Três dias se passaram desde que Elyana e Aric chegaram à cabana de Arkhan. A recuperação estava progredindo, mas a necessidade de continuar a missão era cada vez mais premente. No entanto, naquele início de manhã, a dupla ainda não estava pronta para partir. O foco do dia seria outro.
— Vamos nessa, Melodia? — Adriel chamou, ajustando o chicote carmesim em sua cintura enquanto se preparava para sair.
— Claro, claro! — respondeu Melodia com seu habitual entusiasmo, embora seus olhos revelassem um brilho de algo mais profundo. Ele olhou para Elyana e Aric, que ainda descansavam, e para Arkhan, que estava ocupado preparando novas poções.
— Vamos trazer comida fresca, pessoal! — disse Melodia, sorrindo antes de sair pela porta, seguindo Adriel até a floresta.
A manhã estava fria, e a floresta em volta parecia ainda mais densa com a névoa leve que cobria o solo. O silêncio natural era quebrado apenas pelos passos dos dois e pelo ocasional farfalhar das folhas. Melodia começou a murmurar palavras antigas, quase como uma melodia sussurrada, e o ambiente ao redor respondeu.
— Ainda estou impressionado com como você faz isso — comentou Adriel, observando Melodia com curiosidade.
— Não é nada demais, apenas uma forma de escutar o que a floresta tem a dizer — Melodia respondeu, modestamente. Ele fechou os olhos e, por um momento, pareceu se perder em sua própria música. — Ali, a leste. Um cervo está se movendo.
Adriel assentiu, confiando totalmente no dom de Melodia. Os dois seguiram em direção ao som que apenas Melodia podia ouvir. Durante a caminhada, a conversa entre eles fluía de maneira natural, como se continuassem um diálogo que nunca realmente terminava.
— Lembra-se da nossa primeira caçada? — perguntou Melodia, com um sorriso nostálgico.
— Como poderia esquecer? — Adriel respondeu, rindo. — Você quase fez o cervo correr direto para cima de nós com um dos seus feitiços mal controlados.
— Ah, bons tempos — Melodia riu, mas havia uma melancolia em seu tom. — Tantas coisas mudaram desde então...
— Sim, mas algumas coisas permanecem as mesmas. — Adriel parou por um momento, olhando diretamente para Melodia. — Como nós, por exemplo.
Melodia parou ao lado dele, o feitiço sonoro ainda ecoando levemente ao redor deles, sintonizado com os ritmos da floresta. Ele sabia que aquelas palavras carregavam um peso maior do que aparentavam.
— Adriel... — começou Melodia, mas Adriel o interrompeu, colocando uma mão no ombro do feiticeiro.
— Você sempre foi mais do que apenas um amigo para mim — Adriel disse, sua voz firme, mas com uma suavidade que não costumava usar. — Sabe disso, não é?
Melodia assentiu, incapaz de esconder o sorriso. Ele havia esperado ouvir aquilo há muito tempo, embora nunca tivesse tido a coragem de admitir seus próprios sentimentos.
— Eu sei, Adriel. E sinto o mesmo. Mas... — Ele hesitou, sua voz diminuindo um pouco. — Com tudo o que está acontecendo, com os demônios e essa guerra que parece nunca acabar... não podemos nos permitir distrair.
— Não é uma distração, Melodia. É o que nos mantém vivos. — Adriel apertou o ombro de Melodia levemente antes de soltar. — E não importa o que aconteça, sempre teremos isso, mesmo que o mundo ao nosso redor esteja em caos.
Melodia sentiu o calor das palavras de Adriel preencher seu coração. Mesmo em meio à escuridão que eles enfrentavam, aquele vínculo os tornava mais fortes.
— Venha, vamos encontrar esse cervo antes que a floresta toda desperte — disse Adriel, com um sorriso que Melodia conhecia bem.
O caminho os levou mais profundamente na floresta, e enquanto caminhavam, o som da natureza se tornava mais claro para Melodia, que liderava a caçada. Ele fechou os olhos mais uma vez, sentindo os passos do cervo ressoarem através das árvores.
— Estamos quase lá. É grande, vai nos fornecer carne suficiente para dias — disse Melodia, abrindo os olhos e apontando para uma pequena clareira adiante.
Adriel seguiu em silêncio, seus movimentos felinos enquanto se aproximava do cervo que agora podiam ver entre as árvores. Um único movimento ágil, e o cervo foi abatido, sem sofrimento. Adriel sempre fazia questão de ser o mais rápido e eficiente possível, uma prova de seu respeito pelos seres vivos que caçava.
— Bom trabalho — elogiou Melodia, admirando a habilidade de Adriel. — Agora podemos voltar, antes que Arkhan comece a se preocupar.
— Sim — concordou Adriel, mas ele sabia que o sucesso da caçada não era a única coisa que os satisfazia. O tempo que passaram juntos, as palavras trocadas, os sentimentos confessados, tudo isso fortalecia o elo entre eles.
Enquanto os dois começavam a carregar a presa de volta para a cabana, o sol começava a surgir no horizonte, iluminando a floresta com uma luz dourada. Era como se, mesmo na escuridão do mundo, houvesse sempre uma esperança, um novo dia. E para Adriel e Melodia, aquele dia representava mais do que apenas uma vitória sobre a fome; era um passo à frente em sua jornada juntos, não apenas como aliados, mas como algo mais.
Quando finalmente voltaram para a cabana, Elyana e Aric já estavam acordados, prontos para mais um dia de recuperação. O aroma da comida que Melodia e Adriel prepararam encheu o ambiente, e pela primeira vez em dias, a pequena cabana parecia cheia de vida e risos.
Ali, cercados por amigos e por laços que transcenderam as palavras, a guerra contra os demônios milenares parecia um pouco mais suportável. Afinal, era nesses pequenos momentos que se encontrava a verdadeira força para continuar lutando.
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Atualizado até capítulo 16
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