A minha mesa estava abarrotada de pilhas de papéis e pastas.
Uma era das despesas da matilha, outra sobre os nossos estoques, outra sobre
projetos para análise... mas a que mais me apavorava era a pilha de pedidos
para sair da cidade. Eram muitos pedidos nesses dois últimos anos.
Afrouxei a gravata. Respirei fundo e tentei entender onde
foi que perdi o controle de tudo. Desde que assumi o comando da Lua Nova, tudo
esteve em plena paz, menos nesses dois últimos anos.
E apesar de eu não querer assumir, sabia muito bem onde
estava o motivo desse caos.
E esse motivo estava entrando pela minha porta feito um
furacão.
- Alezinho\, você deixou a Julia voltar?
- Emily\, já te disse para não entrar aqui assim\, é meu local
de trabalho, preciso me concentrar!
- Eu sou sua Luna\, entro onde eu quiser e quando eu quiser.
Respirei fundo algumas vezes tentando manter o controle e
não pular em cima dessa mulher. Ela era minha companheira, e no dia que fez
dezoito anos, senti nosso laço se formar assim que coloquei meus olhos em sua
loba.
Os nossos dois primeiros anos foram maravilhosos e confesso
que fiquei aos pés dela. Porém as coisas começaram a desandar. Emily se sentia
cada vez mais poderosa em relação à sua posição de Luna, e começou a exigir um
tratamento cada vez mais exclusivo. Ela começou a perseguir aqueles que faziam
algum comentário ruim sobre ela e aos poucos passou a puni-los com castigos
físicos. Eu intervi, é claro, mas toda vez que eu falava algo, ela me ameaçava,
dizendo que se ela fosse embora eu não aguentaria a quebra de laços com a
companheira, e logo em seguida prometia que não faria mais.
Eu também tinha medo. Afinal, era a companheira que a deusa
havia me dado. Eu conhecia lobos que perderam as companheiras e todos ficavam
malucos. Além disso, eu também não tinha filhos ainda e precisava passar o
legado de alfa para alguém. Não tenho irmãos e isso significava que, caso o
cargo fosse vago, uma briga começaria entre todos os machos da minha matilha
para definir quem seria o mais forte, e assim o próximo alfa. Seria instintivo
e todos os lobos iriam emergir para batalhar, mesmo que o homem não quisesse.
Seria um verdadeiro banho de sangue. Não podia permitir isso.
Então eu apenas levava a situação, tentando consertar tudo o
que Emily aprontava. Mas estava chegando num nível insuportável. E ultimamente
isso estava irritando Peri, a ponto de ele rosnar toda vez que minha
companheira chegava mais perto.
- Não! Você não entra onde e quando quer. Aqui é meu
escritório e você deve se anunciar antes de chegar. E sim, eu permiti que
Juliana voltasse. Precisamos de pessoal no hospital, afinal de contas, você fez
com que duas enfermeiras pedissem para sair da matilha. Ainda preciso de mais
uma para ter o mínimo de pessoas atendendo nossa cidade.
- Você sabe que elas estavam falando de mim. Eu não podia
deixar.... – Emily olhava para os pés enquanto fazia uma vozinha infantil. Isso
teria me deixado com pena há alguns anos, mas agora só me irritava.
- Não interessa. Você saber que tem que parar de afastar
nossos lobos. Somos um grupo e temos que nos cuidar. Desse jeito, em dois anos
não teremos mais ninguém aqui! – Falei enquanto batia a mão em cima da pilha
com os pedidos de mudança.
- Ah\, amor\, não faço mais... você sabe que eu me esforço...
– Ela jogou os braços no meu pescoço e tentou me beijar. Eu me soltei e então
falei sério:
- Já chega! Eu preciso trabalhar\, saia daqui!
Ela bufou e seguiu pela porta. Alguns minutos depois, pude
ouvi-la gritar com alguém no final do corredor.
Saí na hora e ela percebeu o que estava acontecendo.
- Carlos! Venha aqui agora!
Meu beta saiu pela porta do escritório que ficava ao lado do
meu.
- Pois não\, alfa!
- Sua filha acha que agora pode ficar gritando com meus
funcionários. Ela não aprendeu nada em casa? Você não a educou?
- Eduquei sim\, fizemos nosso melhor\, alfa!
- Pois então a leve para sua casa e tente ensiná-la
novamente, pois hoje ela não passa a noite comigo!
Carlos pareceu chocado, enquanto Emily me lançou um olhar de
ódio.
- O que você pensa que está fazendo? Sou sua companheira!
Quer que eu te deixe? Eu não sou obrigada a aguentar isso!
- Pois se você me deixar\, também vai enlouquecer. Estaremos
quites. Eu não aguento mais seus acessos. Vá para a casa dos seus pais, preciso
de um tempo longe de você.
Ela respirou fundo, engolindo o orgulho e seguiu o pai pelo
resto do corredor.
“Estranho, você não sentiu nada...”
“Como assim, Peri? Estou com raiva!”
“Sim.... mas não sentiu dor e nem arrependimento. Ela é sua
companheira. Essa briga deveria ter deixado você abalado...”
“Estranho... pensando bem, já faz algum tempo que tenho
sentido o nosso laço de companheiros um pouco mais fraco. Imaginei que fosse
pelo comportamento da Emily, mas tem algo a mais. Será que é possível se
desfazer de um laço?”
Em meu coração, isso me deu uma pequena esperança. Seria
bom... Mas ela era a companheira que a Lua me deu... Como isso poderia ser
possível?
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Atualizado até capítulo 67
Comments
Lourdes Morais
onde anda a deusa Selene que deixou acontecer isso
2025-02-20
1
Jaciara maria de oliveira Lima da silva
ela não é companheira dele e sim do médico ela deve ter feito bruxaria pra ele
2025-02-08
3
Sirena 🧜🏾♀️💦
Muito fraco.
E a própria voz, devido a autoridade de alfa, faz os outros abaixarem a cabeça. No caso dele, não????
2025-01-27
2