As Lâminas da Justiça – As Armas Divinas

O jantar está sendo uma sopa de ervas, sem gosto e um pouco amarga, mas é o que elas têm no momento. A fome não se importa com o gosto, desde que saciada.

As velas para iluminação têm de ser usadas com cautela, para não acabar muito cedo, mas estranhamente existe uma luminosidade nos arredores da construção.

Parece que ainda é o fim da tarde, mas agora pouco estava escuro, não estava Ehuang?

Jingfei se levanta e vai até a porta e abre, sem nenhuma restrição, afinal, não existe nada naquele lugar para chamar de perigoso.

A luz emana de um lugar perto do grupo de árvores, um pouco distante da mansão, mas a luz é forte o suficiente para iluminar todo os arredores, forte o suficiente para que se identifique as pedras no chão.

Jingfei, o que é isso?

Não faço idéia, talvez uma criatura mágica.

As duas se aproximam, Ehuang atrás de Jingfei, ela é a mais medrosa, essas coisas ela nunca viu, diferente de Jingfei que já presenciou a visão de uma criatura mágica.

Em certo momento a luz se intensifica, como uma explosão, cegando as duas momentaneamente. Cobrindo os olhos com uma das mãos, elas apenas vislumbram três objetos saindo por entre as árvores e quando a luz diminui podem ver melhor o que é aquilo.

Espadas? - falam juntas.

Na realidade são duas espadas, sendo uma mais longa e reta, com empunhadura em jade preto e uma única pedra azul no centro, com uma crina azul presa no pomo dourado, uma guarda na mesma cor e mesmo estilo, dois dragões. Sua bainha é toda escura sem nenhuma marca, somente a ponta dourada, assim como na entrada, mesma cor na parte de suporte. A outra um pouco menor e curvada na ponta, com empunhadura no mesmo jade preto, com uma pedra dourada no centro, com uma crina branca presa no pomo dourado, uma guarda da mesma cor e mesmo estilo do pomo, outro dragão, sua bainha também é escura, com a ponta e a entrada douradas, mesma cor na parte do suporte.

O terceiro objeto não é uma espada, é um arco, mas sem flechas. O arco é todo em madeira, parecendo bem resistente, aparentemente normal. Em sua parte mais larga tem um símbolo, uma estrela dourada e ao redor dela, um aro grosso também dourado. As pontas do arco tem uma crina preta, presa com fios dourados e nada mais.

Jingfei, o que é isso? Essas coisas estão flutuando!

Não sei.

Jingfei dá um passo para trás e os objetos se aproximam mais.

Fiquem longe! Quem está manuseando isso? Apareça! - grita Jingfei.

Os objetos se iluminam levemente e em um piscar de olhos, mudam sua aparência. Na frente de Jingfei e Ehuang estão agora dois homens e uma mulher. Talvez as duas mulheres não estivessem preparadas para tal aparição, pois no momento em aquelas pessoas se materializaram, as duas correm de volta para a mansão e fecham a porta e a bloqueia como podem.

O que é aquilo?

Ehuang, não pergunte sobre coisas, que você sabe que não tenho resposta.

A janela, única no cômodo, não tem proteção e por ali os objetos entram, tomam a forma de pessoas novamente e se ajoelham na frente das duas.

Senhora Liang Jingfei, nós somos seus guardiões.

Senhora Lin Ehuang, sou sua guardiã.

O quê? - falam as duas.

Se as senhoras se acalmarem, nós podemos explicar. - fala uma das pessoas.

Acalmar? Pensam as duas sem conseguirem falar. Jingfei já viu algumas criaturas mágicas, mas nenhuma delas falou ou se transformaram em pessoas e a visão daquilo foi assustador, no entanto agora ela está na presença de algo novo e como Isa, se lembra que aquele mundo é recheado de magia, de poderes e criaturas estranhas, aquilo na sua frente definitivamente é algo estranho.

Tudo bem, expliquem. - diz Jingfei respirando fundo e segurando o braço de Ehuang que está agarrada a seu braço. - Venha Ehuang, vamos ouvir, parece que eles não querem nos fazer mal.

