Isabela, a outra menina triste, vive de novo

Três anos pode não ser uma vida inteira, mas é um tempo considerável. Por três anos Isabela Rodrigues Paiva, esteve internada em um hospital psiquiátrico, lutando contra seus monstros interiores.

No dia da execução do Zóio e de quem estava no bar, Isa correu para casa, enfrentou o pai, mas não conseguiu enfrentar o horror das lembranças e a cada dia, essas lembranças se transformam em pesadelos de horror. O ápice dessa situação, foi no banheiro da sua casa, quando a banheira estava cheia de sangue e os amigos a chamavam. Ela não queria ver e corre, mas a porta do banheiro não abre, Isa sente as mãos ensaguentadas dos amigos em suas costas e grita, grita o mais alto que pode. O medo se transforma em pavor, que congela seu corpo, sua mente e ela cai convulsionando.

Por dois meses esteve em coma e quando acorda está no hospital psiquiátrico e fica ali até receber alta, três anos depois.

Sua volta para casa é solitária. Um táxi a espera no portão e a leva até a casa de sua infância e juventude. Nada mudou, mas ela mudou e muito.

Nunca tinha prestado atenção ao jardim, no colorido das flores, na elegância da casa, que foi um projeto da mãe, nunca percebeu o quanto aquela casa é bonita, nunca percebeu o quanto perdeu.

A recepção da família não podia ser outra, apenas olhares frios, sem abraços ou sorrisos. Isa quer se desculpar, sente que isso ajudaria, sente que essa é a coisa certa a fazer, mas Cecilia não dá a ela essa oportunidade e mancando sai da sala.

Você está de volta, porque esta casa, a metade dela, pertence a você e depois o médico disse que o convívio familiar pode ajudar na sua recuperação total, mas uma coisa eu digo, você não é bem-vinda. Vamos nos esforçar em ter você aqui, não vamos atacar ou qualquer coisa do gênero, mas não espere carinho ou amor, isso você tirou de nós quando atacou minha esposa. - esclarece Augusto.

Eu sinto muito. - murmura Isa.

Sente muito? - grita Mariana. - Você …

Chega! Não vamos fazer do nosso dia a dia uma batalha inútil. Apenas fique aqui até conseguir um lugar, vou comprar sua parte da casa e aí você se muda.

Pai …

Você acredita que pode ficar? Depois do que fez? - Augusto espalha os cabelos com a mão, tenta se acalmar. - Seu ataque a Cecilia causou o fim da carreira dela como professora. O traumatismo craniano deixou sequelas, algumas puderam ser corrigidas, para que ela volte a uma certa normalidade, mas a outra sequela a impediu de voltar as salas de aulas, coisa que ela mais ama, tudo isso porque ela tem lapsos de memória, segundo os médicos, é algo comum com traumatismos cranianos. - Augusto arruma os cabelos em desalinho com as mãos, em uma tentativa de se acalmar mais. Olha para a mulher a sua frente e se lembra daquela pequenina e preciosa menina que corria em sua direção, quando voltava de viagem e sempre trazia o presente do papai. Augusto balança a cabeça lentamente, aquela menina não existe mais. - Sei que está pensando no motivo de eu não cumprir o pedido do médico, mas você tem que entender, a sua estadia aqui pode ser bom para você, afinal é sua casa, entretanto, não será bom para nenhum de nós, quero dizer, todo dia Cecilia vai olhar para você e se lembrar da agressão e Mariana vai se lembrar que na investigação social da universidade, foi descoberto suas atitudes e vícios, com isso ela perdeu a bolsa de estudos. Você quer a normalidade na sua vida e nós também, mas sua presença não vai ajudar nesse processo. Entenda isso.

