Ângela, a menina triste

O ano é mil novecentos e oitenta e seis. Um apartamento é o lugar de uma festa. Os adolescentes ingleses são os mesmos que outros em qualquer parte do mundo, naquela época. Qualquer convite para uma festa é bem-vindo e quando se tem bebidas, a coisa fica melhor ainda.

Marla Fleming é uma menina tímida, mas gosta de acompanhar as amigas nestas aventuras, pois assim, terá alguma coisa para se lembrar, já que tudo que faz é muito bem controlado pelo pai, Jonathan Fleming. O homem quer uma filha perfeita, para um casamento perfeito, com o homem perfeito e assim terá perfeitas relações com a sociedade. O pai de Marla é um homem de negócios, com uma perfeita visão do futuro que quer para sua única filha e se ele souber que a garota está em uma festa com jovens beijando aqui e ali, sem ao menos conhecer a pessoa, que bebem sem medo do amanhã e fumando, é certo que trancará a filha a sete chaves e quando soltar a garota será para acompanhá-la até o altar.

O pai de Marla, Jonathan Fleming, tem uma cadeia de lojas espalhadas pelo Reino Unido e é considerado um dos mais ricos. Um homem duro, hábil comerciante, detém acordos internacionais de importação com vários países, tendo uma relação bem estreita com uma empresa chinesa de importação e exportação, com produtos de qualidade menor, mas que garante um bom lucro.

Jonathan Fleming decidiu o futuro da filha no dia em que ela nasceu e decidiu quando a esposa não lhe era mais útil, mas quando chegou a hora do aviso do divórcio, a esposa resolveu se suicidar. Para Jonathan foi uma despesa a menos, para Marla foi uma perda muito grande, que lhe causa dor desde a infância.

Uma vida solitária, trancada em um externato desde os cinco anos e só volta para casa quando o pai autoriza e isso é raro. Muitos natais foram passados na companhia das freiras do externato, muitos aniversários não foram comemorados, muitos não, nunca comemorou um aniversário em sua vida, até agora. Marla é uma prisioneira de um pai que quer o reconhecimento da sociedade, mas não se incomoda com o reconhecimento de sua filha.

O irmão mais novo de Jonathan, Connor, é o único que o lembra de ter uma filha, mas ele não consegue mudar os pensamentos do irmão. Connor é o responsável por enviar presentes nos aniversários e no natal, com isso espera que a menina pense que não foi esquecida. Se ele pudesse fazer mais do que isso, ele faria.

Connor é um solteiro por opção, e a única mulher que amou, casou com seu irmão mais velho e decidiu tirar a própria vida por pura tristeza, resultado do desprezo do marido. O que restou é tentar cuidar, de longe, da filha daquela que sempre amou.

Jonathan Fleming espera ansioso sua indicação a Lord, esse é seu objetivo no momento. Isso dará a ele mais oportunidades e fortuna. Um legado que deixará para um homem digno, talvez o irmão mais novo ou o marido da filha, mas, na verdade, isso é algo que não pensa com frequência, seu pensamento está na sua indicação e está fazendo tudo que pode por ela.

Essa é a família Fleming, conhecida na sociedade aristocrática do Reino Unido, mas que na verdade é uma grande farsa.

Marla e sua amiga Brenda, estão na festa, a garota de dezessete anos, fica sempre em lugares que ninguém possa vê-la, mas que ela pode ver a todos, entretanto, dessa vez um par de olhos cor de mel a observa. Mark Travis é um belo e charmoso rapaz de vinte e cinco anos, que tem como incumbência cuidar de John, filho de um abastado comerciante, que por coincidência, estuda no mesmo externato e internato que Marla.

Mark se aproxima para iniciar uma conversa, mas tímidos não cedem com facilidade, mas Mark não está acostumado a ser rejeitado e com habilidade consegue um sorriso e a conversa se desenrola de maneira agradável para Marla, que pouca experiência com homens tem.

Depois desse encontro, muitos outros surgem e como à vontade de estarem juntos é grande, os encontros agora são no apartamento que Mark divide com John, na verdade o apartamento é alugado pelo pai de John, mas para todos, Mark diz que é dele.

Dos encontros amigáveis aos encontros apaixonados, foi um pulo e logo Marla já perde sua virgindade, mas isso não causou impacto negativo na garota, ao contrário, fez seu amor pelo belo rapaz de olhos cor de mel, ficar maior ainda.