__ Nunca faremos mal as senhoras, juramos defender as vidas das duas. - fala a mulher.

As três pessoas não andam, apenas estão flutuando e quando Jingfei e Ehuang sentam-se na esteira que forra o chão, as pessoas também sentam, mas não no chão e sim no ar. Essa visão é estranha e assustadoras para as duas mulheres, que observam todos os detalhes daquela aparição.

Os dois homens são de idades diferentes. O mais velho, aparenta ter trinta anos, com cabelos longos presos no alto da cabeça e presos com uma presilha de madeira. Um rosto tranquilo, mas com cicatrizes no queixo, na bochecha esquerda e na testa. Seus olhos são também tranquilos, pretos e com um certo brilho de felicidade. Um pequeno bigode sob uma boca de lábios finos e isso o deixa com uma aparência de um homem responsável. O outro parece ser mais jovem, muito jovem. Seu cabelo é também preto e preso no alto da cabeça e a presilha também é de maneira. O rosto jovem não tem cicatrizes e é um belo rosto. Olhos negros e que apresenta o mesmo brilho de felicidade do colega ao lado, um nariz reto, sem barba ou bigode, lábios mais grossos do que do colega e está sorrindo. Os dois homens usam uma estranha roupa. Nada vulgar ou rasgado, apenas uma túnica comum, mas na cor preta e ao longo da parte frontal uma faixa em azul, protetores de punho em couro com um dragão pintado em dourado, na faixa da cintura um bordado de vários dragões de tamanhos diferentes. É uma vestimenta normal, mas o tecido é mais grosseiro e velho.

A mulher usa uma vestimenta igual, mas a cor é marrom e a faixa da cintura é branca com uma estrela dourada bordada, única e bem na frente do corpo. Uma roupa comum, mas a mulher é diferente. Com cabelos castanhos escuros presos no alto da cabeça, tem uma presilha de metal dourada e a estrela pintada nela. Seu rosto é belíssimo, olhos negros sérios, uma bela boca rosada. A delicadeza de seu rosto é uma contradição com o que sugere suas vestimentas, que são o de uma guerreira, aliás os três são guerreiros. O rosto dela expressa uma calma tão obvia que Jingfei se pergunta o que a deixou assim tão serena.

Somos almas em procura de justiça para recuperar nossa honra e assim podermos entrar no grande Céu. - explica o mais velho dos homens. - Eu sou Jiang e esse é Wen. A mulher é Sui.

Vocês não tem nomes de famílias? - pergunta Jingfei.

Em nossa desonra, perdemos o direito de usar os nomes de nossas famílias. - responde Sui. - Antes que pergunte mais, vamos falar.

Eu começo. - se voluntaria Jiang. -  Eu era um fazendeiro no Reino do Dragão Azul, quando o rei convocou a todos os homens que pudessem empunhar uma espada e que tivesse barba no rosto, para defender o reino e as famílias. Diziam muitos vizinhos, que o exército invasor maltratava mulheres e matavam todo o resto. - Jiang suspira de saudade. - Eu tinha uma bela esposa, quatro filhos homens  e minha mãe, que morava comigo. Eu não podia permitir que aqueles animais maltratassem minha esposa e matassem meus filhos e mãe, então atendi ao chamado do rei e me alistei. No começo fizemos alguns treinos e aquele que tinha algum conhecimento e habilidade com a espada e o cultivo, foi separado e lhes foi entregue o comando dos homens de suas aldeias. Eu fui um deles. Por doze meses, a vitória esteve ao nosso lado e isso deixou o rei satisfeito e acreditando em uma vitória maior, nos lançou a um ataque maciço em direção ao exército invasor. - Jiang abaixa os olhos, como se aquele momento tivesse acontecido no dia anterior. - Foi um massacre. O rei deveria ter esperado outros reinos antes desse ataque, mas achando que estava fácil demais, atacou sem nenhuma estratégia, o resultado foi um campo de batalha forrado de soldados mortos. Uma linha de defesa foi montada, ninguém poderia deixar passar um soldado inimigo sequer ou a derrota seria certa. Eu não sou covarde, mas fiquei pensando que minha família não teria defesa contra os invasores, pensando que minha bela esposa seria uma diversão nas mãos do invasor. Pensei muito, mas demorei para tomar uma decisão. Vi muitos fugindo durante a noite, mas eu não sabia ainda o que fazer. No dia do ataque decisivo do invasor, parece que aquele exército se duplicou, havia milhares pelas colinas, campos e até onde a vista podia alcançar. Nossos soldados foram bravos, mas tinham que lutar contra dois ou três ao mesmo tempo e eles foram caindo um a um. Nesse momento, decidi voltar para casa e fugir com minha família. Corri pelo campo de batalha na direção contrária da luta, esparrando aqui e ali em corpos sem vida e em um desses esbarrões, um soldado do nosso exército me chamou de covarde e segurou minhas vestes, foi tempo suficiente para uma flecha atravessar meu coração. Durante a fuga, deixei a espada para trás e quando acordei na beira do lago e olhei meu reflexo, vi que havia me tornado a espado deixada para trás.