Está bem, pai. Eu entendi que não sou bem-vinda. Está tudo bem. - interrompe Isa, quando o pai tenta falar algo. - Eu entendi, eu entendi. Faça o seguinte, pai, fale com o advogado e peça um documento de doação. - Augusto se assusta e tenta de novo falar algo, mas Isa não deixa. - Tudo bem, pai. Vamos ser sinceros, essa casa foi construída para uma família que não existe mais e nada mais justo que eu abra mão disso, já que quero começar uma vida longe do passado, essa é a verdade. Apenas espere até que eu encontre um emprego e um lugar para morar. Tudo bem?

Isa, eu sinto muito.

__ Eu também, pai.

Não foi a recepção que Isa esperava, mas foi a mais sincera.

Durante três meses, a vida na casa foi um desconforto atrás do outro. No jantar, se Isa chega primeiro a mesa, o pai e a madrasta jantam após ela terminar. Se ela chega depois, eles se levantam e comem mais tarde. O pai algumas vezes fica, mas é como estar sozinha. Com tudo isso, ela passa a comer na cozinha e isso até ajudou, pois dona Vita prometeu a ela encontrar um emprego. A mulher está com o coração partido ao ver a situação em que se encontra aquela família. Tem certeza que se Joana estivesse viva, a família seria a mesma de antes, feliz e em harmonia.

Isa passa os dias entregando currículos, em entrevistas em agência de emprego, mas para uma jovem que não tem formação, a situação está complicada.

Em mais um dia de procura por um emprego, Isa se vê parada em frente do antigo externato. O prédio ainda mantém sua pomposidade, mas está envelhecendo, algo que se nota pelo descolorido das paredes e a óbvia falta de manutenção. Talvez entrar não seja uma boa idéia, mas os irmãos eram seus amigos, gostava do som do riso de Vini e da doce voz de Laura.

Eles não precisavam ter morrido. - pensa Isa, sentindo de novo o peso daquela culpa, que a faz ter pesadelos.

Quando faz uma solicitação, para falar com o diretor e para isso fala seu nome, cinco minutos depois, um Joaquim furioso se encaminha até o portão e empurra Isa, que cai na calçada, na frente de várias pessoas que param para ver a cena.

Fique longe daqui, ouviu? Nada que você diga ou faça, vai mudar alguma coisa! Nunca mais se atreva a colocar seus pés aqui!

Joaquim tranca o portão, fala alguma coisa com o porteiro e caminha a passos firmes por entre os alunos que estão curiosos com a cena.

Não foi uma boa idéia mesmo, afinal de contas. - pensa Isa enquanto limpa as folhas da roupa.

Joaquim era o melhor amigo da mãe de Isa, seu choro no funeral com o caixão vazio, deixou qualquer ali presente com uma dor no peito, tal era a emoção e desespero transmitidas através de seus gritos e lágrimas. Tudo mudou quando os filhos embarcaram no mesmo barco que ela. O tio Joaquim não sorria mais para ela, somente as advertências e suspensões.

Duas quadras dali, fica a praça onde os amigos se encontravam no passado. Isa estranhou a praça que agora tem menos árvores e arbustos do que antigamente. Era um lugar fácil para esconder o que era feito ali. Naqueles bancos no fundo da praça, os quatro começaram a se drogar, começaram a beber, planejaram o ataque a Cecilia e ao Joaquim, naquela praça, por trás das árvores, Isa perdeu sua virgindade para o Zóio, por mais drogas. A praça parece limpa e bonita, mas aos olhos de Isa, ainda parece estar escura e suja, como antes.

Voltou para casa a pé em mais um dia de portas na cara, negativas e falsas promessas para um futuro próximo, que ela sabe que não virá. A casa está silenciosa.

Isabela, quero falar com você algo muito sério.

O que foi, pai. Aconteceu alguma coisa?

Claro que sim! Tudo que envolve você, sobra para a família!

Mariana, por favor! Ela não tem culpa, desta vez.

Inútil fazer perguntas, Isa tem que ouvir para saber do que se trata.

Na sala de visitas, a família está reunida.