O tempo passa rápido quando se está feliz, deixamos até de perceber certas coisas importantes e quando Marla percebe que sua menstruação está atrasada, não se alarma, sabe que está com o homem digno que a ama muito.

É tempo de voltar para casa, a formatura foi divertida, sem a presença do pai, que disse não poder comparecer, mas a presença de Mark é tudo que Marla quer.

Apesar de confiar em Mark, o rapaz não falou uma única vez em casamento e Marla não quer falar, para não parecer que o está forçando e assim o tempo passa, mas desta vez, ele está mais lento.

Disfarçar a gravidez na escola foi relativamente fácil, o uniforme é folgado e o avental usado por cima, ajudou bastante, mas quando o tio veio buscá-la para o retorno ao lar, o ventre saliente foi a primeira coisa que viu, mas não falou nada, quer guardar as palavras para defender a sobrinha, quando esta se confrontar com o pai.

Marla e Mark combinaram de que seria melhor que ela conversasse com o pai e conseguisse o consentimento deste para o casamento. A garota fica feliz, é a primeira vez que Mark fala sobre casamento e quer fazer tudo como manda a etiqueta. Para Marla, o amado tem mais um crédito, por sua postura.

O pai de Marla não é um homem caridoso, gentil, carinhoso, tolerante ou qualquer outra coisa que o defina como uma pessoa normal e trata a filha com o mesmo desprezo que tratou a esposa. Quando Marla entra na sala de jantar e cumprimenta o pai, este levanta da cadeira em uma velocidade que pegou de surpresa o irmão, que pretendia defender a sobrinha e esbofeteia Marla com violência.

Sua vagabunda! Não paguei anos de internato para você voltar grávida!

Calma, irmão! Vamos ouvir primeiro!

O que há para ouvir? Essa aleijada deve ter encontrado outro aleijado e fornicaram muito e agora querem que eu cuido deles! É isso que ela vai falar!

Irmão, pelo amor de Deus! Olha como fala de sua filha!

Isso … – Jonatthan aponta para a filha com desprezo. - é o que aquela mulher inútil deixou para trás. Sequer me deu um filho e depois que isso nasceu, não podia ter mais filhos. As duas são uma inutilidade na minha vida!

Marla, o rapaz quer casar com você? - pergunta Connor, percebendo que com o irmão não consegue conversar.

Mark quer falar com pai para acertar o casamento e …

Não venha! Não quero outro inútil para sustentar!

Jonatthan, ela é sua filha, é seu dever cuidar dela e o rapaz está disposto a casar com ela. Isso é bom, não é?

A partir de hoje, todos nessa casa e incluindo você, irmão, vão dizer que minha filha fugiu com o namorado.

Jonatthan, o que está dizendo?

Srª Smith, arrume as coisas dessa garota. Coloque só algumas coisas, nada de muito caro e não deixe ela levar nenhuma joia.

Jonatthan, homem do céu, o que está fazendo?

Me livrando de peso morto.

Assim, Jonatthan Fleming, se livrou da filha, que quando fica nervosa, manca mais ainda da perna mais curta do que a outra, que tem. Ela não vai chorar, sente que isso é algo bom de acontecer, viver na casa do pai nunca foi um sonho, ao contrário, sempre quis viver o mais longe possível.

No meio da tarde, Connor leva a sobrinha de volta a cidade, onde a menina viveu desde os cinco anos de idade e desta vez, ela não vai voltar mais.

No apartamento de Mark, Marla está um pouco ansiosa, tinha visto duas garotas descendo as escadas fazendo comentários estranhos e ouviu quando citaram o nome de seu amado. O apartamento está como sempre, quando entrou, a atmosfera está tranquila e John ainda está lá. Contar sobre o que aconteceu com o pai não foi difícil, mas difícil está sendo ver a atitude de Mark com relação a tudo. O rapaz, sempre tão atencioso e carinhoso, começa a destilar uma raiva que assusta Marla e enquanto isso, John ri muito.

Por tudo que Mark faça, Marla entende que tudo não passou de um golpe. Mark sabia quem ela era e jogou seu charme para conquistá-la e assim passar a fazer parte de uma família nobre, talvez pensasse em receber o título de Lord quando o pai morresse. A cada ofensa em sua direção, Marla se encolhia no sofá e com os olhos arregalados, não consegue reconhecer que aquele a sua frente é o homem por quem se apaixonou.

