Void caminhou pelos corredores do Reformatório Peixe Vermelho, seu coração batendo mais rápido enquanto se aproximava da sala do psicólogo. Ele nunca se sentiu à vontade com a ideia de compartilhar seus pensamentos e sentimentos, e a última coisa que queria era abrir-se para um estranho. O psicólogo, conhecido como Dr. Kade, era uma figura peculiar: um humano com chifres de demônio que lhe conferiam uma aparência intimidante, mas, ao mesmo tempo, havia algo intrigante nele.
Ao entrar na sala, Void encontrou Dr. Kade sentado atrás de uma mesa, com um olhar atento e curioso.
— Sente-se, Void — disse o psicólogo, gesticulando para a cadeira à sua frente. — Estou aqui para ouvir você.
Void hesitou, mas acabou se sentando, mantendo uma postura defensiva. Ele olhou ao redor, tentando encontrar algo que o distraísse. O ambiente era decorado com quadros que representavam paisagens tranquilas, algo que se opunha à atmosfera tensa que ele sentia.
— Vamos começar com algo simples. Como você está se sentindo aqui no reformatório? — perguntou Dr. Kade, inclinando-se ligeiramente para frente.
Void respirou fundo, tentando manter a resposta curta e direta.
— Estou me adaptando. Apenas tentando passar o tempo — respondeu, evitando o olhar do psicólogo.
— Entendo. Mas você não parece muito convencido. O que realmente pensa sobre estar aqui? — insistiu Dr. Kade, sua voz suave e encorajadora.
Void se sentiu pressionado, mas manteve a guarda alta.
— É só um lugar. Não tenho poderes, então não vejo como isso pode realmente importunar — disse, tentando parecer indiferente.
O psicólogo observou atentamente, como se estivesse avaliando cada palavra.
— Você mencionou que não tem poderes. Isso o faz sentir-se inferior? — perguntou Kade, sem pressionar demais, mas com uma curiosidade genuína.
Void ficou em silêncio por um momento, pensando. Ele não queria mostrar vulnerabilidade, mas a verdade era que a falta de habilidades sempre pesara em sua mente.
— Não preciso de poderes para ser forte — respondeu, desafiador. — A força vem de dentro.
Dr. Kade sorriu levemente, como se tivesse encontrado uma faísca de esperança na conversa.
— Concordo. A verdadeira força pode ser a capacidade de enfrentar seus medos e inseguranças. E você, Void, tem alguém a quem possa contar aqui?
Void franziu a testa, sentindo-se desconfortável com a pergunta. Ele não queria admitir que havia encontrado amigos, que havia se aberto um pouco com Kai e os outros.
— Não. Estou aqui sozinho — mentiu, embora soubesse que não era totalmente verdade.
— Às vezes, é importante ter alguém para compartilhar nossas lutas. Não é fraqueza, mas sim uma parte do ser humano. Você não precisa carregar seus fardos sozinho. — Dr. Kade disse, sua voz transmitindo empatia.
Void sentiu uma onda de frustração. Ele não queria que ninguém soubesse o que realmente pensava ou sentia. O psicólogo, porém, parecia ver através de sua fachada.
— Você pode se sentir pressionado a ser forte o tempo todo, mas todos nós temos momentos de dúvida. Você tem medo de se abrir? — perguntou Kade, observando atentamente a reação de Void.
— Não tenho medo. Apenas não vejo a necessidade de falar sobre isso. — Void respondeu, agora um pouco mais defensivo.
— Entendo, mas às vezes compartilhar pode ser um passo importante para encontrar paz interior. Você não precisa se sentir pressionado a contar tudo de uma vez. Pode começar com pequenos passos.
Void se sentiu dividido. Parte dele queria se fechar e terminar a sessão, mas havia algo na maneira como Dr. Kade falava que o fazia querer confiar.
— Se eu contar alguma coisa, você não pode usar isso contra mim, certo? — Void perguntou, seu tom mais sério.
Dr. Kade inclinou a cabeça, um sinal de compreensão.
— Meu objetivo aqui é ajudá-lo, não julgá-lo. O que você compartilhar comigo ficará entre nós. Essa é a essência da terapia.