Um silêncio de simpatia e talvez de compreensão ao que aconteceu, Jingfei e Ehuang olham uma para a outra e voltam sua atenção ao jovem de sorriso fácil.

__ Minha história não tem muito da coragem do amigo Jiang. Eu, Wen, venho de uma família de boas condições financeiras e meu pai queria que eu me tornasse um membro do exército, de preferência em um alto escalão. - Wen sorri dessa idéia do pai. - Quando os exércitos invasores, derrubaram a primeira linha de defesa do Reino da Estrela Vermelha, o caos já estava formado na capital e meu pai em pânico, arrumava as malas e juntava sua fortuna para fugir. Assim como o rei de Dragão Azul, nosso rei chamou a todos para fortalecer o exército e defender o reino, mas muitos não responderam ao chamado do rei, principalmente os ricos, eles apenas fugiram, assim como minha família. As estradas eram um perigo, mas meu pai não se deixou intimidar por isso, ele já tinha enviado um dos servos na frente, para preparar seu navio mais veloz. - nesse momento o sorriso desapareceu do rosto de Wen. - Caímos em uma emboscada, nossos guerreiros não foram páreo para aqueles brutos enormes e hábeis com a espada. Esperando que seríamos salvos pelos guerreiros, eu e minha família não saímos da carruagem e quando vimos que nada disso aconteceria, meu pai abriu a porta e tentou correr para a floresta levando sua mala de riquezas. Minha mãe ao tentar defender minha irmã, foi degolada e minha irmã arrastada e jogada em cima de um cavalo e desapareceu na estrada. Eu estava escondido entre as folhagens, não consegui defender minha mãe e irmã e só pensava em correr para a floresta, como meu pai fez. Quando toda a nossa comitiva estava morta, um dos soldados invasor sai da floresta com a cabeça de meu pai em uma mão e na outra a mala de riquezas. Um sorriso estava em seu rosto e em seu idioma informou aos demais sobre o pequeno tesouro que achou. Achei que aquele era o momento de fugir, mas vi que poderia correr o risco de morrer na fuga, então decidi me entregar, afinal ser escravo não seria tão ruim assim, mas estaria vivo. Quando saí dos arbustos e joguei a espada para longe, a espada que pertencera a meu avó e a dezenas de ancestrais, me ajoelhei diante dos soldados, não tive tempo de falar nada, minha cabeça foi cortada ali mesmo.

Outro silêncio de simpatia e talvez de compreensão?