Os dois se organizam, Mark e John, querem voltar para a capital, Londres, já que John vai para a faculdade e Mark ainda será seu motorista, guarda costa e babá. Marla entendeu que Mark é um filho bastardo do pai de John e como não pode reconhecê-lo, fez o garoto trabalhar para a família, mas Mark quer mais do que isso e achou que casando com alguém com ligações poderosas, conseguiria sair da situação de filho ilegítimo, para marido de alguém. Ao que parece, o plano não funcionou.

Não se preocupe, irmão, conheci uma garota na faculdade que é perfeita para seus planos e acredito que desta vez dará certo. - comenta John.

Mark, eu vou com você?

Os dois rapazes riem muito e alto.

Está louca! Vou fazer o quê, com uma garota como você?

E o bebê?

Isto é problema seu, não meu!

Para ajudar você, fique neste apartamento. O aluguel está pago por mais seis meses, depois você faz o que quiser. - sugere John.

Os dois rapazes não se incomodaram com a presença de Marla e arrumaram suas malas, encaixotaram as outras coisas, deixaram restos de comida geladeira e quando a noite chegou, um caminhão buzinou no estacionamento e os dois foram embora. Marla fica ali, sentada no sofá, na mesma posição de quando chegou, sua mente está vazia, não consegue pensar em nada. Ela apenas se encosta no sofá e começa a chorar. Da mesma maneira que chorava quando criança. Chora por si, com pena de si, por não ter conseguido acompanhar a mãe no suicídio. Marla chora até adormecer.

A dona dos apartamentos é uma mulher estranha, mas faz muita coisa boa para as pessoas e quando aqueles dois rapazes contaram que uma garota ficaria no apartamento até o final do contrato, foi lá ver quem é e não fica surpresa ao ver uma grávida e menos surpresa ao saber quem é o pai e sobre o plano, que Marla conta aos prantos. A senhora Grover se solidariza com Marla e a única ajuda que pode dar, é um emprego na portaria de seu clube noturno. O salário não vai ser muito, mas ela poderá comer.

O bebê nasceu quatro meses depois e falta dois meses para terminar o contrato de aluguel. A senhora Grover é uma boa pessoa, mas esse tipo de caridade, ela não gosta de fazer. Os aluguéis dos apartamentos é o seu sustento maior, não pode abrir mão de nenhum deles. Marla não sabia o que fazer, até que uma colega do trabalho indicou um lugar com aluguel barato, mas quando Marla vai ver, quase desiste de morar ali, entretanto, sabe que não tem alternativa e depois, a senhora Grover se prontificou a cuidar da pequena Ângela enquanto está no trabalho, sem muita opção, Marla se muda para uma casa de um quarto e banheiro.

Ângela cresce saudável e bonita. Seus cabelos ruivos lembram muito os cabelos da mãe de Marla e isso a entristece ainda mais. Dois anos se passam e Marla nunca ouviu uma palavra do pai ou de Mark, até o tio, que disse que a ajudaria de vez em quando, não deu mais notícias. Marla está sozinha e mais triste a cada dia.

O clube da senhora Glover sofre um incêndio acidental e todos ficam sem emprego. Perambulando pela cidade, Marla conhece um homem e o leva para casa. O homem conversava com ela no clube, parecia interessado em algo mais, mas logo Marla percebe o que é. O homem queria formar um grupo de mulheres, dispostas a venderem o corpo e dividir com ele o pagamento. Marla não tem dinheiro, o aluguel atrasado e a filha com fome. Viver com aquele homem é a pior de suas decisões, mas Marla parece não se incomodar mais com nada e assim ela se transforma em uma garota de programa.

Depois de cinco anos nessa vida, Marla tem três filhos e uma depressão fatal.

Quando Ângela completa quinze anos, a menina recebe a notícia, na escola, que a mãe se matou no banheiro da casa. Cortou os pulsos na frente dos filhos menores. Começa nesse momento, a vida de Ângela, a guardiã dos irmãos e responsável por ela mesma.