Você sabe que a muitos anos, a empresa não está bem. Admito que sua mãe era o cérebro por trás dos grandes acordos e eu apenas fazia o trabalho de planejar. Ultimamente as coisas estão piores, mas aquele chinês surgiu com uma proposta incrível para uma reforma em um porto na Inglaterra e como a empresa dele é a que está financiando tudo, ele pode escolher a construtora. Isso pode nos colocar no topo novamente e ainda quitar uma boa parte da dívida que temos com ele …

Temos?

Você não sabe? Claro que não! Ficava com a cabeça enfiada nas drogas e bebidas o dia inteiro, como poderia saber da situação da sua família!

Mariana, pare agora! Eu estou falando e eu sou o pai que vai decidir qualquer coisa.

Decidir o quê, pai?

Nesses anos todos, Yan têm me ajudado a pagar as multas de rescisão de contratos, multas públicas e tudo mais que o caixa da empresa não tem mais como cobrir. Com isso devemos uma fortuna enorme a ele, que nunca cobrou, mas agora ele precisa fazer isso e de uma maneira diferente.

Augusto senta em uma poltrona que fica de frente para as três mulheres que olham fixamente para ele.

A família de Yan, é uma família tradicional na China e com muitas cobranças com relação as atitudes de seus membros e com isso ele não pode casar seus filhos do segundo casamento com pessoas, como vou dizer …

Com um status melhor. - completa Mariana.

É algo assim. A esposa atual, foi uma concubina, uma amante e a família não a vê com bons olhos e na sequência, não vê os filhos com bons olhos também.

E o quê isso tem a ver conosco?

Deixa ele terminar!

Mariana, para de gritar. Minha cabeça dói. - fala Cecilia com uma expressão de dor.

Bem, Yan fez uma proposta, se eu aceitar, poderemos certamente sair dessa situação de aperto. Yan quer que vocês duas se casem com os dois filhos dele e antes que falem alguma coisa, digo a vocês que a empresa ainda tem um bom conceito fora do Brasil e com isso, uma relação com nossa família rende bons pontos para qualquer pessoa.

Espera, pai. Está dizendo que devemos casar com os filhos do tio Yan, para que a família dele considere os filhos e nós ficaremos com um contrato que pode salvar a construtora, é isso?

Isso é ótimo! Eu não quero me casar! Já tenho namorado! - Mariana continua gritando.

Pai, o senhor já pensou nas consequências?

Quem é você para falar de consequências? Você certamente não sabe o que é isso! - desta vez é Cecilia quem grita. - Pensou nelas quando invadiu a escola para me agredir?

Na época, eu não sabia nada, mas agora acho que sei um pouco para discordar disso.

Sua ingrata!

Eu sou ingrata, pai? Quem devolveu o amor que dei a você, trazendo uma estranha para colocar no lugar da minha mãe e não teve a capacidade de falar com a própria filha sobre isso! Não diga que era um assunto que não me interessava, porque era! Nossa família se desfez não com a morte da minha mãe, mas no momento que você trouxe essa mulher para dentro da casa que minha mãe construiu para a família que ela queria formar! Ingrata, eu? Todo mundo sabe que foi sua incompetência que levou a construtora ao nível que está agora …

Chega, Isabela! - grita Augusto, com o rosto vermelho de raiva ou de vergonha. - Eu assumi essa parte de não saber como negociar e todas as outras coisas. Nunca disse ser bom com isso! Estou fazendo o melhor que posso e peço a vocês que ajudem ou o próximo passo, não será só vender a casa, será perdê-la para Yan, já que coloquei a casa como garantia nesse contrato.