Por um momento, Void considerou. Ele sabia que precisava de alguma forma de apoio, mas sua desconfiança ainda o impedia de se abrir completamente.
— Eu... não sei se estou pronto para isso — disse, finalmente.
O psicólogo assentiu, respeitando o espaço de Void.
— Isso é totalmente normal. Leva tempo. E quando você estiver pronto, estarei aqui para ouvir — respondeu Kade, com um tom encorajador.
A conversa continuou, com Dr. Kade guiando Void através de perguntas que o ajudavam a refletir sobre sua vida no reformatório e suas inseguranças. Embora Void não revelasse muito, a sessão o fez pensar mais sobre suas relações e os amigos que estava formando.
Quando a sessão chegou ao fim, Void se levantou, sentindo-se um pouco mais leve, mas ainda cauteloso. Ele sabia que não poderia evitar seu passado ou seus sentimentos para sempre, mas talvez houvesse um caminho para enfrentar isso, mesmo que fosse apenas um pequeno passo.
— Obrigado, Dr. Kade — disse Void, antes de sair da sala.
— Lembre-se, você não está sozinho. Estou aqui se precisar conversar novamente — respondeu Kade, com um sorriso que transmitia confiança.
Void saiu da sala, ponderando sobre suas palavras. Ele não tinha certeza do que o futuro reservava, mas pela primeira vez, considerou que talvez abrir-se não fosse tão aterrorizante assim.
Enquanto Void caminhava de volta para o pátio, sua mente estava ocupada com uma mistura de sentimentos. O peso das palavras de Dr. Kade ainda ecoava em sua cabeça. Ele se perguntava se realmente estava pronto para abrir-se mais, mas a ideia de um espaço seguro onde pudesse compartilhar seus pensamentos começou a parecer menos assustadora.
Na sala, Dr. Kade observou a porta fechar atrás de Void e, por um momento, ficou em silêncio. Ele pegou sua prancheta e começou a escrever, mas sua mente estava longe das anotações habituais. Ele havia notado algo especial em Void — uma centelha de determinação, mesmo que envolta em inseguranças. O garoto não possuía poderes, mas sua força interior e a luta constante contra seus desafios o tornavam intrigante.
Enquanto escrevia, Kade fez uma lista mental das sessões que considerava necessárias. Ele não costumava fazer isso com todos os detentos, mas havia algo em Void que o chamava a atenção. O jovem parecia estar lutando contra mais do que apenas a vida no reformatório; havia uma profundidade em seus olhos que sugeria uma história não contada.
**Anotações:*
- **Paciente:** Void
- **Observações:* Potencial não reconhecido. Luta interna intensa. Necessário acompanhamento mais próximo.
Dr. Kade anotou as impressões com cuidado, sabendo que a confiança de Void não seria fácil de conquistar. Ele queria entender melhor a complexidade do garoto, as camadas de sua personalidade e as razões pelas quais se escondia sob uma fachada de indiferença. O psicólogo acreditava que, por trás do comportamento reservado de Void, havia um indivíduo que poderia se tornar um agente de mudança, não apenas para si mesmo, mas também para os outros ao seu redor.
Kade olhou pela janela da sala, observando os detentos no pátio. O riso e as interações entre eles contrastavam com a solidão que Void muitas vezes parecia carregar. O psicólogo sentiu uma onda de empatia e determinação. Ele sabia que precisava ajudar Void a encontrar sua voz e a se abrir para as possibilidades que a vida poderia oferecer, mesmo em um lugar como aquele.
Com um suspiro decidido, Dr. Kade fechou a prancheta e se levantou, decidido a encontrar formas de incentivar mais interações sociais para Void. Ele acreditava que, ao conectá-lo mais com os outros, poderia ajudá-lo a descobrir sua verdadeira força.
— Vamos ver como posso ajudar esse garoto a se abrir — murmurou Kade para si mesmo, enquanto deixava a sala, sua mente já formulando planos para as próximas sessões.
...fim...
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Atualizado até capítulo 123
Comments
fada e pouco tá perfeito
2024-09-24
1
Sorridente
Foda /Ok/
2024-09-24
0