Júlia era uma menina de dez anos que morava com seus pais em uma antiga casa de madeira no interior. A casa era espaçosa, mas tinha um ar antiquado e um pouco assustador. Havia um cômodo em particular que Júlia sempre evitava: o quarto de hóspedes no final do corredor. Ninguém usava aquele quarto, mas sempre parecia haver algo errado com ele.
Desde que se mudaram para a casa, Júlia tinha pesadelos recorrentes. Sonhava com uma criatura horrível, com longas garras e olhos brilhantes, que rastejava para fora do armário do quarto de hóspedes e vinha em sua direção. Ela acordava suada e com o coração disparado, mas seus pais diziam que era apenas sua imaginação fértil.
As noites eram sempre as mesmas. Júlia ia para a cama depois de um beijo de boa noite dos pais e de uma história contada por sua mãe. Mas, ao apagar as luzes, a escuridão parecia ganhar vida própria. Cada estalido da casa, cada sombra nas paredes a fazia estremecer. Demorava a pegar no sono, mas quando finalmente adormecia, os pesadelhos vinham sem piedade.
No sonho, tudo começava de forma nebulosa. Júlia se via caminhando pelo corredor da casa, com a sensação opressiva de que estava sendo observada. O corredor parecia mais longo e estreito do que na realidade, e o ar ficava mais frio a cada passo. Quando chegava em frente ao quarto de hóspedes, a porta sempre estava entreaberta, como se a esperasse. Um vento gelado soprava de dentro, carregando um sussurro distante e ameaçador.
Ela sabia o que viria a seguir, mas seus pés continuavam a avançar, como se estivessem sob o comando de uma força invisível. A porta do quarto se abria completamente com um rangido sinistro, revelando o interior escuro e inóspito. No canto mais distante, o velho armário se destacava, sua madeira escura e carcomida pelos anos. O som de garras raspando no interior do armário ecoava pelo quarto, fazendo o coração de Júlia disparar.
Então, a porta do armário se abria lentamente. Primeiro, uma fresta, e depois mais um pouco, até que ela podia ver claramente os olhos brilhantes no escuro. Eles não eram olhos humanos, mas duas esferas incandescentes que a encaravam com uma fome predatória. A criatura começava a emergir, primeiro uma mão esquelética, com garras longas e afiadas que brilhavam à luz fraca do quarto. Logo, todo o corpo magro e distorcido da criatura aparecia, movendo-se com uma agilidade assustadora.
A criatura rastejava pelo chão, aproximando-se cada vez mais. O som de sua respiração pesada e ofegante enchia o quarto, enquanto suas garras arranhavam o assoalho de madeira, produzindo um som que fazia Júlia estremecer de medo. Ela tentava gritar, mas sua voz não saía. Estava presa em um terror silencioso e paralisante.
Quando o monstro chegava bem perto, a respiração da criatura se misturava com a dela, criando uma atmosfera sufocante. Júlia podia sentir o fedor de mofo e podridão que emanava da criatura. Foi então que, em um último esforço desesperado, ela conseguia recuar e acordar, ofegante, com o coração batendo como um tambor.
Seus pais, preocupados, corriam para o seu quarto ao ouvir seus gritos. Eles a abraçavam e a confortavam, dizendo que tudo não passava de um sonho ruim. Seu pai, para tentar tranquilizá-la, acendia todas as luzes do corredor e abria a porta do quarto de hóspedes, mostrando que não havia nada lá. Mas Júlia sabia que, mesmo não vendo a criatura acordada, algo estava errado com aquela casa, e especialmente com aquele armário.
Ela tentava explicar o que sentia, o terror visceral que a tomava todas as noites, mas seus pais apenas balançavam a cabeça, sorrindo suavemente e falando sobre imaginação fértil e como novos lugares podiam causar sonhos estranhos. Mas Júlia sabia que não era apenas sua imaginação. Algo realmente habitava o armário do quarto de hóspedes, algo antigo e maligno, esperando a oportunidade de escapar dos pesadelos e entrar na realidade.
Uma noite, enquanto seus pais estavam fora para um jantar de negócios, Júlia estava sozinha em casa. Tentou se distrair assistindo televisão na sala, mas não conseguia se concentrar. Sentia como se algo estivesse a observando. Foi então que ouviu um leve rangido vindo do corredor. Seu coração acelerou e seus olhos se fixaram na porta do quarto de hóspedes, que estava entreaberta.
