Lucas era um garoto de doze anos que adorava explorar. Sempre curioso, passava horas na floresta atrás de sua casa, inventando histórias de aventuras e caçando tesouros imaginários. No entanto, havia uma coisa que Lucas temia: o porão de sua casa. O espaço era úmido, escuro e cheio de cantos sombrios, o que o fazia parecer o lugar perfeito para monstros e fantasmas.
Uma noite, durante uma forte tempestade, a energia da casa foi cortada. Lucas estava na sala, lendo um livro à luz de velas, quando sua mãe pediu que ele fosse ao porão buscar velas extras. Ele tentou argumentar, mas ela estava ocupada tentando manter a calma de sua irmãzinha mais nova, então ele não teve escolha. Pegou uma lanterna e desceu as escadas de madeira que rangiam a cada passo.
O porão era ainda mais assustador à noite. As sombras dançavam nas paredes, e o som da chuva batendo no telhado parecia amplificado. Lucas tentou acalmar seus nervos enquanto vasculhava as prateleiras empoeiradas. Foi quando ouviu um som estranho vindo do canto mais distante do porão. Era um som de arranhões, como se algo estivesse tentando sair de dentro das paredes.
Seu coração disparou. Ele sabia que deveria ignorar e sair de lá o mais rápido possível, mas a curiosidade e o medo o mantiveram preso no lugar. A luz da lanterna tremulou, e ele tentou ajustar o foco, apontando-o para o canto escuro de onde o som vinha. Foi então que ele viu algo que nunca esqueceria.
No canto, havia uma velha porta de madeira que ele nunca tinha notado antes. A porta estava ligeiramente entreaberta, e os arranhões vinham de dentro dela. A curiosidade o venceu. Lucas deu passos hesitantes em direção à porta, com a lanterna tremendo em sua mão suada. Quando estava a apenas alguns metros de distância, a porta se abriu com um rangido horripilante.
De dentro, emergiu uma figura alta e magra, com uma pele pálida que parecia quase translúcida, esticada sobre ossos pontiagudos que se projetavam em ângulos desconcertantes. Os olhos da criatura eram vermelhos brilhantes, como brasas incandescentes, perfurando a escuridão com um olhar maligno e faminto. Suas mãos eram longas e esqueléticas, os dedos finos terminando em unhas afiadas e curvas, que raspavam o chão de concreto com um som que arrepiava até os ossos.
A criatura avançava lentamente, cada movimento fluido e sinistro, como se estivesse saboreando o terror de Lucas. Seu sorriso revelou uma fileira de dentes afiados e desiguais, manchados de um vermelho escuro que sugeria uma dieta de pesadelos e medo. A boca se alargou em um sorriso impossível, esticando a pele fina do rosto em uma expressão de pura malevolência.
O ar ao redor do Bicho Papão parecia esfriar, e um cheiro de mofo e decadência enchia o espaço. A criatura continuava a se aproximar, seus olhos vermelhos fixos em Lucas, como se absorvessem cada gota de seu medo. O som de suas garras arranhando o concreto era incessante e aterrorizante, cada passo ressoando como um prelúdio para a escuridão iminente que prometia envolver Lucas.
Lucas sentiu um terror paralisante tomar conta de seu corpo, como se uma mão invisível o estivesse prendendo no lugar. Ele queria correr, gritar, fazer qualquer coisa, mas seus pés estavam colados ao chão, incapazes de se mover. O Bicho Papão se aproximava lentamente, suas garras raspando o concreto e produzindo um som agudo e penetrante, como unhas em um quadro negro. Cada passo da criatura fazia o coração de Lucas bater mais forte, como se estivesse prestes a explodir de medo.
Desesperado, Lucas lutou contra a paralisia, tentando obrigar suas pernas a se moverem. Com um esforço tremendo, ele finalmente conseguiu dar um passo para trás, mas seu calcanhar bateu em uma velha caixa de madeira, fazendo-o perder o equilíbrio. Ele caiu pesadamente no chão, e a lanterna que segurava escorregou de suas mãos trêmulas, rolando pelo piso até parar de funcionar, mergulhando o porão em uma escuridão total.