__ O quê? - gritam as três mulheres.

Enquanto Mariana discute com o padrasto, Isa vai até a janela e observa o jardim que um dia a avó imaginou e a filha, Joana, transformou em realidade. As árvores frondosas, as flores coloridas, a cerca viva, um pequeno lago com peixes e vários bancos de madeira, espalhados por todo o jardim. Isa pensa que não há o que pensar, tudo podia ser diferente se tivesse acompanhado a mãe naquela viagem, talvez o pai teria se saído melhor se não tivesse que se preocupar com ela, abafar as brigas, pagar os advogados e arquivar os processos contra ela, se não tivesse perdido o rumo de sua própria vida. São muitos “se”, entretanto, o doutor Gabriel fala sempre que a vida não é um “se”, é sim aceitar as escolhas que fizemos e trabalhar o melhor possível com elas, que a culpa é a maior inimiga que inunda nossa consciência e não nos ajuda a encontrar uma saída. Doutor Gabriel é o médico de Isa e nos três anos que ela ficou internada, trabalhou muito com esse sentimento de culpa de Isa, em como ela se sente culpada por estar viva e sua mãe não. Ela quis destruir sua vida, mas levou junto pessoas queridas que não precisavam morrer. Isa tem no coração que nunca fez nada pela mãe ou pela família, que sempre culpou todo mundo, menos olhar para o pai e a avó, ver que eles também sofriam, que eles também queriam estar no lugar de Joana. O doutor Gabriel disse a Isa, que os familiares falharam ao não perceber que uma menina de pouco mais de oito anos estava sofrendo também, que eles têm uma parcela de culpa, mas para Isa a maior culpada é ela, que não procurou alguém, talvez tio Joaquim, que gostava tanto de Joana, mas agora não é mais época para o “talvez”, tudo já foi feito, as escolhas foram aceitas como a única saída e o que resta agora é fazer o melhor para com sua única família, seu pai.

A resposta positiva de Isa, fez com que Augusto soltasse um suspiro de alívio, afinal Mariana também concordou com a proposta. Para Mariana é uma escolha fácil, afinal, aquela família é muito rica e viver no luxo é o que quer no momento. Para Isa, que a única coisa que sabe sobre os filhos do tio Yan, é que são arrogantes, ambiciosos e cruéis, o futuro parece como quando bebia muito, turvo e distorcido.

Augusto está muito feliz, no dia do casamento da filha e da enteada, que resolveram casar no mesmo dia, hora e local, recebe a notícia que seu projeto foi aceito e que o governo inglês autorizou o começo das obras. Isso é tudo que queria, mas olhar o rosto preocupado da filha e enteada, tira um pouco do brilho da grande notícia. Ele não teve muitas opções, escolheu a mais fácil, é verdade, mas não havia muito o que fazer. Talvez com a experiência de vida das duas, elas consigam contornar qualquer situação. Um pensamento positivo leve, que logo se dissipa ao olhar os futuros genros. Aqueles dois são a personificação da crueldade, não confia nos dois, mas agora não tem mais volta.

Um ano de casamento e ele ainda não foi consumado. O segundo filho do tio Yan explica que, sendo um casamento de mentira, a consumação é desnecessária. Essas palavras são ditas na noite de nupcias, quando aquele homem saiu para beber e a deixou sozinha no quarto. Quando ele a olha, o desprezo é muito visível, que faz Isa se sentir mal. Por outro lado, a não consumação do casamento é bom, pois não precisará forçar a si mesma em algo que não quer, como aconteceu com Zóio da primeira vez.

Enquanto isso, Mariana sente o peso de ter um marido autoritário e dominador. Suas surras já não são um segredo depois de um ano de casados, mas todos disfarçam, fingem que não é nada. A situação piora ano após ano e finalmente depois de quatro anos, Mariana da Silva Paiva, que foi adotada por Augusto quando se casou com Cecilia, foi brutalmente espancada, que teve duas paradas cardíacas a caminho do hospital e na terceira, sua vontade de viver desapareceu e ela morreu.

Cecilia acusou Augusto da morte da filha, acusou o marido de não ter feito nada, de ter preferido o sucesso, dinheiro e não a segurança da filha. Cecilia, dois meses depois, arruma suas coisas e vai morar com a irmã viúva, pede o divórcio, não suporta olhar para o marido ou para a enteada.

