A minha voz saiu baixa, mas firme.
— Só porque não sabe quem enviou não significa que seja algo ruim.
Ela não se virou para me encarar, mas também não soltou o buquê na lixeira. Uma vitória pequena, mas ainda assim, uma vitória.
— Blair, eu já te disse...
A voz dela soava cansada, como se fosse uma conversa antiga e desgastante.
— Relacionamentos... não são para mim. Tenho coisas mais importantes na vida do que me preocupar com um homem. Já tive o suficiente dessa confusão.
Cruzei os braços, posicionando-me ao lado da bancada da cozinha.
— Eu sei. E entendo que, talvez tenha sido machucada no passado. Mas... nem todo o mundo é igual, mãe.
Encarei as flores, tentando escolher as minhas palavras com cuidado.
— Talvez quem enviou isso esteja genuinamente interessado, e seja uma boa pessoa. E talvez, só talvez, você mereça esse interesse.
Ela riu, mas foi uma risada amarga, carregada de dor e ceticismo.
— Interessado? Blair, as pessoas não ficam genuinamente interessadas. Elas têm intenções, objetivos. Elas querem algo em troca, sempre.
Houve um silêncio. Sabia que ela falava da experiência, dos anos de decepções e promessas quebradas. Mas eu não podia deixar que ela se fechasse completamente para essa possibilidade.
— Não todos.
Eu a encarei agora, tentando encontrar o seu olhar.
— Não todas as pessoas. E você... você passou tanto tempo cuidando de mim, se sacrificando. Talvez seja hora de deixar alguém cuidar de você também.
Ela suspirou, deixando o buquê descansar sobre a pia, mas sem jogar fora.
— Blair, você quer me ver com alguém? Quer que eu me jogue em algo assim, sem saber o que pode acontecer?
— Não, eu quero que você se permita, ao menos uma vez, tentar.
Puxei uma cadeira e sentei, a encarando com o máximo de honestidade que conseguia.
— Eu só acho que não é justo com você mesma... não é justo viver assim, sempre na defensiva. Talvez essa pessoa seja diferente, e se não for bom, haverá outros, mãe você é tão maravilhosa, e merece amor e cuidado. Talvez esse alguém, queira te fazer feliz. E se for, mãe? Não seria bom sentir isso de novo?
Ela permaneceu em silêncio, os dedos correndo distraidamente pelas pétalas das flores. Eu podia ver que estava processando, ponderando. Talvez pela primeira vez em muito tempo, estava se permitindo ao menos considerar a ideia.
— Você sabe que eu não preciso de ninguém, certo?
A voz dela saiu mais suave, quase como um sussurro.
— Eu sei.
Sorri, suavemente.
— Mas isso não significa que você não mereça alguém, ou não possa ter alguém.
Ela finalmente se virou para mim, com os olhos cansados, mas um pouco menos tensos.
— Quem quer que tenha enviado isso...
Ela gesticulou para o buquê.
— Vamos ver o que acontece. Mas não crie expectativas, Blair.
Eu sorri, sabendo que, mesmo que ela dissesse para não ter esperanças, o fato de não ter jogado as flores fora já era um pequeno passo.
— Sem expectativas. Só... curiosidade.
Ela me lançou um olhar quase brincalhão, como se soubesse exatamente o que eu estava tentando fazer.
— Curiosidade, hein?
— Curiosidade não mata ninguém.
Dei de ombros. Ela sorriu, minimamente, mas foi um sorriso.
— Só abre portas.
Ela suspirou, mas desta vez, foi um suspiro mais leve. Talvez, só talvez, a porta estivesse entreaberta.
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Atualizado até capítulo 113
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