Na pequena e isolada vila de São Vicente, localizada no coração da vasta e misteriosa Amazônia, existia uma lenda que passava de geração em geração, contada ao redor das fogueiras e sussurrada com medo nas noites escuras: a lenda da Matinta Pereira.
Diziam que, nas noites em que o vento soprava forte, fazendo as árvores dançarem e as folhas sussurrarem segredos antigos, e o uivo de uma ave solitária se misturava ao som das folhas farfalhando, a Matinta Pereira saía de seu esconderijo e vagava pelas ruas escuras da vila.
Muitos moradores juravam, com os olhos arregalados e voz trêmula, ter visto uma figura sombria e encurvada, uma velha de aparência assustadora, com olhos que brilhavam intensamente na escuridão e vestes esfarrapadas que se moviam como sombras. Esta misteriosa entidade trazia consigo um presságio de morte, e sua presença era sentida como um frio gélido que penetrava a alma dos que cruzavam seu caminho.
Certa noite, a jovem Ana estava voltando para casa após visitar a casa de sua avó. O caminho era longo e solitário, cercado pela densa floresta. O vento estava especialmente forte naquela noite, e o som de um assobio agudo cortava o ar. Ana apressou o passo, tentando afastar os pensamentos das histórias que sua avó costumava contar sobre a Matinta Pereira.
De repente, ela ouviu um assobio mais próximo, quase ao seu lado. Virando-se lentamente, Ana viu uma figura encurvada na beira do caminho. Era uma velha de aparência sinistra, com olhos que brilhavam no escuro. A velha estendeu uma mão ossuda e falou com uma voz rouca e sibilante:
"Moça, me dê tabaco."
Ana, assustada e sem saber o que fazer, começou a vasculhar desesperadamente sua bolsa. Seus dedos tremiam enquanto remexia entre os objetos, mas não encontrou nada que pudesse oferecer à velha. Cada segundo parecia uma eternidade. Quando finalmente olhou de volta, a expressão da velha havia mudado. Um sorriso perturbador e malévolo se formou em seu rosto enrugado, e seus olhos brilharam com uma luz sinistra.
"Você se arrependerá de não me dar o que eu pedi," a velha disse com uma voz que parecia um sussurro vindo das profundezas do inferno.
O pânico tomou conta de Ana. Sem esperar mais, virou-se e correu em direção à sua casa, com o coração batendo descontroladamente no peito. Sentia como se algo invisível a estivesse perseguindo, uma presença opressora que tornava o ar pesado. Quando finalmente alcançou a segurança de seu lar, trancou todas as portas e janelas com mãos trêmulas, tentando desesperadamente convencer a si mesma de que tudo não passava de uma alucinação, um fruto de sua imaginação assustada.
Mas a paz não veio. Aquela noite foi marcada por pesadelos terríveis, onde a velha aparecia em seus sonhos, sua risada diabólica ecoando na escuridão. Sombras malignas dançavam ao redor de Ana, envolvendo-a em um abraço gelado e sufocante. A cada riso da velha, as sombras se fechavam mais, deixando Ana impotente e aterrorizada. Ela acordava várias vezes, suando frio e ofegante, apenas para perceber que o medo real e palpável ainda a cercava, como se a maldição da Matinta Pereira tivesse penetrado não apenas seus sonhos, mas sua própria alma.
Nos dias que se seguiram, estranhos acontecimentos começaram a ocorrer na vila. Animais foram encontrados mortos de maneira macabra, e os moradores adoeceram misteriosamente. O pânico tomou conta de São Vicente, e muitos começaram a acreditar que a Matinta Pereira havia lançado uma maldição sobre a vila.
Desesperada e sem outra opção, Ana decidiu procurar a ajuda de Dona Cacilda, uma antiga curandeira conhecida por sua sabedoria e poderes místicos, que vivia isolada nas profundezas da floresta. Com o coração apertado e as mãos trêmulas, Ana atravessou a trilha sinuosa até a cabana de Dona Cacilda, onde a densa vegetação parecia sussurrar segredos antigos. Ao chegar, foi recebida pelo olhar penetrante e sereno da curandeira, que parecia saber exatamente o motivo de sua visita.
Dona Cacilda ouviu atentamente a história de Ana, seu rosto marcado pela sabedoria de muitos anos permanecendo impassível. Depois de um longo silêncio, a curandeira finalmente falou, sua voz carregada de gravidade:
"Minha filha, a única maneira de acabar com essa maldição é enfrentar a Matinta Pereira e lhe oferecer o que ela pediu: tabaco. Só assim seu espírito será apaziguado e você encontrará paz."
Na noite seguinte, com o coração pesado de medo mas determinada a se libertar da maldição, Ana voltou ao local onde havia encontrado a velha. A escuridão parecia ainda mais profunda, e o vento uivava com uma fúria sobrenatural, fazendo as árvores se curvarem e sussurrarem em um idioma antigo e desconhecido. O assobio sinistro que tanto a aterrorizara estava de volta, cortando o ar como um lamento.
Com um pequeno pacote de tabaco apertado em sua mão trêmula, Ana esperou, cada segundo uma tortura. De repente, a velha apareceu novamente, surgindo das sombras como um fantasma. Seus olhos brilhavam intensamente na escuridão, como brasas ardentes, e sua presença era tão avassaladora que o ar parecia ficar mais frio.
"Você trouxe o que pedi?" a voz da velha soou, gélida e carregada de expectativa.
Tremendo de medo, mas sem hesitar, Ana estendeu o pacote de tabaco para a velha. A Matinta Pereira pegou o pacote com suas mãos ossudas e um sorriso perturbador se formou em seu rosto. Com um gesto brusco e sobrenatural, a velha desapareceu na escuridão, deixando apenas o eco de seu assobio sinistro para trás.
Na manhã seguinte, a vila acordou em um silêncio inquietante. Os estranhos acontecimentos cessaram, mas o medo permanecia nos corações dos moradores. Ana nunca mais viu a velha, mas o peso do encontro a marcou para sempre. A história da Matinta Pereira continuou a ser contada, agora com um novo capítulo: o da jovem que ousou enfrentar a entidade e, de alguma forma, sobreviveu para contar a história.
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Atualizado até capítulo 23
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