No escuro, Lucas podia ouvir a respiração pesada e irregular da criatura, cada exalação carregada de uma malevolência palpável. O chão frio sob suas mãos e a ausência de luz aumentavam sua sensação de desespero. Ele tateou freneticamente ao redor, tentando encontrar a lanterna ou qualquer coisa que pudesse usar para se defender, mas o terror que sentia parecia drená-lo de toda força e esperança.
A escuridão era total, e Lucas podia ouvir a respiração pesada da criatura se aproximando. Desesperado, ele tateou o chão em busca da lanterna, mas seus dedos encontraram algo frio e metálico. Era uma velha chave. Sem pensar duas vezes, ele pegou a chave e, em um movimento rápido, tentou encontrar a fechadura da porta de onde o Bicho Papão tinha saído.
A criatura estava quase em cima dele quando Lucas finalmente encontrou a fechadura na velha porta de madeira. Suas mãos trêmulas e suadas mal conseguiam segurar a chave enquanto ele tentava enfiá-la na fechadura. O Bicho Papão estava tão perto que ele podia sentir o fedor pútrido de sua respiração. Com um último esforço desesperado, Lucas girou a chave com força, trancando a porta com um clique alto e definitivo.
Imediatamente, um grito estridente de frustração ecoou pelo porão, um som agudo e horrível que parecia reverberar nas paredes e nos ossos de Lucas. Ele sentiu o chão tremer violentamente quando a criatura começou a bater na porta, tentando forçá-la a abrir. As garras do Bicho Papão raspavam a madeira, produzindo um som horrível que parecia penetrar a mente de Lucas, amplificando seu medo.
Mas a chave segurou. A porta, apesar de velha e frágil, resistiu aos ataques da criatura. Após alguns momentos que pareceram uma eternidade, os golpes começaram a diminuir e, finalmente, cessaram. O silêncio voltou ao porão, mas era um silêncio pesado, carregado de tensão. Lucas permaneceu imóvel por alguns instantes, respirando pesadamente, sem ousar acreditar que estava seguro.
Ainda tremendo, ele se levantou lentamente, afastando-se da porta trancada com cautela, como se a qualquer momento o Bicho Papão pudesse romper a barreira. Com a lanterna apagada em uma mão e a chave firmemente segurada na outra, Lucas subiu as escadas o mais rápido que pôde, sentindo cada degrau rangendo sob seus pés. Trancou a porta do porão atrás de si e encostou-se na parede, tentando recuperar o fôlego.
Apesar do silêncio que agora envolvia a casa, Lucas sabia que o Bicho Papão ainda estava lá embaixo, preso mas não derrotado, esperando por qualquer oportunidade de escapar novamente. Ele manteve a chave com ele, um lembrete constante do terror que enfrentou e da necessidade de permanecer vigilante contra o monstro que habitava as profundezas escuras de seu próprio lar.
Lucas permaneceu imóvel, seu coração ainda batendo forte. Lentamente, ele se levantou, pegou a lanterna e subiu as escadas o mais rápido que pôde. Trancou a porta do porão atrás de si e jurou nunca mais descer ali. Ele contou à sua mãe sobre o Bicho Papão, mas ela apenas riu e disse que era sua imaginação.
No entanto, Lucas sabia a verdade. Sempre que a noite caía e a casa ficava em silêncio, ele podia ouvir, bem de longe, os arranhões e sussurros vindos do porão. Ele manteve a chave com ele o tempo todo, e cada vez que ouvia aqueles sons assustadores, apertava a chave em sua mão, lembrando-se do terror que enfrentou e do monstro que conseguiu trancar. Mesmo assim, sabia que o Bicho Papão ainda estava lá embaixo, esperando pela oportunidade de escapar novamente.
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Atualizado até capítulo 23
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