Augusto não se recupera desse impacto, não do mesmo jeito que se recuperou quando perdeu sua primeira esposa. Agora ele diminui o ritmo de trabalho, chora quando está sozinho, passa horas dormindo, se recusa a procurar a ajuda, mesmo com a filha não quer falar. No fim, apenas se sentou na banheira vazia, com a foto de Joana vestida de noiva a sua frente e cortou os pulsos. Um fim de uma família, que merecia ser feliz.

Em um espaço de quatro meses, essas duas pessoas morreram. Mariana e Isa nunca se consideraram para que houvesse uma intimidade, mas Isa sentiu essa morte, pela maneira que aconteceu. Foi uma brutalidade sem tamanho e sem punição. Foi aceito a explicação de que foi uma queda acidental da escada.

No enterro do pai, Isa está sozinha no velório, ninguém compareceu, muito menos a família do pai, que mandaram vários recados com as desculpas muito parecidas umas com as outras. A conduta do pai está manchada pelo boato que correu na família, que dizia que ele vendeu as filhas em troca de um contrato milionário. Isa ri com essa lembrança. O pai deve ter se arrependido, por que agora não tem nada, os resultados da construtora ficarão com o amigo Yan, que é o sócio, por que ela não tem capacidade para conduzir os negócios.

Pensando nas escolhas que seu pai fez? - tio Yan assusta Isa, aparecendo assim do nada. - Fiz questão de comparecer, afinal, ele foi casado com uma grande amiga de infância, não é mesmo?

Obrigada, por vir.

Não me agradeça, eu o odeio tanto quanto odiava sua mãe.

Isa arregala os olhos, talvez tenha ouvido errado, talvez o cansaço com todos os preparativos para o funeral a tenha esgotado.

O que disse?

O que você ouviu. Eu o odeio tanto quanto odiava sua mãe e todos os outros.

Isa se senta, está com um pressentimento que ouvirá algo que não vai gostar.

Nós nos conhecemos desde a infância. Marisa a pedante, que se achava melhor do que todos, só porque seu pai era um médico conceituado internacionalmente. Joaquim o piadista, que fazia bulling com todo mundo. Perdia o amigo, mas não perdia a piada. Joana a companheira de Joaquim nas piadas, era aquela que mordia e depois assoprava. Falsa!

O senhor está enganado, eles não eram assim!

Só porque você os conheceu depois de adultos, com um comportamento diferente, não significa nada. Eles eram assim, todos eles!

Minha mãe contou sobre o apelido que o senhor não gostava …

Eu odiava aquele apelido.

Por que o senhor não os parou?

Acha que era simples assim? Você sofreu bulling na escola, que eu sei, então sabe como é. Mesmo que você lute, quem faz bulling só vê que atingiu o alvo e que tem o direito de continuar.

Isa sabe como é, sabe sim. Muitas vezes sofreu com alguns apelidos maldosos dos pequenos racistas, mas com o tempo e sua mudança de comportamento, muitos deles deixaram as piadas de lado e mantiveram uma distância segura dela.

No dia do meu casamento com Amanda, Joaquim fez uma piada infame usando meu apelido e o de minha esposa, que foi dado por Marisa, que desprezava minha esposa por ser gorda. Essa gente não sabe o quanto nos sentimos humilhados naquele dia, que deveria ser o mais feliz de nossas vidas. Pior do que a piada idiota, foi ver meus parentes rindo dela. Naquele dia, eu e minha esposa juramos que o faríamos sofrer, todos eles!

Não estou entendendo.