Ângela nunca desmereceu a mãe, nunca a insultou, mesmo em pensamento. O que a menina sente pela mãe é pena. Muitas vezes, nesses anos todos, Ângela viu a mãe chegar em casa quando os filhos estavam saindo para a escola, mesmo que ela tentasse esconder as marcas e o olho roxo, as crianças viam, entretanto, todos os três corriam até a mãe para um abraço carinhoso. Talvez tenha sido esses atos que fez Marla aguentar um pouco mais aquela vida, mas em algum momento, nada mais fazia com que ela visse algum motivo para continuar.

Ângela é uma garota esperta, sabe que aquele dinheiro que a mãe coloca em cima da mesa todas as manhãs, é fruto de muita dor e vergonha.

Marla deixou a filha administrar o dinheiro, a casa e cuidar dos irmãos. Nas horas que estava acordada, Marla bebia uma garrafa de whisky todos os dias, até começou a ir para o clube embriagada e no dia de sua morte, ao lado da banheira, estava uma garrafa vazia.

Não era uma garota qualquer, tenho certeza que tem algo haver com Marla. - Connor olha para a janela com muita tristeza no olhar.

Marla? Essa garota não existe para mim!

Sim, irmão, eu sei.

Connor se arrepende de ter deixado escapar a oportunidade de ajudar Marla naquela época. Quando foi atrás dela, não encontrou pistas e nunca mais a viu. Agora, aquela garota é uma cópia de Marla quando adolescente, Connor não acredita que seja só uma sósia, ele acredita que é a filha de Marla e os meninos têm os mesmos cabelos ruivos e a semelhança com Marla. Connor acredita que encontrou uma pista e vai descobrir onde Marla está, mesmo depois de dezessete anos, vai fazer o que for possível por sua sobrinha.

Eu proíbo você de ir atrás daquela gente!

Irmão, você não tem o direito e muito menos o dever de pedir tal coisa.

Minha posição …

Sua posição está bem protegida atrás do escudo da mentira que contou anos atrás. Sua filha é que fugiu com o namorado e você é a vítima, logo nada o afetará.

Connor, não darei um centavo para aquela gente!

__ Então você também percebeu a semelhança? Não se preocupe, seu dinheiro não será usado.

A conversa chega ao fim, de um lado um tio alegre e esperançoso, do outro lado, um pai que não se arrepende de nada.

As coisas não estão muito bem nesse décimo oitavo ano de vida de Ângela. A lanchonete foi vendida e os novos donos não querem antigos funcionários, portanto, demitiu todos. Ela, como todos os outros funcionários, recebem a noticia antes de abrirem a lanchonete para mais um dia de trabalho e como os colegas, Ângela não consegue entender bem o motivo da atitude dos novos donos, mas também não pode fazer nada e sendo assim, ela sai andando sem rumo pela cidade, até chegar no porto.

A cidade natal de Ângela fica no litoral e com um velho porto quase em desuso, mas alguns homens de negócios, com visão para o futuro, se uniram e estão reconstruindo o velho porto. Existe um grande número de pessoas desconhecidas na cidade, são os trabalhadores da empreiteira que está responsável pela obra e com isso, existe um número maior de possíveis clientes para o comércio local. Os novos donos, pensando nisso, resolveram que deveriam ampliar a lanchonete e até compraram a loja do lado. Todos os comerciantes da cidade sabem que com um porto novo, muita gente pode se mudar para uma cidade tranquila como aquela e haverá mais empregos que vai trazer essas novas pessoas.

Então por que demitir todos? - pergunta Ângela a si mesma.

Essa resposta só os novos donos podem dar.

Voltar para casa é o melhor a fazer. Ficar na tranquilidade do lar e pensar em uma solução. Quando vovó Glover chega com os irmãos, a notícia vem com eles, que já sabem da situação dela.

Muitos outros comércios foram comprados. O hotel na rua do porto, o restaurante e dois galpões no porto. Parece que um grupo chinês quer investir pesado na cidade e usar o porto para suas exportações, até a construtora é da América do Sul e usando trabalhadores locais e mais aqueles que querem um emprego. Parece algo bom e ao mesmo tempo não. Empregados como você, Ângela, estão desempregados e sabe-se quando poderão encontrar outro emprego. - explica vovó Glover.

Que a cidade cresça é muito bom, mas para mim o melhor é arranjar outro emprego.

Não se preocupe, querida, vou perguntar por aí e se souber de alguma coisa, venho avisar.