Tomando coragem, ela decidiu investigar. Pegou uma lanterna e foi lentamente em direção ao quarto. A porta rangeu quando ela a empurrou, revelando o interior escuro e empoeirado. No canto do quarto, estava o armário velho e pesado. Júlia sentiu um arrepio na espinha, mas se obrigou a dar mais alguns passos.
Quando estava a poucos metros do armário, a porta se abriu sozinha com um rangido assustador. Dentro do armário, era um breu completo, mas Júlia sentia que algo estava lá. Foi então que ela viu os olhos brilhantes, exatamente como nos seus pesadelos. Sentiu-se paralisada pelo medo.
De repente, uma mão esquelética e cheia de garras emergiu do armário, seguida pela forma horrível do monstro. Era ainda mais terrível do que em seus sonhos. A criatura avançou lentamente, e Júlia finalmente conseguiu se mover. Gritou e correu de volta para a sala, tentando trancar a porta atrás de si, mas a criatura era rápida.
Ela se escondeu atrás do sofá, respirando com dificuldade, tentando pensar em uma maneira de se salvar. Seus pulmões queimavam e seu coração parecia prestes a explodir de tanto bater. Os sons dos passos do monstro ecoavam pelo piso de madeira, cada passo pesado ressoando como um tambor funesto. Júlia espiou por uma fresta entre o encosto do sofá e o chão, vendo os olhos brilhantes da criatura iluminarem a escuridão com um brilho malicioso e faminto. A criatura farejava o ar, como um predador sentindo o cheiro de sua presa, e avançava lentamente pela sala, arrastando suas garras pelo chão, produzindo um som que fazia os pelos da nuca de Júlia se eriçarem.
Foi então que uma lembrança longínqua veio à sua mente. Sua avó, uma mulher sábia e cheia de histórias, costumava lhe contar sobre antigas lendas antes de dormir. Uma dessas lendas falava sobre monstros de armário, entidades que se alimentavam do medo das crianças. Mas a avó também dizia que esses monstros tinham um ponto fraco: eles podiam ser banidos pelo reflexo de um espelho. O espelho, segundo a avó, era um portal para outra dimensão, um lugar onde o monstro seria sugado e preso para sempre.
Júlia sabia que havia um pequeno espelho de mão guardado no banheiro do andar térreo. Teria que ser rápida e silenciosa. Respirou fundo, tentando acalmar seus nervos e controlar o pânico que ameaçava dominá-la. Esperou o momento em que o monstro se aproximou mais do outro lado da sala, desviando seu olhar predatório. Então, com um movimento rápido, saiu de trás do sofá e correu em direção ao banheiro.
Seus pés descalços quase não faziam ruído no chão frio enquanto ela corria. Ao entrar no banheiro, fechou a porta rapidamente, mas sem fazer barulho. Tremendo, abriu o armário sob a pia e encontrou o espelho de mão. Era um espelho pequeno, com uma moldura de prata antiga, mas Júlia sentia como se fosse sua única esperança. Segurando-o com firmeza, voltou para a sala, onde o monstro estava agora mais próximo, farejando e procurando.
Com um gesto decisivo, Júlia ergueu o espelho na direção da criatura. A luz refletida atingiu os olhos brilhantes do monstro, que soltou um grito agudo e ensurdecedor. A criatura tentou se afastar, mas o poder do espelho era imenso. Júlia sentiu uma força quase sobrenatural emanar do espelho, como se estivesse canalizando uma energia antiga e poderosa.
A criatura começou a ser sugada para dentro do espelho, seus membros distorcidos e horrendos se contorcendo enquanto lutava para resistir. Júlia manteve o espelho firme, mesmo com o medo e a tensão ameaçando dominá-la. Finalmente, com um último urro de desespero, o monstro foi completamente absorvido pelo espelho, deixando apenas uma leve fumaça escura que logo desapareceu.
Ofegante e exausta, Júlia abaixou o espelho. A sala estava silenciosa novamente, e a atmosfera de terror havia desaparecido. Ela sabia que havia conseguido; a lenda de sua avó era verdadeira, e o monstro do armário não a atormentaria mais. Quando seus pais chegaram, encontraram Júlia sentada no chão, ainda segurando o espelho, mas com uma expressão de alívio no rosto. Embora nunca tenha contado exatamente o que aconteceu, Júlia sabia que tinha enfrentado e vencido um pesadelo muito real. E a partir daquele dia, ela manteve o espelho de mão sempre por perto, como um talismã contra qualquer escuridão futura.
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Atualizado até capítulo 23
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