Não importa muito. Só quero ter o prazer de contar que fiz um plano perfeito de vingança e destruí a vida de todos eles. - tio Yan sorri ao olhar a nora com uma expressão de incredulidade. - Não acredita? Acha que estou senil? Pois vou contar como consegui fazer de vocês a arma perfeita para destruir aqueles que viviam rindo da dor que provocavam nos outros. - tio Yan respira fundo e senta-se de frente para Isa. - Eu e minha esposa odiávamos essas pessoas, Joana, Joaquim e Marisa. Todos eles se achavam melhores do que nós, porque tinham uma aparência melhor, porque eram simpáticos e bonitos. Idiotas! A morte de sua mãe não foi planejada, mas foi útil pata desestabilizar seu pai, que era um incapaz nos negócios e com grande facilidade ficou em minhas mãos. Os boatos que corriam sobre sua inaptidão, eu mesmo espalhei e assim os negócios começaram a declinar. Vê-lo se humilhar pedindo dinheiro emprestado era muito bom, mas seria melhor se fosse sua mãe. - tio Yan olha para o caixão e sorri. - Acredita que uma pessoa morta pode estar ao lado dos vivos para protegê-los? Não? Pois em meu país muitos acreditam que os mortos estão em contato com os vivos, não para interferir na vida deles, mas vendo como eles vivem e me baseando nessa crença, acredito que Joana está vendo tudo que acontecia e para abalar ainda mais aquela alma, coloquei a filha dela em um caminho sombrio …

Fez o quê, comigo?

Zóio, aquele seu amante da juventude, eu paguei para ele vender a você as primeiras drogas e mesmo que você não tinha dinheiro, eu pagava para ele e assim você estava sempre abastecida. Como os outros eram os rebeldes sem causa, apenas seguiram você, o que me deixou muito satisfeito. A dor de Marisa estava quase completa. Sem marido, que depois foi acusado de desviar dinheiro da clinica e o filho que a cada dia que passava se afundava mais nas drogas. Estava perfeito, mas não o suficiente. Ela se gabava tanto do seu QI, que foi enganada facilmente. Como, você me pergunta? Simples, o marido foi seduzido por uma mulher que contratei e que trabalhava na clinica e que alterou o livro caixa e culpou aquele tolo. Quando Marisa voltou para Salvador, o marido, que foi abandonado pela amante e trabalhava em uma clinica fuleira que vendia atestados, foi preso. Eu me ofereci para refazer o balanço da clinica, afinal sou um bom amigo. - o sorriso de deboche é irritante. - Informei Marisa que o livro foi adulterado, que o marido jamais tirou dinheiro da clinica, mas já era tarde, o marido tinha um coração fraco e mais aquela humilhação foi demais e ele morreu. Três meses depois do filho ser assassinado. Que hilário, não é?

Uma pergunta que não tem resposta, Isa olha para o sogro e está tentando assimilar tudo o que ele diz, mas não está conseguindo.

Tio Joaquim …

Vai perder o externato. O boato de que os professores são assediadores não foi abafado, eu não deixei e mais e mais alunos não se rematricularam ou se matricularam. No final desse ano, vou arrebatar todo o terreno e vou construir um shopping no lugar. Será mais lucrativo.

Tio Yan, o senhor não destruiu pessoas, por uma coisa dessas, não é?

Minha vingança foi através dos filhos, sei que a dor é maior.

O senhor destruiu minha vida.

Quem é você?

Casei com seu filho …

A finalidade do casamento foi bem explicada, não se faça de tola e depois não considero aqueles três como meus filhos verdadeiros. O que foi? Está horrorizada? Vou explicar mais algumas coisas. Minha querida Amanda sabia do câncer e sabia que não se podia fazer nada, logo ela me fez escolher uma mulher, qualquer uma, apenas para ter filhos, para que eu os usasse como peças no restante do plano.

Por isso seu filho mais velho vai herdar tudo e os outros serão apenas suporte para ele.

Você, no final, não é tão estúpida.

Tio Yan, aquela mulher claramente ama o senhor.

É uma tola, se isso for verdade. Ela me foi enviada para ser servil e nada mais.