A senhora Glover continua a mesma, dinheiro ela não dá para ninguém, mas tenta ajudar ao máximo em outras partes.

Quando Ângela começou a beber, ela não se lembra, mas sabe que é sempre depois que sai do novo emprego e chega em casa. Ela tem um novo emprego, na construtora, algo que conseguiu na companhia de uma colega que trabalhava na lanchonete. A colega, como tem seus estudos completos, foi para a administração e Ângela foi para a faxina. O trabalho é duro, limpar os banheiros na obra, depois o refeitório e no final, lavar as panelas.

Muitas noites, quando os irmãos voltam da casa da vovó Glover, Ângela está dormindo sentada na cadeira. O cansaço é enorme e o salário não compensa.

O irmão David, que sair da escola para ajudar, mas Ângela, depois da experiência na entrevista de emprego, percebe que sem estudos, será muito difícil para os irmãos conseguirem bons empregos e então, Ângela encerra essa conversa com um sonoro não. Um garoto de treze anos e outro de onze, vão fazer o quê? Carregar carga pelo resto da vida no porto? Irão se ressentir no futuro, como Ângela algumas vezes faz, quando vê suas antigas colegas de turma entrarem na lanchonete. Todas de uniforme e sorrindo muito. Elas tinham um futuro certo, com brilho e sucesso? Claro que não, mas tinham uma chance, aquela que o estudo dá. Não é hora de autopiedade, é hora de se levantar e ir trabalhar.

Algumas amizades surgem na vida para iluminar e outras arrastam para a escuridão.

Ângela fez amizade com duas outras garotas, mais velhas do que ela três ou quatro anos, que insistiam em levá-la para uma bebida depois do trabalho.

Você parece escrava de seus irmãos! Quando terá um momento para você mesma? Deixe de ser tola, aproveite a vida enquanto pode! - diz uma loira oxigenada, com uma maquiagem exagerada no rosto.

Seus irmãos são quase adultos, eles não sabem fazer as coisas sozinhos? - acrescenta a outra, que é uma falsa ruiva, que mastiga eternamente um chiclete.

Querendo tirar os problemas da cabeça, que beber sozinha em casa não é o suficiente, Ângela aceita o convite e assim todos os dias o convite é aceito e todos os dias, Ângela volta bêbada para casa.

A senhora Glover nada fala, já tentou antes com Marla e não deu certo, apenas explica aos irmãos que a irmã mais velha está sufocada pelo trabalho pesado.

As saídas após o expediente continuam e no dia do aniversário de Ângela, as amigas fazem uma surpresa no bar que costumam frequentar. Uma sala nos fundos é reservada para a festa, muitas bebidas são compradas e alguns homens, trabalhadores do porto, são convidados.

A surpresa de Ângela não foi grande como esperavam as amigas, só que depois de meia garrafa, ela está distribuindo abraços e beijos para os convidados. Certa altura e passando da meia-noite, a embriaguez faz seu trabalho. Sem noção da realidade, Ângela perde sua virgindade e é abusada por diversas vezes, tanto quanto os homens na festa queriam. As amigas apenas observam, mas estão em um torpor maior do que Ângela, elas já passaram por isso antes de dar lugar para a amiga

As cinco horas da manhã, o dono do bar coloca todos para fora, está com raiva porque ainda vai ter que limpar aquele lugar malcheiroso.

Sem saber bem o que aconteceu, Ângela volta para casa para tomar um banho e vê algo escorrendo entre suas pernas e a memória do que aconteceu volta a sua mente. Chorar é o que resta agora. Autopiedade é outra coisa que entra em seu coração. Raiva de si mesma é outro sentimento que se acumula no coração. Chora e chora muito. Os irmão não estão na casa, as mochilas não estão por perto e acreditando que os meninos já foram para a escola, ela vai trabalhar.

Sem comentários, parece ser a ordem muda de cada amiga ao se encontrarem no dia seguinte, mesmo os homens nada falaram.

Talvez a solidão, o excesso de responsabilidade ou a carência afetiva, Ângela não sabe dizer o que a fez aceitar outro convite para uma festa no mesmo bar. Desta vez o número de homens é maior e havia mais duas garotas também. Para Ângela o que importava é aquela falsa sensação de bem-estar, algo que a embriaguez causa. Como aquela risada que vem do nada, achar graça de coisa nenhuma e rir muito. Achar engraçado quando um desconhecido toca seu corpo, definitivamente não é engraçado, mas isso só é lembrado no dia seguinte.

