Assim que cheguei em casa, respirei aliviado ao perceber o
silêncio do ambiente. Quando Emily está em casa não consigo ter um minuto de
silêncio, pois ela está o tempo todo reclamando, falando e pedindo algo novo.
Não sabia apreciar os momentos de paz, até que começaram a
me faltar.
Tirei os sapatos, deixando do lado da porta de entrada. O
piso gelado causava uma sensação de relaxamento nos meus pés. Tirei a gravata,
a camisa e a calça. Fiquei apenas de samba-canção, aproveitando o fato de que
estava sozinho. Comecei a encher a banheira e para relaxar e coloquei um MPB na
caixa de som. Enquanto escutava Djavan, preparei um sanduíche e retirei uma
cerveja da geladeira.
Sentei no sofá, apreciando cada momento de silêncio e paz.
“Isso é liberdade, meu amigo!”
“Peri, tenho que concordar... Como é bom estar livre de
tudo...”
“Inclusive da sua Luna...”
Parei para analisar o sentimento de alívio que tomou conta
de mim. E que em nenhum momento pensei em Emily. O que estava acontecendo?
“Peri, não entendo. Eu deveria sentir alguma coisa, não é?”
“Teoricamente, sim. Companheiros sentem dor, até mesmo
física, quando se afastam por uma briga.”
“Mas não sinto nada... Como isso é possível?”
“Não sei. Mas isso pode nos dar alguma esperança”.
Flashback
O aniversário de 18 anos de Emily havia chegado. Como todo
ritual de transformação, todos estavam reunidos na clareira, aguardando o
começo da cerimônia. Emily usava um vestido branco tão fino de seda, que
parecia uma camisola. Todos podiam ver as curvas suaves de seu corpo, mas
aquilo não me fazia sentir nada. Instintivamente lembrei da transformação de
Julia. Ela usava um vestido solto, esvoaçante, que valorizava todas as curvas
que ela tinha adquirido conforme cresceu. Não era mais uma criança, era uma mulher
linda.
Mas não era minha companheira. Ela estava na cerimônia, mas
eu tinha tanto medo de machucá-la, que evitei ao máximo olhar em seus olhos. E
estava linda em um vestido preto tubinho. Foi muito difícil não olhar para ela
furtivamente em alguns momentos.
Emily percebeu e fez questão de se abaixar diversas vezes na
minha frente antes de começarmos, hora para arrumar a barra do vestido, hora
para arrumar a sandália... inúmeras desculpas, mas visivelmente, querendo
chamar minha atenção para o seu decote. Não me impressionou.
Assim que a lua chegou ao ápice, iniciei a cerimônia.
- Esta noite iremos receber mais uma loba em nossa matilha.
Todos aqui irão ajudar sua adaptação a forma lupina, e acolher em nossa
matilha?
- Sim\, Alfa! – Todos responderam em voz alta\, mas
especialmente Carlos, meu beta, e Miriam, sua esposa. Estavam visivelmente mais
empolgados que o normal.
- Que a natureza receba também mais essa loba\, com as
bençãos de Selene.
As velas ao redor do círculo aumentaram as chamas, os
cristais brilharam e as flores perfumaram tudo, assim como fizeram em todas as
cerimônias antes dessa.
- Emily\, como Alfa dessa matilha\, a Lua Nova\, convido sua
loba a sair e se apresentar a todos nós.
Nesse momento ela começou a se transformar e coloquei a
manta vermelha em cima dela. Sempre consideramos a nossa primeira transformação
algo muito particular, pois era nosso primeiro contato com nossos lobos. Porém,
nesse momento, Carlos se aproximou da manta e com delicadeza, levantou apenas
uma ponta da manta e deu a mão para o que era uma mistura de pata e mão humana.
Acabei vendo uma pequena parte da transformação de Emily e realmente me senti
mal por isso. Mas logo ela já estava de pé em sua forma lupina, uma loba com
pelos castanhos, amarelos e brancos, e olhos verdes. Era uma pelagem bem comum
entre os lobos da família dela.
Inicialmente não percebi nada, mas assim que Carlos se
transformou também, e sucessivamente os outros lobos da matilha que estavam
convidados, Peri me alertou que estava na hora de me transformar também. Tirei
minhas roupas e me transformei. A loba de Julia, Ceci, não olhava para mim.
Fiquei um pouco decepcionado. Mas assim que meu lobo viu Lore, a loba de Emily,
algo mudou. Senti um cheiro diferente, era como se eu tivesse entrado em uma
sala repleta de rosas. Não consegui tirar os olhos dela, e de repente ouvi Peri
dizer:
“É nossa companheira!”
Me aproximei lentamente e Lore, abaixou a cabeça em sinal de
submissão a mim. Os lobos ao nosso redor, liderados por Carlos, começaram a
uivar para a lua e pude ouvi-los ativando nosso elo mental: “Luna!”, “Nossa
Luna chegou!”, “Que a Deusa abençoe nosso Alfa e nossa Luna!”.
Em seguida, partimos para correr pela floresta, mas já não
percebia mais nada. Apenas seguia a loba de Emily, como se fosse seu cãozinho
adestrado.
Nos casamos em dois meses, e realizamos o ritual de
acasalamento e de apresentação da Luna. Vivemos uma lua-de-mel por mais alguns
anos e durante esse período Emily era uma Luna perfeita e generosa. Pelo menos
era o que eu pensava...
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Atualizado até capítulo 67
Comments
Keila Mar
sem contar que as lobas engravidam assim que acasalam
2025-01-04
2
Fátima Ramos
Ela deve de ter feito alguma coisa, ela não deve de ser a verdadeira companheira dele
2024-12-23
3
Maria de Fátima Espírito Santo Silva
toda macumba tem data de validade. a dela já está chegando kkk
2024-11-28
3