Seus filhos …

São para meu uso! - tio Yan se levanta e se aproxima de Isa, que se encolhe na cadeira. - Não me diga que nutre sentimentos por meu filho? Eles me obedecem. Seu marido foi instruído a desprezar você o tempo todo e assim empurrar você de volta as drogas e a bebida. - tio Yan se afasta com o sorriso da vitória no rosto. - Meus peões são obedientes, as vezes se rebelam, mas mostro a eles que não vale a pena. Sabe o que aconteceu com sua irmã? Meu filho nunca quis bater nela, sentia certa simpatia por sua irmã, então eu batia nela e a empurrei da escada. Mostrei a ele quem manda e quem sempre vai mandar.

O senhor só ficou vendo tudo desmoronar. Por que está contando tudo isso?

Porque é a sua vez de morrer.

Vai me matar?

Sujar minhas mãos? Jamais! Eu trouxe algo que vai fazer isso por mim.

Tio Yan tira do bolso do paletó, um embrulho que Isa conhece bem.

Este é o caminho para você, basta tomar tudo ou melhor, cheirar tudo, que as coisas vão ficar coloridas, nada de preocupações.

A emboscada com Zóio, o senhor também planejou?

Aquele patife pensava que podia me chantagear.

Matou Duda, Vini e Laura! O senhor sabe o que fez?

Vocês não deviam estar lá, mas até que foi algo bom, dei o golpe final em Joaquim, que agora não tem mais piadas a contar.

Tio Yan, eramos uma grande família! Todo final de ano nos encontrávamos na sua casa para festejar …

Tudo aquilo era uma farsa! - grita tio Yan, perdendo a postura elegante. - Nunca foram meus amigos ou amigos de Amanda, mesmo na nossa casa, eles faziam piadas, riam de nós!

Tio Yan, o senhor perdeu mais de vinte anos para uma vingança, destruiu a vida de pessoas inocentes e para quê? O que vai fazer agora?

Viver satisfeito para o resto da vida, pois provei a todos eles que eu e Amanda somo os melhores.

Isa se levanta, está tonta, sua cabeça gira, precisa de ar fresco.

__ Vou deixar seu presente aqui. Faça bom proveito.

Tio Yan sai satisfeito, quando Joaquim vier pedir emprego ou ajuda para sobreviver, aí sim será o melhor dia, só não será o melhor de todos, porque o dia que se casou com Amanda, esse sim, foi o melhor de todos os dias da sua vida.

Isa torna a sentar-se, sua cabeça está girando, não consegue ficar com os olhos abertos. Nos últimos quatro anos, desde que saiu da clínica, todos os dias Isa toma sua medicação, ela não esquece, entretanto, quando soube da morte do pai, sua mente parece estar em câmera lenta, mesmo antes, quando tio Yan falava com ela, era difícil se concentrar, mas de uma coisa ela sabe, que todas as tragédias que aconteceram na sua vida e na vida dos amigos, foi e é, culpa do tio Yan.

Na sala do velório, Isa está sozinha agora, as flores que em outras salas, enchem o ambiente, na que está o caixão de seu pai, tem só um arranjo de flores, aquelas coroas e com uma faixa com dizeres de condolências. Isa olha para o arranjo e em um canto da faixa está quem enviou e é uma homenagem da família do tio Yan. Talvez a raiva contida aflorou rápido demais, mas ela avança para o arranjo e começa a arrancar as flores, rasga a faixa, quebra as madeiras de suporte e quando está tudo destruído, ela desaba no chão e chora. Ela poderia, naquele momento, sair dali e matar toda aquela família, tirar daquele rosto enrugado do tio Yan, o sorriso de deboche, de vencedor debochado, mas não adiantaria de nada, ela sabe disso. Seria mais um crime e ainda o velhote seria o vencedor, a vítima.

Quanto tempo Isa ficou ali, ela não sabe, mas já é manhã e o rapaz que trabalha no cemitério, com muita calma, diz a ela que é hora do sepultamento.

Isa caminha ao lado do carrinho onde o caixão está, nas mãos um buquê de flores e no bolso do casaco, a caixinha dourada com um laço branco. O funcionário encontrou a caixinha e entregou a Isa, que não disse nada, apenas segurou a caixinha nas mãos. Agora essa caixinha, parece pesar muito.