Noites assim, prejudicam o desempenho no trabalho no dia seguinte, não importa em qual função. A primeira a ser demitida é a falsa ruiva, Meg. Dias depois é Susan, a loira oxigenada e por último é Ângela. O desespero volta e desta vez está acompanhado pelo vício alcoólico.

As três, reunidas a noite no bar, conversam e Susan tem uma idéia, baseada no sucesso em agradar os ex colegas de trabalho, que poderiam continuar a fazer isso em troca de favores em forma de dinheiro.

Isso é prostituição! - exclama Ângela.

O que nos resta? Diga, o quê três mulheres sem estudo tem a fazer nesta cidade?

Podemos arranjar emprego em outro lugar …

Limpando banheiros imundos? Não mais!

Pensar, pensar e pensar, é o que Ângela faz quando volta para casa. Não quer o mesmo destino da mãe, mas pode ser dona de todo o dinheiro que receber, sabia que a mãe lucrava muito, mas Bernie ficava com mais da metade e ainda pegava mais quando queria comprar alguma coisa para si. Se ela ficar com todo o dinheiro, poderá deixar essa vida quando tiver o suficiente e abrir uma loja para si, para vender alguma coisa, na verdade não importa e sim, que vai juntar o suficiente, para viver melhor. Ângela já tomou sua decisão, já fez sua escolha e vai ter que assumir os resultados dessa escolha.

No vigésimo ano de vida de Ângela, a sala nos fundos do bar, que fica na periferia da cidade, frequentado pelos trabalhadores do porto e pessoas com posturas e atitudes incomuns, é oficialmente declarado parte do bar. O dono do bar, pediu que cincoenta por cento do lucro fique com ele e as três garotas dividiam a outra metade, mas o número de garotas aumentou, agora são cinco e com isso o lucro de Ângela caiu muito, em compensação, o número de clientes triplicou.

Ângela está mergulhada na sua profissão, que não se importa mais em trocar de roupa para esconder dos irmãos o que faz. Os irmãos sabem de onde vem o dinheiro para a escola, as roupas e a comida, eles apenas não falam, assim como faziam com a mãe, apenas sentem que estão perdendo a irmã como perderam a mãe.

Dias se passam. Meses se passam e Ângela continua na sua rotina. Chega pela manhã, quando os irmãos já foram para a escola e a noite sai para o trabalho antes da chegada dos irmãos.

Certo dia ao voltar para casa, em seu estado normal, ou seja, bêbada, um homem de terno acompanhado de uma mulher em um vestido rosa, a esperam. São da assistência social, que informa a Ângela que vão levar os meninos. Ela não entende bem o que está acontecendo, até ver os meninos com suas mochilas nas costas de mãos dadas com vovó Glover, que tem lágrimas nos olhos. Os meninos passam por ela e não a olham. Ela chama por eles, mas eles entram na van e fecham a porta. A assistente social fala alguma coisa que Ângela não entende e entrega um cartão, depois entram também na van e vão embora.

Ângela fica ali, em frente a porta do cômodo que mora, tentando fazer o cérebro funcionar, tenta entender o que está acontecendo, mas o álcool no sangue e no cérebro, bloqueou toda a vontade de raciocinar e o que quer mesmo é deitar,  dormir e nesse estado é o que faz. Não se importa que a velha amiga esteja ali falando com ela, em seu estado o que importa é aquela cama a sua frente.

O cheiro de um chá-preto forte, faz com que Ângela desperte aos poucos. Precisa urgente de uma xícara de chá para acordar e reavivar o ânimo.

Ao abrir os olhos, vê vovó Glover sentada em uma cadeira perto do fogão, que está ligado com uma panela de água fervendo, este é o único meio de aquecer o cômodo em que vive, foi uma idéia de David, que é brilhante em ciências.

Onde estão os meninos, vovó? Na escola?

Não. Nesse momento devem estar esperando uma vaga em algum orfanato do estado. - fala vovó Glover com muita calma.

Ângela acredita que a vovó está brincando, algo incomum nela, muito menos faria uma brincadeira desse tipo, mas como um alfinete que estoura uma bolha que envolve seu cérebro, ela se lembra o que aconteceu naquela manhã.

