, dando uma sensação de que o lugar estava vivo, pulsando com histórias.
Ao chegarmos, a atmosfera já era diferente. O campo, que antes parecia amplo e aberto, agora tinha um caráter quase intimidador. As árvores pareciam mais altas e as sombras mais profundas. Enquanto caminhávamos, não podíamos deixar de notar que a brisa tinha uma qualidade diferente, como se sussurrasse segredos.
Paramos em um dos marcos mais conhecidos, uma colina que oferecia uma vista panorâmica do campo. Enquanto admirávamos a beleza do local, eu não conseguia afastar a sensação de que estávamos sendo observados. Um arrepio percorreu minha pele, e eu sabia que não era apenas o frio da noite.
“Eu sinto que algo vai acontecer”, minha esposa murmurou, suas palavras cortando o silêncio. “Como se o próprio campo estivesse vivo.”
“Vamos ficar em silêncio por um momento”, sugeri. “Talvez possamos ouvir os ecos do passado.”
Enquanto permanecíamos em silêncio, algo impressionante aconteceu. Os ventos começaram a aumentar, e uma onda de emoção pareceu invadir o local. Era como se a história estivesse sendo recontada ao nosso redor. Comecei a ouvir sons distantes: gritos, canhões e o clamor de uma batalha que parecia ter acontecido há muito tempo.
A intensidade dos sons aumentou, e um frio cortante envolveu nosso grupo. Olhei para minha família e percebi que eles também estavam sentindo isso. “Vocês escutam?”, perguntei, a voz baixa, mas cheia de emoção.
“Sim, mas o que é isso?”, meu filho respondeu, a expressão de medo e fascínio em seu rosto.
As vozes se tornaram mais claras, e pude distinguir palavras. Parecia que os soldados estavam chamando por ajuda, como se suas histórias ainda não tivessem terminado. A conexão emocional era intensa, e a compreensão de que estávamos diante de algo extraordinário começou a se concretizar.
“Vamos nos aproximar da colina”, sugeri. “Talvez possamos entender melhor o que está acontecendo.”
Subimos cuidadosamente, o coração acelerado enquanto nos dirigíamos para o topo. Assim que chegamos, a visão se expandiu diante de nós, revelando não apenas a batalha, mas também a dor e a luta dos que haviam estado ali. Era como se pudéssemos ver as almas dos soldados, cada uma delas carregando suas próprias histórias de perda e sacrifício.
Quando finalmente chegamos ao cume, tudo se acalmou. O vento cessou, e os sons das batalhas começaram a se dissipar. O campo ficou em silêncio novamente, mas o impacto emocional daquela experiência permaneceu.
Sentamos no topo da colina, o crepúsculo se transformando em noite. O que acabáramos de vivenciar era mais do que apenas ecos do passado; era uma conexão direta com aqueles que haviam lutado. Estávamos prontos para honrar suas histórias e trazer à tona as vozes que ainda clamavam por reconhecimento.
Assim que a lua cheia começou a surgir no horizonte, sabíamos que a verdadeira vigília estava prestes a começar. O que quer que estivesse nos esperando naquela noite, estávamos prontos para enfrentá-lo juntos, em nome de todos aqueles que haviam lutado por suas vidas e por um futuro que não teriam. A conexão entre nós e os espíritos que vagavam por Gettysburg havia se aprofundado, e a jornada apenas começava.
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Atualizado até capítulo 61
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