A cidade parecia um labirinto silencioso àquela hora da noite. As luzes amarelas dos postes espalhavam-se por calçadas vazias, como se escondessem segredos nos cantos escuros entre os prédios. Lucas Oliveira andava com passos largos, a mochila pendendo de um ombro e o cansaço da rotina estampado em seu rosto. A sessão de trabalho prolongada no escritório tinha terminado tarde demais e, mais uma vez, ele estava voltando para casa à meia-noite.
A cada passo, o eco de seus sapatos ressoava pelas paredes dos edifícios de concreto, aumentando o silêncio desconfortável ao redor. Ele tinha o hábito de cortar caminho por uma rua menor, onde o asfalto desgastado e a ausência de movimento humano criavam uma sensação de isolamento. Algo que, até aquela noite, ele apreciava.
Mas, então, Lucas parou. Ali, sob a luz mortiça de um poste, uma figura estava caída no chão. Um homem. De relance, ele viu algo que congelou seus movimentos: manchas de sangue escorrendo pelo braço e pelas pernas do desconhecido. O homem jazia sobre o asfalto como uma marionete sem cordas, com o rosto virado para cima, imóvel.
“Meu Deus…”, Lucas sussurrou para si mesmo, seus olhos arregalados pelo espanto. Ele sentiu o coração acelerar e o estômago revirar. A primeira reação foi olhar ao redor, como se buscasse uma testemunha, alguém que pudesse compartilhar a responsabilidade de decidir o que fazer. Mas não havia ninguém. A rua era uma ilha deserta, e a noite, um véu cúmplice.
A voz de sua mãe soou em sua mente: *“Não se envolva, Lucas. A última coisa que você precisa é de confusão.”* Ele soube, então, que deveria apenas continuar andando, fingir que não tinha visto nada. Mas a culpa já se formava como um nó em sua garganta, apertando, sufocando. Ele não podia simplesmente deixá-lo ali, morrer ou sofrer em silêncio, seja lá o que estivesse acontecendo.
Foi quando ele se aproximou. Cada passo era um esforço consciente para não correr dali, não se afastar do que via. O homem parecia estar desacordado, e a primeira coisa que chamou a atenção de Lucas foi o sangue: não havia um local no corpo que não estivesse marcado por cortes ou arranhões profundos. Braços, pernas, tórax – as roupas estavam rasgadas e sujas, como se ele tivesse se arrastado por becos sujos ou enfrentado uma luta desesperada. E, então, Lucas viu o rosto. Pálido, coberto por pequenas gotas de suor, e com uma cicatriz fina cruzando o lado esquerdo da bochecha, o homem tinha uma expressão que oscilava entre dor e uma tranquilidade perturbadora.
Lucas hesitou, a mão tremendo ao tirar o telefone do bolso para ligar para a emergência. Ele quase deixou o aparelho cair ao ver um movimento súbito: o homem abriu os olhos. E sorriu.
Foi um sorriso sutil, mas perturbador. Os lábios ensanguentados se curvaram de forma estranha, como se ele estivesse ciente do impacto que aquilo causaria. Lucas recuou um passo, um arrepio correndo pela espinha. Era um sorriso que não combinava com a situação, que parecia deslocado, quase insano.
– V-você está... bem? – Lucas gaguejou, lutando contra a vontade de sair correndo.
O homem não respondeu. Seus olhos, que pareciam vagos e perdidos no início, fixaram-se em Lucas com uma intensidade inesperada. Era como se ele o conhecesse, como se enxergasse algo que ninguém mais via. O sorriso, ainda mais largo, tornou-se uma cicatriz no rosto pálido. Lucas percebeu, então, que havia algo muito errado.
O sangue. Ele estava por toda parte, mas havia uma concentração incomum nas mãos do homem. Elas estavam sujas, como se ele tivesse mergulhado em uma poça de sangue e depois passado as mãos pelo próprio rosto e corpo. E havia algo quase teatral na forma como ele estava deitado, como se quisesse ser encontrado, como se quisesse ser visto.
Lucas tentou não pensar no pior. Mas seu cérebro já tinha estabelecido a conexão: o serial killer que a polícia procurava, o homem que já havia matado pelo menos cinco pessoas nos últimos meses... As descrições combinavam. O sorriso insano, a cicatriz, a maneira como ele parecia se deleitar com a dor. *Será que era ele?*
As sirenes quebraram o silêncio da noite, chegando ao longe, anunciando a aproximação de um carro da polícia ou ambulância. Lucas não sabia se deveria se sentir aliviado ou apavorado. O homem continuava a olhá-lo, como se esperasse por algo. Talvez por uma palavra, talvez por um gesto. Ou talvez... por uma confissão. Lucas sentiu o coração disparar ainda mais forte, como se cada batida fosse uma contagem regressiva para algo que ele não conseguia compreender.
E então, numa fração de segundo, o homem estendeu a mão na direção de Lucas, como se pedisse ajuda ou quisesse agarrá-lo. Lucas recuou, tropeçando, quase caindo. O sorriso do homem tornou-se mais fraco, quase sumindo, e ele finalmente deixou a cabeça tombar para o lado, perdendo a consciência.
O carro da polícia entrou na rua com as luzes piscando, e os policiais saíram, armas em punho. Um deles gritou para Lucas se afastar, enquanto outro já chamava uma ambulância pelo rádio. Lucas se afastou, ainda sem entender o que acabara de acontecer. Quando os paramédicos chegaram, ele viu o homem ser levado rapidamente para dentro da ambulância. Lucas ficou ali, parado, ainda em choque, sem conseguir tirar da cabeça aquele sorriso. Um sorriso que agora parecia estar gravado em sua mente, uma cicatriz que ele jamais seria capaz de apagar.
E, enquanto os policiais anotavam suas informações e ele dava seu depoimento, Lucas sabia que a partir daquele momento, nada mais seria igual. A cidade que ele conhecia, os caminhos que ele percorria, o próprio silêncio da noite... tudo parecia ter sido corrompido por aquele homem ensanguentado e seu sorriso insano.
Quando a ambulância partiu, levando o desconhecido para longe, Lucas ficou ali, sozinho, ainda debaixo daquela mesma luz amarela que agora parecia ainda mais fria. E pela primeira vez, ele percebeu que não sabia se deveria ter ajudado aquele homem... ou se deveria ter corrido para o mais longe possível dele.
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Atualizado até capítulo 55
Comments
Nathy_ do_boquerão😜😇
Eu estou amando isso. Parabéns, para quem escreveu
2024-10-12
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