Onde eles estão?

Agora você se lembrou? Acho que um pouco tarde, não acha?

Onde eles estão? - pergunta Ângela de novo com lágrimas escorrendo.

Como eu disse, aguardando uma vaga em algum orfanato do estado.

Não, isso não é possível, eu …

Você o quê? Cuidou deles? Está presente na vida deles? Onde você passa as noites?

Foi preciso, sabe disso!

Sim, foi sua escolha, mas você que me disse as palavras da sua mãe, esqueceu delas?

Silêncio. Uma Ângela está chorando e arrasada.

Eu não tinha outra escolha.

Se você acredita nisso, está repetindo as coisas que sua mãe fez e falando o que ela me falava.

Minha mãe não teve escolha!

Sua mãe tinha medo de enfrentar o mundo e ser ridicularizada por sua deficiência, algo que outros fizeram com ela, então escolheu a saída mais confortável, algo que não afetaria seus sentimentos, mas você e eu vimos o que aconteceu. Agora você, por que a mesma coisa?

Não havia mais nada a fazer!

Você não está falando sério, está?

Por que não me ajudou? Porque não ofereceu algo diferente?

Porque você não despejou na pia, aquela garrafa de bebida em primeiro lugar? Porque não se negou a fazer tudo aquilo com suas amigas?

Novo silêncio, Ângela tenta organizar as idéias, mas é difícil, quer beber alguma coisa para ajudar a pensar.

No que pensa? Um gole para ajudar a pensar?

O que isso importa a você?

Muito! Eu tentei ajudar sua mãe para abandonar aquela vida, mas não se pode ajudar quem não quer ajuda.

Belas palavras, mas isso ajuda a você a aliviar a alma por não dar dinheiro a ninguém!

Isso machucou a vovó Glover.

Eu trouxe uma vaga de emprego para você, mas a idéia da sala de festas já estava pronta e o dinheiro que você conseguiu era maior do que o salário do tal emprego. - a senhora Glover respira fundo. - Eu não quero as pessoas dependentes do meu dinheiro, eu quero que as pessoas vivam por conta própria …

Você nos viu passar fome!

Nunca deixei vocês passarem fome, mesmo na época de sua mãe! - a senhora Glover respira fundo novamente. - Eu tenho minhas próprias normas de vida. Eu as aprimorei depois de anos apanhando da vida e me reerguendo. Um dia você teria as suas, mas por enquanto, a vida está ensinando a você que toda escolha tem suas consequências.

Você nos denunciou?

Suas vizinhas fizeram isso, quando viam seus irmãos esperando por você do lado de fora, inverno após inverno. Você sabe que Joshua está doente?

É só uma tosse.

É pneumonia e é grave.

Ângela se senta na cama e vê as marcas que suas lágrimas fazem no piso velho e sujo.

Nunca mais vou vê-los, não é? Eu estraguei tudo, não foi?

Você pode mudar e você não é sua mãe, que se deixou vencer pela tristeza. Você é mais forte, basta dar o primeiro passo. - a senhora Glover veste seu casaco e se dirige para a porta. - Não vá para aquele lugar hoje. Eu tenho um emprego para você em um lugar bom e seguro. Pense no que você quer para seu futuro e pense que seus irmãos amam você.

A porta se fecha e a primeira coisa que Ângela faz é correr para sua garrafa no armário, mas quando coloca o gargalo na boca, vê a imagem da mãe envolta de sangue na banheira e deixa a garrafa cair na pia, se quebrando em vários pedaços. A porta do banheiro está aberta, o chão está coberto de sangue, as paredes estão manchadas de sangue. Ela chama pelos irmãos, mas não tem mais ninguém ali.

Minhas escolhas me trouxeram até aqui. Isso é uma frase velha, mas genial. Faça as escolhas certas. Essa é outra frase velha e genial, mas não tem ninguém que nos ajude a escolher, isso é algo somente de sua responsabilidade. Apenas escolha bem, tente fazer o melhor e boa sorte.

Ângela olha ao redor, mas não tem ninguém, mas essa é a voz da mãe, citando a sua frase mais comum, quando estava quase no fim, meses antes de tirar a própria vida.

Mãe, o que faço? - pergunta uma Ângela desesperada chorando deitada no chão sujo.