O sepultamento termina. Não houve discursos inflamados dos amigos e familiares, como foi quando Joana morreu, Isa está em silêncio, chora em silêncio.

Os portões do cemitério parecem, para Isa, uma passagem para uma nova etapa. Está sem pai, sem mãe, sem avó, sem amigos, sem ninguém e voltar para aquela casa significa correr um risco de ser induzida a voltar ao vício ou pior do que isso, alguém fazer isso a ela contra a sua vontade.

Falar que vai voltar para casa é uma piada, aquele lugar não é sua casa, sua casa será vendida para quitar dívidas, assim como a construtora que a mãe fundou, isso e todas as outras coisas que Joana e Augusto juntaram na vida, nada vai sobrar.

Passando pelo portão, Isa vê uma lata de lixo e joga a caixinha dourada lá dentro. O velho tio Yan não é o vitorioso, ela ainda não desistiu de sua vida. Vai voltar na casa dos pais, pegar todas as fotos, que são a prova de que uma família foi feliz e com essa decisão, caminha pela calçada, passa por uma praça com crianças brincando e quando olha, se lembra de quando os pais brincavam com ela no jardim da casa que Joana tanto amava. Nesse momento, Isa sente um calafrio, seu corpo parece estar quente e de repente um raio a atinge. Pessoas gritam, correm em direção a ela que abre um pouco os olhos, mas não vê nada, só uma luz branca que a envolve.

As águas da lagoa continuam serenas, parece um espelho refletindo as árvores ao redor, as rochas avermelhadas, a borboleta em seu voo tranquilo ou o pássaro em seu mergulho rasante, sem tocar na superfície do lago. Jingfei e Ehuang continuam sentadas no tronco caído, um triste silêncio envolve as duas.

Sua história é pior do que a minha, Jingfei.

Acho que nossas histórias são péssimas, para nós duas.

Foram nossas escolhas que nos levaram ao fundo do poço, Jingfei. Eu poderia ter jogado aquela garrafa no lixo, mas não fiz isso.

E eu poderia ter recusado as drogas na primeira vez, mas também não fiz isso.

Um novo silêncio triste, a lembrança da dor ainda está bem viva na mente das duas.

Ehuang, você notou que não vimos os rostos de ninguém? Ou isso só aconteceu comigo?

Isso é estranho, mas comigo também aconteceu isso. Me lembro de tudo, mas não consigo lembrar os rostos das pessoas, só lembro do rosto da minha mãe e dos meus irmãos.

Isso aconteceu comigo também. Por que será?

Se as duas Xiuying estivessem aqui, elas teriam uma resposta. - responde Ehuang com um sorriso triste.

__ Certamente. - responde Jingfei com o mesmo sorriso. - Melhor voltarmos, está escurecendo, nenhum peixe foi pescado e estou com fome.

As duas se levantam e se encaminham em direção a mansão, conversam sobre a história que uma contou a outra, no fundo do coração, elas pensam que se tivessem uma outra chance, poderiam fazer diferente. Não são só elas que pensam assim, talvez toda a criatura no universo que sabe que fez a coisa errada, gostaria de uma chance para mudar e fazer o que era certo fazer.

O caminho no pequeno bosque não é longo, as duas demoram cerca de vinte minutos para chegar na mansão e depois que circundam um grupo de árvores, elas não têm mais visão do lago, que agora reflete a lua.

As águas do lago se movimentam. No começo, é como se alguém soprasse a superfície, depois um redemoinho surge no meio do lago e três objetos saem da água e circulam a lagoa. No centro do redemoinho, sai algo, que muito rápido voa para o alto, em seguida outra coisa faz os mesmos movimentos. O primeiro que saiu faz uma parada no ar e volta para o centro do redemoinho, a segunda aparição faz a mesma coisa.

Os objetos que saíram da lagoa, voam em direção a mansão, os três têm uma missão e é necessário se apresentarem as duas mulheres, que juraram defender.

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