__ Meu nome é Sui, sou arqueira do exército do Reino da Lua Celestial e como todos os reinos, estávamos preparados para expulsar o invasor de nossas terras. Eu tinha uma missão especifica, assim como o grupo de arqueiros do exército, deter o maior numero de inimigos. Eu também era casada, mas não tinha filhos, ainda não tinha recebido a permissão para isso, mas era feliz com meu marido, que era capitão da cavalaria. De acordo com nossas conversas, o inimigo destruiu o Reino da Lua Celestial primeiro e o grosso do exército se dirigiu a Dragão Celestial e Estrela Vermelha, tudo muito bem organizado. Bem, minha falta ou pecado foi na última batalha antes da tomada da capital. Os arqueiros sobreviventes deveriam ir para as torres e muralhas e impedir que o inimigo escalasse e invadisse por cima, enquanto isso a cavalaria restante defendia o portão principal da cidade. Assim como Jiang descreveu, os soldados inimigos cobriam os campos e como um enxame de abelhas, voaram para cima dos cavaleiros que em uma última tentativa de defesa correram para dentro da cidade, mas o inimigo era muito forte em tudo, espadas,várias armas e no cultivo. Uma explosão no portão o colou abaixo e a entrada estava aberta para o exército invasor. Onde eu estava, a visão da entrada da cidade é ampla e eu vi meu marido lutando bravamente, mas de repente uma lança atravessou seu corpo, quase o partindo ao meio. - o rosto sempre sereno de Sui se contorce por uma lembrança horrível. - Aquele homem me aceitou na vida dele sem restrições. Eu não era boa o suficiente como arqueira e não tinha um posto, como é exigido para que aconteça um casamento, mas nós lutamos muito até que a própria rainha aceitou nosso casamento. Eu não podia deixar que ele fosse esquartejado como um animal de caça por aqueles sujos. Não ele, não ele que foi o melhor cavaleiro do exército do reino. Que tinha uma serenidade diante de qualquer situação, que era assustador. Que era um vencedor. - um momento para segurar as lagrimas. - Eu apenas desci da torre e corri até ele. Atravessei as lutas que aconteciam na entrada da cidade e quando cheguei mais perto, fiquei procurando por meu marido, mas não via nada, até ver o emblema em jade, da família de meu marido, entretanto, aquilo não podia ser ele, ali só tinha o tronco de alguém, as pernas e braços estavam ao lado e não havia cabeça. Eu não quis acreditar que aquele amontoado de carne esmagada fosse meu marido. Não aquele homem carinhoso, gentil e que me amava. Andando sem pensar no perigo, cheguei perto dele e segurei o emblema da família em minhas mãos, não quis olhar para o resto, mas não olhei para mais nada, pois uma lança atravessou meu corpo e eu ali parada, vi minhas entranhas escorrer por minhas pernas até o chão. No desespero, joguei meu arco em algum lugar e assim como Jiang, quando olhei meu reflexo na água da lagoa, vi que agora eu tinha me transformado em meu antigo arco.

Jingfei é a primeira a sair da letargia que tomou conta das duas, ao ouvirem as histórias de vida daquelas pessoas, ela sugere um descanso, para reiniciar a conversa no dia seguinte.

Nós não precisamos descansar, mas ficaremos do lado de fora aprimorando nosso cultivo. - diz Jiang.

Os três se transformam nas armas e flutuam para fora da mansão.

Jingfei, o que é isso tudo?

__ Você ainda me pergunta isso? Não sei de nada, mas talvez amanhã, vamos saber o resto, porque tenho a impressão que saber sobre a vida deles é só o começo.

Foi difícil dormir aquela noite, o dia proporcionou muitas novidades.

O dia amanhece lindo. O sol em sua formosura amarela, já espalha seus raios por todo continente. É comum, naquela parte do império, ver a aurora boreal, que os moradores da região chamam de A Dança das Luzes. O nome é obvio demais, mas o espetáculo é lindo. A cada novo amanhecer é uma dança diferente, mas naquela madrugada, os que estavam acordados ou trabalhando, viram uma dança de cor diferente. Os costumeiros tons de azul e um pequeno toque de violeta, deram lugar ao vermelho. Não muito intenso, mas o suficiente para mudar a suavidade das cores. Muitos sentiram um arrepio percorrer o corpo, outros sentiram medo. Talvez os dois grupos de pessoas estejam certas em sentir um certo temor e medo.

