Eu olhei para a minha mãe enquanto conversava com as outras mães. A forma como ela sempre se ajustava a qualquer grupo me impressionava, ainda que ela sempre mantivesse certa distância, como se houvesse uma barreira invisível.
Eu sabia que, apesar de ser a mulher mais incrível que conheço, ela se protegia. E essa proteção não era só sobre mim, era também sobre ela mesma.
Enquanto caminhávamos para o próximo ponto do tour, me peguei pensando no que ela havia dito. Nunca quis, nunca conheceu ninguém. Isso soava um tanto triste, resignado. Como se ela tivesse simplesmente aceitado que estar sozinha era o destino dela. Não era justo. Ela se sacrificou tanto por mim que nunca teve a chance de viver a própria vida.
— Sabe, mãe, você merece mais do que isso — eu disse, interrompendo os meus próprios pensamentos. — Você merece ser feliz também.
Ela me olhou de lado, com aquele sorriso que conheço tão bem, o sorriso que usa quando acha que eu estou sendo dramática.
— Eu sou feliz, Blair. Tenho você, não preciso de mais nada.
Suspirei. Era exatamente disso que eu estava falando. Ela sempre colocava minha felicidade à frente da dela. Era incrível e frustrante ao mesmo tempo.
— Sim, mãe, eu sei. Mas e depois que eu estiver ocupada com a faculdade? Depois que eu começar minha própria vida? Você não pode continuar só pensando em mim. Precisa pensar em você também.
Ela parou de andar e me encarou, com os olhos cheios de algo que eu não conseguia identificar.
— Você não precisa se preocupar comigo, Blair. Eu sempre dei conta, e vou continuar dando. Minha felicidade é ver você bem. E, de verdade, eu estou bem assim.
Aquilo me irritou um pouco. Não porque ela estava errada, mas porque ela não via o que eu via. Não via o quanto merecia mais. Mais do que só o papel de mãe dedicada. Ela merecia amor, companheirismo... Alguém que cuidasse dela, como ela sempre cuidou de mim.
— Mãe, me escuta
eu disse, parando na frente dela.
— Você passou tanto tempo sendo tudo para mim que se esqueceu de ser algo para você mesma. E isso não é justo. Nem pra mim e nem pra você. Eu não quero carregar a responsabilidade de ser o único motivo da sua felicidade.
Ela suspirou, visivelmente desconfortável com a conversa. Não era o tipo de coisa que discutíamos. Talvez porque eu só agora me dei conta de como ela sempre esteve sozinha.
— Você está crescendo, Blair. Está entrando numa nova fase da vida. É normal querer me ver bem , mas me empurrar para algo ou alguém, você precisa entender que as coisas não são tão simples assim.
Ela estava certa, claro. Não era simples. Mas eu sabia que, se dependesse dela, essa conversa morreria aqui e agora. Então, insisti.
— E se você desse uma chance? Um encontro. Nada sério, só... para ver como é. Quem sabe não encontra alguém interessante?
Ela balançou a cabeça e riu levemente, como se a ideia fosse completamente absurda. Mas parecia com medo
— E onde você acha que vou encontrar alguém? Entre os pais dos seus colegas de faculdade?
— Por que não?
perguntei, sorrindo de lado.
— Eu já vi uns dois ou três que parecem bem interessados.
Ela ficou vermelha de novo, e eu sabia que tinha acertado em cheio. Talvez ela ainda não tivesse percebido, mas havia algo ali. Ela só precisava estar aberta para enxergar.
Minha mãe é uma mulher linda, jovem e competente. Qualquer homem se interessaria nela fácil.
— Blair, você está louca — ela disse, balançando a cabeça, mas o sorriso que apareceu no rosto dela me deu esperança.
— Vamos focar no que importa agora, ok? Sua faculdade, seu futuro.
— E o seu também, mãe
eu insisti, pegando a mão dela e apertando.
— Seu futuro também importa.
Ela não respondeu, apenas apertou minha mão de volta. Gostaria de ter plantado uma semente, e torci para que, com o tempo, ela começasse a perceber que, sim, o futuro dela também era importante. Ela merecia ser feliz, tanto quanto eu.
De volta para casa, minha cabeça não parava. O tour pela faculdade tinha sido incrível, mas agora minha mente estava em outra coisa.
Mamãe. Ela era a única pessoa no mundo que nunca me decepcionou, sempre estava lá, e me machucava vê-la sozinha, faltava algo. Aquela conversa durante o tour só reforçou o que eu já sabia: se dependesse dela, ela nunca sairia dessa bolha.
Foi aí que tive uma ideia. Uma ideia louca, claro, mas quem disse que as melhores ideias não nascem assim? Abri o notebook, me sentei no sofá, e comecei a pesquisar. Aplicativos de namoro. Tinha dezenas deles, cada um com uma proposta diferente. Escolhi um dos mais populares, algo simples, onde ela pudesse encontrar alguém... "compatível".
Ri sozinha enquanto preenchia o perfil dela. Coloquei uma foto bonita, uma que ela tirou no último Natal, quando estava arrumada, com aquele sorriso que todo mundo sempre elogia. Na descrição, tentei não exagerar, mas também não me contive muito:
"Hailey Miller, 37 anos. Mãe dedicada, batalhadora e, acima de tudo, alguém que merece ser amada. Apaixonada por café, livros e viagens. Gosta de conversas profundas e boas risadas. Buscando alguém sincero e divertido para compartilhar momentos."
A cada linha que escrevia, sentia uma mistura de euforia e nervosismo. Mamãe ia me matar se descobrisse, mas eu estava decidida. Ela merecia ser feliz, e se ela não ia procurar por si mesma, eu faria isso por ela.
Assim que terminei o perfil, passei a deslizar pelas fotos dos possíveis pretendentes. E, para minha surpresa, até que não foi tão difícil encontrar alguns caras interessantes.
Eu dei um pequeno pulo no sofá. Mal podia acreditar que isso estava a funcionar, um compatível, mandou solicitação. Rapidamente, comecei a conversar com ele, como se fosse minha mãe. Claro, mantendo tudo no tom casual e sem parecer muito desesperada, afinal, eu estava a jogar um jogo delicado. E então, sem perder tempo, sugeri um encontro. Algo leve, numa cafeteria aconchegante no centro da cidade.
- Com certeza, ela vai me matar.
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Atualizado até capítulo 113
Comments
Lívia Maria Esf
Vai levar uns cascudos Blair.
2025-01-03
2
Débora Oliveira
ela vai te matar menina 🤣🤣🤣🤣
2024-12-09
2