O brilho azul e vermelho das luzes de emergência refletia nas janelas dos prédios ao redor, dando ao beco uma aparência pulsante e surreal. Lucas permanecia ali, próximo à calçada onde o homem ensanguentado fora encontrado, a cabeça ainda zonza de tudo que tinha acontecido. Ele já havia dado seu depoimento aos policiais, mas a sensação de que havia dito algo errado ou omitido alguma coisa importante não o deixava em paz. Por trás de toda a preocupação, o sorriso perturbador daquele homem ainda pairava em sua mente como uma sombra que ele não conseguia afastar.
“Você está bem, senhor Oliveira?” A voz firme da detetive Mariana Costa trouxe Lucas de volta à realidade. Ela tinha o porte de quem comandava qualquer sala em que entrasse, e sua expressão mostrava a experiência de anos em investigações complexas. Não havia dúvidas de que ela estava desconfiada de tudo e de todos. Lucas respirou fundo antes de responder.
— Sim, só estou tentando... processar tudo isso — disse ele, evitando os olhos da detetive. Ele sempre se orgulhara de sua calma em situações difíceis, mas aquela noite parecia diferente. Havia algo no olhar de Mariana que o fazia sentir-se exposto.
Ela deu um passo à frente, sem desviar o olhar. Havia uma frieza calculada em sua abordagem, uma habilidade de observar os menores detalhes que o deixava desconfortável.
— O que você viu aqui esta noite é algo que não se esquece facilmente. Qualquer coisa que tenha passado despercebida pode ser crucial. Você disse que ele sorriu para você... Pode me contar mais sobre isso?
O sorriso. Lucas fechou os olhos por um momento, tentando lembrar. Não havia dúvidas de que ele tinha visto aquele sorriso perturbador no rosto do homem. Um sorriso que parecia dizer: “Eu sei algo que você não sabe”.
— Foi... estranho — começou Lucas, tentando encontrar as palavras certas. — Quando me aproximei dele, ele parecia... satisfeito. Mesmo com todos aqueles ferimentos, mesmo sem conseguir falar, ele parecia satisfeito de alguma forma. Como se... Como se quisesse ser encontrado assim.
Mariana franziu a testa, claramente interessada naquelas palavras. Ela anotou algo em seu caderno, mas não deu qualquer sinal do que aquilo poderia significar.
— Acha que ele estava tentando se comunicar com você? — perguntou ela, erguendo os olhos novamente para Lucas. — Ou tentar intimidá-lo?
Lucas balançou a cabeça, incerto.
— Eu não sei. Foi só uma impressão... Uma sensação.
Enquanto Mariana anotava mais algumas palavras, Lucas olhou em volta, tentando encontrar alguma lógica naquela situação. Os paramédicos estavam terminando de limpar o local, mas o sangue ainda manchava a calçada, uma visão grotesca que parecia impregnar a noite. Ele viu dois policiais discutindo próximos à ambulância, as vozes abafadas se misturando com o som das sirenes distantes. Algo naquela cena não fazia sentido. E se o homem realmente fosse o serial killer que a polícia estava procurando? Ou pior... E se ele fosse apenas mais uma vítima?
— Você já ouviu falar sobre o caso dos assassinatos recentes, certo? — Mariana quebrou o silêncio, sua voz agora mais baixa e grave. — A polícia está trabalhando para encontrar o assassino há meses, e as descrições que temos... — Ela parou, como se estivesse ponderando se deveria ou não continuar. — Bem, são parecidas com o que você encontrou aqui hoje.
Lucas engoliu em seco, as palavras ecoando em sua mente. Não era uma coincidência. Aquela informação parecia confirmar todos os seus piores temores.
— Então... você acha que é ele? — perguntou Lucas, tentando manter a voz firme.
Mariana fechou o caderno com um gesto brusco.
— Isso ainda está para ser confirmado. O que você precisa entender, senhor Oliveira, é que você agora faz parte disso. Você é uma testemunha, e o que você viu hoje pode nos ajudar a resolver esse caso.
Lucas assentiu, mas a ideia de ser uma peça-chave em uma investigação policial não lhe trazia conforto. Pelo contrário, ele só queria voltar à sua rotina normal, sem pensar em homens ensanguentados caídos nas calçadas ou em sorrisos perturbadores. Mas agora não havia como voltar atrás. Ele estava no meio de algo muito maior do que ele próprio.
Na Manhã Seguinte
O som dos carros e das buzinas invadiu o apartamento de Lucas. Ele passou a noite inteira acordado, incapaz de se livrar dos pensamentos sobre a noite anterior. Cada vez que fechava os olhos, via o rosto daquele homem, o sorriso perverso e a sensação de que aquilo era apenas o início de algo muito maior.
Quando o celular vibrou sobre a mesa da cozinha, ele levou alguns segundos para sair de seus devaneios e atender.
— Alô?
— Lucas, sou eu, a Luana. Eu... acabei de ver as notícias. Você tá bem? — Era sua irmã mais nova. A voz preocupada dela fez Lucas perceber como estava em estado de choque. Luana sempre fora a voz da razão em sua vida, o porto seguro que ele podia recorrer quando as coisas ficavam complicadas.
— Estou, sim. Foi só... um susto. Nada demais. — Ele tentou soar confiante, mas sua voz saiu fraca, falha. Ele se sentiu culpado por preocupar Luana, mas sabia que não tinha como explicar o que estava acontecendo. Nem ele mesmo sabia direito.
— Sabe, você sempre foi péssimo mentindo... — Luana riu, tentando aliviar o clima. — Vai se cuidar, ok? Sei que algo está acontecendo, mas confio que você vai resolver. Se precisar, estou por aqui.
Lucas agradeceu antes de desligar. Saber que Luana estava ali para ele era reconfortante, mas também fazia tudo parecer ainda mais real. Ele precisava entender o que estava acontecendo e, acima de tudo, precisava descobrir quem era aquele homem.
Mais Tarde, Na Delegacia
Lucas decidiu seguir o conselho da detetive Mariana e foi até a delegacia. Se ele realmente estava envolvido nisso, queria saber tudo o que estava acontecendo. Quando chegou, a delegacia estava movimentada. Mariana estava debruçada sobre uma mesa cheia de documentos, e ao vê-lo, acenou para que ele se aproximasse.
— Olha quem decidiu aparecer — disse ela com um sorriso rápido. — Estava pensando que não o veria tão cedo.
Lucas forçou um sorriso de volta, tentando ignorar a tensão que sentia.
— Eu só... preciso entender melhor tudo isso.
Mariana fechou a pasta que estava lendo e olhou diretamente para ele.
— Então você veio ao lugar certo. Mas, Lucas, preciso que você esteja preparado. A partir de agora, cada passo que você der, cada palavra que disser, será parte dessa investigação. Você está pronto para isso?
Lucas não sabia se estava pronto. Mas, pela primeira vez, sentiu que precisava fazer algo. Não podia continuar na incerteza, na dúvida. Ele precisava descobrir a verdade sobre aquele homem, sobre o sorriso e sobre como aquilo afetaria sua vida. Então, respirou fundo e, com um olhar determinado, assentiu.
— Sim, estou pronto.
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Atualizado até capítulo 55
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