Um pequeno grupo se aproxima da Colina das Três Irmãs, esse grupo é liderado pela senhora Gao. A mulher está curiosa para saber se é verdade que sua mais recente amiga, está mesmo presa na Mansão das Esquecidas.

A senhora Gao é uma mulher tranquila e sensata, mas na noite anterior, teve uma conversa um pouco mais ríspida com o marido, isso não chegou a ser uma discussão, pois Gao Meirong não tolera discussões ou gritos, acredita que tudo pode ser resolvido com uma boa conversa. Essa foi a primeira vez que uma atitude do marido a irritou, ela não costuma concordar com tudo que ele faz, mas sempre opina em uma ou outra situação e os dois chegam a uma conclusão que agrada ao casal, só que desta vez, Gao Sheng resolveu sozinho o que fazer e não contou a esposa o nome das mulheres que estão na mansão. Gao Meirong descobriu a identidade das duas mulheres por acaso, ouvindo as conversas descontraídas das servas, quando cozinhavam e imediatamente foi cobrar do marido o motivo de esconder tal informação. Gao Sheng conhece a esposa e sua lealdade aos amigos genuínos, mas sabe também que a poça de lama que a senhora Zhang e a concubina Lin estão, pode espirrar gotas para todos os lados, principalmente para amigos próximos. Tudo isso Gao Sheng explicou para a esposa, entretanto aquela mulher que tem um instinto para saber se uma pessoa é de confiança ou não, encerrou a conversa e foi dormir, para no dia seguinte reunir quatro soldados e a filha e se dirigir até as colinas para ver ou talvez tentar ouvir, as palavras da amiga.

Não teve tempo para isso, pois mal se aproxima da área desmatada, quando sem aviso nenhum, cinco soldados surgem e a impedem de prosseguir.

Meu nome é Gao Meirong, sou membro da família do governador e quero falar com as hóspedes. - anuncia ela com uma voz calma.

Com todo o respeito, sabemos quem é a senhora, mas temos ordens da regente que ninguém pode conversar com as hóspedes e depois, senhora, sabe que essa é a lei. Ninguém pode ter contato com que se hospeda na mansão. - explica o líder dos soldados.

Gao Meirong, ainda calma, explica aos soldados que trouxe água, pois ali não tem fontes ou rio e que isso pode ser ofertado as hóspedes, mas o soldado está firme em obedecer às ordens da regente.

__ Se conseguir, senhora, uma autorização da regente, poderá subir, mas não vou desobedecer às ordens dadas.

A senhora Gao não quis argumentar mais, a postura do soldado é uma indicativa que o assunto é sério, assim como o marido disse, mas não vai desistir, talvez não possa fazer nada agora para ajudar, entretanto, pode acompanhar o caso e se for necessário, ajudará.

Jingfei, próxima a borda da colina, junto ao elevador, vê o grupo se afastar, não reconhece as pessoas, mas por um momento pensou que seriam pessoas avisando que tudo aquilo foi esclarecido e que poderiam voltar para casa. Nada disso aconteceu e as pessoas foram embora. Jingfei suspira de ansiedade, tudo aquilo é um truque de tia Meirong, sabe disso, mas não tem provas e desta vez aquela mulher envolveu pessoas próximas, evitando um ataque direto.

Mulher esperta. - resmunga Jingfei.

Quem é essa, senhora? - pergunta Jiang.

Jingfei se assusta, esqueceu que agora tem a companhia de fantasmas.

Desculpe por assustá-la, senhora.

Tudo bem, esqueci que temos companhia agora. - sorri Jingfei, afastando os pensamentos negativos. - Vamos comer a refeição da manhã?

__ Nós não precisamos de alimentos. - responde simplesmente Jiang.

Isa está mais curiosa do que assustada, com todas essas coisas que estão acontecendo e vai aproveitar a refeição, para fazer todas as perguntas que estão em sua mente.