Minhas escolhas me trouxeram até aqui. Isso é uma frase velha, mas genial. Faça as escolhas certas. Essa é outra frase velha e genial, mas não tem ninguém que nos ajude a escolher, isso é algo somente de sua responsabilidade. Apenas escolha bem, tente fazer o melhor e boa sorte.

A voz de Marla se repete e Ângela tapa os ouvidos.

Diga o que devo fazer!

E a voz repete a mesma coisa.

Ângela sabe por que aceitou o convite das amigas. Sabe que não tinha muita autoestima e se acha covarde e fraca para continuar lutando por ela e pelos irmãos. Se acha incompetente e inferior, mas quando está entre as pessoas do bar, tem toda a atenção do mundo, lá ela brilha como uma estrela, ninguém a desmerece e enquanto está bêbada, não sente nada, tudo é só risos e festa.

Minhas escolhas me trouxeram até aqui. Isso é uma frase velha, mas genial. Faça as escolhas certas. Essa é outra frase velha e genial, mas não tem ninguém que nos ajude a escolher, isso é algo somente de sua responsabilidade. Apenas escolha bem, tente fazer o melhor e boa sorte.

Continua a voz pelo cômodo, outra e outra vez, até que Ângela se levanta e sai. Aquele lugar é algo que sempre a incomodou, deveria ter mudado quando a mãe morreu, mas não foi essa sua escolha, preferiu ficar porque era mais conveniente, mas havia mais opções.

Chegando na calçada alguém a chama.

Ângela Fleming?

Quem é?

Sou Connor, seu tio-avô.

Ângela não responde, apenas olha para aquela pessoa.

Desculpe-me não aparecer antes, mas não consegui localizar vocês.

Agora que aparece? Depois que perdi tudo? Minha mãe morreu e meus irmãos foram tirados de mim! Agora que aparece?

Ângela está no limite, Connor tem total conhecimento do que a filha de sua sobrinha amada tem passado e agora vai fazer parte da vida dela, como deveria ter feito a anos atrás, mas ela tem outra opinião e sai correndo pela calçada, empurrando as pessoas que encontra.

Mesmo correndo, ela sente o corpo gelado, como se uma nuvem fria a envolvesse, ela para na esquina e se apoia em um poste de luz.

Eu queria outra chance, para uma escolha melhor. - murmura ela, olhando para a lua.

No meio do barulho dos carros passando e das pessoas falando, ela ouve o tio-avô chamar e aí percebe que aquela pessoa pode ser a ajuda que pediu para mudar sua vida e quando caminha na direção dele, uma coisa brilhante vem em sua direção e a envolve.

As pessoas ao redor gritam de medo e se afastam. Connor ao ver Ângela no chão tremendo, como se estivesse em crise epilética, a envolve com seu casaco e a leva até o carro. Ela abre os olhos e vê que o tio-avô fala alguma coisa, mas os olhos parecem pesados e desfalece.

As duas mulheres ainda estão sentadas no tronco na beira do lago. Existe um silêncio de avaliação nesse momento.

Você me elogiou muito, mas está é a minha vida e nela eu não fui sensata e muito menos corajosa. Não salvei meus irmãos e muito menos a mim mesma.

Acho que você fez o melhor que pode, a escolha não foi a melhor, mas você tentou alguma coisa.

Está falando de maneira educada. O certo é dizer que estraguei tudo, isso sim.

O que eu posso falar? Eu não sou ninguém para julgar ou condenar ninguém, não eu.

Novo silêncio contemplativo.

Se você não está ocupada, pode ouvir minha história agora? - pergunta Jingfei sorrindo.

Espera, vou consultar minha agenda. - responde Ehuang no mesmo tom de brincadeira enquanto fecha os olhos. - Sim, posso. Não tenho nada por agora.

Já consultou sua agenda?

Sim, é minha agenda mental.

As duas riem com gosto. A situação não é boa, mas as duas acreditam que ficar desesperadas não vai melhorar em nada.

As duas estão entretidas no momento alegre, que não percebem que a água do lago ondulou levemente, como se alguém soprasse a superfície da água.

__ Então vou contar minha história. - fala Jingfei depois que para de rir.

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Comments

Aparecida Leite

Aparecida Leite

Um momento de tristeza. 😔

2024-08-01

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