A noite seguinte trouxe um silêncio pesado ao hotel, como se a própria estrutura estivesse aguardando o que seguiria. O que havíamos experimentado com o espelho não era apenas uma curiosidade; parecia ser um chamado. Após a revelação, um misto de medo e determinação nos guiou, e sabíamos que precisávamos investigar mais profundamente as histórias que cercavam Gettysburg e os eventos que ali haviam ocorrido.
Decidimos que era hora de conversar novamente com a recepcionista. Sua sabedoria e conhecimento sobre o hotel eram inestimáveis. Quando a encontramos, ela estava organizando alguns documentos atrás do balcão. Assim que nos viu, seu rosto iluminou-se com um sorriso conhecedor.
“Voltaram, não é?”, disse ela, como se já soubesse que o espelho havia deixado uma impressão duradoura em nós. “Alguma coisa aconteceu, não é?”
Apenas assentimos, sem palavras, lembrando da intensidade da experiência. “Precisamos saber mais sobre o espelho e os soldados”, disse minha esposa, olhando nos olhos da atendente. “O que mais podemos descobrir?”
“Ah, o espelho é apenas uma parte da história”, ela respondeu, gesticulando para uma estante ao fundo, onde estavam alguns livros e documentos antigos. “O hotel foi uma vez um abrigo para soldados feridos durante a guerra, e muitos ainda não partiram.”
Ela começou a nos contar sobre a história do hotel. Havia um tempo em que ele servia como um hospital temporário durante a batalha de Gettysburg, e aqueles que não sobreviveram deixaram suas marcas não apenas nas paredes, mas também nas almas que ainda vagavam por ali. A recepcionista mencionou que alguns dos hóspedes mais sensíveis a energias espirituais afirmavam ter visto não apenas soldados, mas também enfermeiras e civis que se preocuparam com eles.
“Uma das histórias mais tristes envolve uma jovem enfermeira chamada Clara. Ela dedicou sua vida a cuidar dos soldados e, após a batalha, adoeceu. Dizem que ela ainda ronda os corredores do hotel, procurando por aqueles a quem ajudou.” Sua voz era suave, mas a gravidade de suas palavras pesava no ar.
“Temos que encontrar essa enfermeira”, eu disse, sentindo uma necessidade crescente de entender mais sobre aqueles que haviam vivido ali. “Como podemos nos conectar com ela?”
A atendente olhou para nós, seus olhos brilhando com compreensão. “Existem maneiras de se comunicar com os espíritos. Muitos acreditam que o uso de velas, cristais e uma intenção pura podem ajudar a abrir um canal. Se vocês realmente desejam fazer isso, precisariam de um local tranquilo, livre de distrações.”
Após conversarmos mais, decidimos que era hora de fazer uma vigília espiritual. Com a ajuda da recepcionista, conseguimos algumas velas e um cristal que, segundo ela, poderia ajudar na proteção e na claridade da comunicação.
Voltamos para o nosso quarto e preparámo-nos para a sessão. O ambiente estava carregado de expectativa, e o sol se pôs lentamente, lançando sombras que pareciam dançar ao nosso redor. Colocamos as velas em um círculo no centro da sala e acendemos cada uma delas com a intenção de honrar os espíritos que ainda estavam presentes.
“Clara, se você estiver aqui, por favor, mostre-nos um sinal”, disse minha esposa, enquanto fechávamos os olhos e nos concentrávamos. A atmosfera parecia mudar à medida que as chamas das velas tremeluziam, e um silêncio profundo envolveu a sala.
O tempo passou, e enquanto permanecíamos em meditação, começamos a ouvir sussurros. Eram suaves, quase como uma melodia distante. Eu sentia a presença de algo, uma energia que parecia se concentrar em torno de nós. Era como se as paredes estivessem se abrindo, revelando histórias que não haviam sido contadas.
Então, de repente, a luz da vela mais próxima começou a piscar violentamente, e uma brisa fria passou pela sala, fazendo as chamas dançarem. “Vocês sentiram isso?”, perguntei, o coração acelerado. Ambos assentiram, e a atmosfera tornou-se eletricamente carregada.
Uma voz suave, mas clara, começou a ecoar em nossas mentes. “Eu estou aqui.” A voz parecia flutuar, envolta em um mistério. Era Clara, a enfermeira. “Ajude-me a contar minha história.”
Com a respiração presa, eu disse: “Clara, como podemos ajudá-la?”
“Eu cuidei de muitos, mas não tive paz. Meu trabalho não terminou. Muitas almas continuam perdidas”, a voz respondeu, a tristeza sendo palpável em suas palavras.
A medida que a comunicação continuava, Clara começou a compartilhar fragmentos de sua vida. Falou sobre as noites longas e escuras, quando os gritos dos soldados ecoavam pelos corredores e as lágrimas de dor preenchiam o ar. A sensação de perda e a carga emocional que ela carregava eram intensas. Era como se nós também fôssemos testemunhas de sua dor.
A conversa com Clara se tornou um diálogo poderoso. Nós a encorajamos a compartilhar tudo o que desejasse. Com o passar do tempo, a presença dela se fortaleceu, e percebi que estávamos criando uma ponte entre o passado e o presente.
“Você precisa encontrar paz, Clara. O que podemos fazer para ajudá-la?” perguntei, minha voz cheia de empatia. Havia um desejo profundo em nós de oferecer conforto a essa alma atormentada.
“Lembre-se de mim. Conte minha história. Diga aos outros que existi”, ela respondeu, e a emoção em sua voz era quase insuportável. “Os soldados precisam de honra e reconhecimento. Eles não devem ser esquecidos.”
A medida que Clara falava, a sala parecia iluminar-se, e uma sensação de calor e amor envolveu nosso círculo. A energia negativa que estava presente começou a dissipar-se, e eu percebi que, através da nossa conexão, estávamos oferecendo um alívio a ela e a todos os que haviam sofrido.
Quando a comunicação começou a diminuir, Clara sussurrou: “Obrigada. Agora eu posso descansar.”
As velas tremularam uma última vez antes de se apagarem, e um silêncio profundo tomou conta do ambiente. Sentindo uma onda de gratidão, nós três permanecemos em silêncio, absorvendo a experiência que acabávamos de vivenciar. Sabíamos que tínhamos cumprido uma missão importante: honrar as almas que haviam lutado e sofrido, dando-lhes uma voz no mundo dos vivos.
Enquanto refletíamos sobre o que acontecera, compreendemos que a jornada em Gettysburg não era apenas sobre fantasmas ou aparições, mas sobre a conexão humana e a memória coletiva. Aquela noite mudara para sempre como veríamos não apenas a história, mas também a vida. E, mais importante, nos uniu como família, ligando-nos a um legado que ultrapassava gerações.
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Atualizado até capítulo 61
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