Diferente do que Jingfei pensava, a refeição da manhã foi rápida. Na mesa só tem frutas, trazidas por Sui, que garantiu que as frutas podem ser consumidas sem receio. Ehuang deixou a massa do pão descansando, enquanto procura por mais lenha para o fogão, vai assar os pães mais tarde, assim como a galinha selvagem que Wen trouxe.

Acomodados em uma mesa improvisada do lado de fora da casa, as cinco pessoas estão pensativas, bem, dizer pessoas é um pouco estranho, já que três delas são fantasmas.

Vocês disseram que são fantasmas …

Não, senhora Lin Ehuang, somos espíritos procurando por honra …

Não é a mesma coisa? - pergunta Jingfei.

Não, não é. Veja, fantasmas assustam pessoas vivas, perambulam por aí ou se fixam em suas residências de quando eram vivos. Nós não fazemos isso, queremos apenas nossa redenção. - explica Jiang.

Quer dizer que vocês devem fazer coisas honradas para se salvarem. - comenta Jingfei.

Quem disse a vocês para nos escolherem?

Senhora Lin Ehuang, na lagoa existe um guardião que nunca vimos seu rosto, mas ouvimos sua voz. Ele é quem diz quem deve partir ou esperar por uma oportunidade. - informa Wen.

Outra pergunta. Onde está o lago?

Não estou entendendo, Ehuang. Um lago não sai de um lugar para outro.

Pois fique sabendo, minha amiga, que o lago não está mais lá. Hoje pela manhã fui atrás de lenha para o fogão e pensei em pegar alguns peixes para nossa refeição e quando cheguei perto do local onde deveria estar o lago, não existe nada, além de mato alto e borboletas.

Alguma explicação para isso? - é a vez de Jingfei perguntar.

Na verdade, senhoras, o lago é apenas um receptáculo, que é administrado pelo Guardião do Lago. Um homem sem rosto, mas que mantém todos no fundo do lago, imoveis e apresenta a ocasião certa para cumprir nossa tarefa de reconquistar a nossa honra. - novamente Jiang é quem explica.

O lago não vai voltar mais?

Não, senhora Lin Ehuang.

Devemos esquecer os peixes. - fala preocupada Ehuang, completando a resposta de Jiang.

Não deve se preocupar com isso, senhora Lin Ehuang. Eu providencio as frutas e esses dois podem caçar pequenos animais, assim como a galinha. - responde Sui sorrindo em poder ajudar alguém.

Esperem um momento, vocês três! - Jingfei toca a mão de Sui com a sua e essa atravessa a mão da arqueira. - Como eu imaginava! Vocês não podem tocar em nada físico, como podem caçar ou apanhar frutas?

De novo, não há necessidade de ficarem assustadas …

Não há necessidade? Senhor Jiang, estamos assustadas desde o primeiro momento que nos conhecemos! Não diga mais que não há motivo para ficarmos assustadas, por que há! Acha que vivemos esse tipo de situação todo dia na nossa vida? Acha comum espíritos surgirem de uma lagoa, que no dia seguinte desaparece e nos dizem que estão aqui para nos proteger e seguir?

Desculpe-nos senhora, sei que são pessoas comuns, mas …

Isso mesmo! Somos pessoas comuns! Talvez não, se ouviu nossa história quando estávamos na beira do lago.

Ouvimos, senhora Ling Jingfei, o Guardião do Lago nos fez ouvir para sabermos que nosso dever é ajudar nessa tarefa.

Então sabem sobre a Senhora das Águas e Xiuying? Sobre a guerra que está por vir e o tal louco que vai despertar e tentar destruir o mundo?

Os três se entreolham.

Quem vai despertar? - perguntam os três.

Como é o nome dele mesmo, Ehuang? Jian, Lian … não! Já sei, é Tian!

Nesse momento, os três flutuam um pouco para longe e se transformam nas armas, com um brilho avermelhado ao redor. As duas mulheres se levantam assustadas, não sabem o motivo dessa atitude.

O que aconteceu? - pergunta Jingfei.

Senhora, sua missão é derrotar os irmãos Tian? - pergunta Jiang depois de voltar a sua forma humana.

A senhora tem certeza? O Guardião não falou muita coisa, só que deveríamos ajudar a derrotar um inimigo. - Sui fica pensativa. - Por isso o Guardião nos escolheu, não vê Jiang e Wen? Por causa de nosso passado!

Esperem de novo! Vocês estão nos dizendo que já lutaram contra Tian? - pergunta Ehuang, voltando a sentar-se e olhando firme para os três espíritos. - Vocês estiveram na batalha de cinco mil anos atrás?

Sim. - respondem os três juntos.

No silêncio que se segue, os três espíritos estão com seus pensamentos envoltos na memória da última batalha que participaram, contra o exército invasor, liderado por Tian Long e o irmão cruel, Tian Yaozun. Na lembrança dos três, aquele homem trouxe morte e destruição para metade do continente.

A senhora Ling Jingfei, disse que ele vai despertar? O que aconteceu? - pergunta Jiang sentindo seu corpo quente pela chama da justiça. Aqueles homens foram os responsáveis por sua situação atual.

Gostaria que Xiuying estivesse aqui para contar sobre isso. Ninguém melhor do que ela para saber os detalhes e o povo do continente acha que tudo não passa de lenda ou uma história antiga de invasão.

Lenda? Não entendo.

Senhor Jiang, não conheço os detalhes, mas na memória de Jingfei, tem somente alguns detalhes que ela leu em alguns livros antigos, mas nos livros está escrito que Tian Long era o mais poderoso dos irmãos. Destruía coisas com seus raios, que saiam de suas mãos, que matava soldados a distância com um simples movimento das mãos. - Jingfei faz uma pausa e olha para os três a sua frente e nos olhos deles existe uma luz de dor. - Por causa das descrições exageradas, as pessoas de hoje em dia, acham que tudo é mentira, portanto, consideram como lenda, pois acham que ninguém tem tanto poder.

Ele tem esse poder! - exclama Sui com uma lágrima no canto do olho. - Esse homem destruiu meu reino, matou milhares de pessoas com um único movimento das mãos. Ele tem esse poder!

Calma, Sui, calma. Senhora, disse que Tian está preso?

Não, ele está selado no Arquipélago Paraíso.

Quem o colocou lá? O continente ficou a salvo? Como …

Calma, senhor Wen. Nós não sabemos de tudo, sabe, os detalhes não sabemos, mas sabemos que houve uma grande batalha final e que os exércitos das Reinos Acima de Nós, vieram ajudar e com o sacrifício das Ninfas Guardiãs, os irmãos Tian e seus exércitos, foram selados no arquipélago. - diz Ehuang.

Eu vi as ninfas em batalha, eram corajosas e ajudaram muitas pessoas a ficarem a salvo da maldade daqueles irmãos. - comenta Jiang.

Então, significa que o continente não está sob o domínio dos Tian? Que todos os vivos prosseguiram suas vidas? - pergunta Wen com uma alegria que não entende. - Sei que é tolice de minha parte, mas gostaria de ver os descendentes da minha família.

Um novo silêncio e os três pensam nas pessoas que deixaram para trás.

Parece que essa nossa conversa foi bem longa, está quase na hora da refeição do meio do dia e não temos nada pronto ainda. - comenta Jingfei, acariciando a barriga que já deu um sinal para dizer que quer comida.

Vocês não responderam aquela pergunta sobre vocês poderem caçar e colher frutas, mesmo sendo espíritos. - lembra Ehuang.

Na forma de espada, podemos caçar, afinal as espadas são reais e Sui, colhe as frutas com a ponta do arco. - explica Jiang.

A conversa realmente demorou, então Ehuang sai para preparar os pães e assar a galinha, na companhia de Sui, enquanto isso, Wen e Jiang vão caçar na companhia de Jingfei.

Por mais cinco dias, a rotina é essa, mas o momento de mudanças está para acontecer.

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