No pequeno vilarejo de São Vicente, as noites eram tranquilas e as manhãs iluminadas pelo sol nascente. No entanto, havia uma lenda que pairava sobre o lugar, uma história que os mais velhos contavam para assustar as crianças e mantê-las longe das matas densas ao redor. A lenda da Mula sem Cabeça. Segundo os contos, ela era o espírito amaldiçoado de uma mulher que, em vida, havia cometido o pecado de se envolver com um padre, sendo condenada a vagar como uma mula sem cabeça, cuspindo fogo pelas narinas em noites de sexta-feira.
Marina, uma jovem curiosa de vinte e dois anos, sempre achara essas histórias apenas superstições de um povoado isolado. Estudante de História na capital, voltava ao vilarejo nas férias para visitar sua avó, Dona Lourdes, uma das mais respeitadas moradoras locais. Dona Lourdes, com seus cabelos grisalhos e olhos sábios, sempre alertava Marina sobre os perigos da floresta durante as noites de sexta-feira.
Numa sexta-feira em particular, a curiosidade de Marina atingiu seu ápice, e ela decidiu investigar a lenda por si mesma. Convencida de que as histórias não passavam de mitos alimentados pela superstição dos moradores, pegou sua câmera e um bloco de notas, determinada a registrar qualquer coisa interessante que encontrasse. Ao cair da noite, enquanto as sombras alongavam-se pela floresta e o ar tornava-se mais frio, Marina adentrou a mata, ignorando os avisos insistentes de sua avó.
Caminhou por trilhas estreitas e sinuosas, onde a vegetação densa e entrelaçada parecia se fechar ao seu redor, como se a floresta tivesse vida própria. A lanterna em suas mãos lançava um feixe de luz tremulante, que iluminava parcialmente o caminho à sua frente, mas não conseguia afastar a sensação de que estava sendo observada. As árvores altas e antigas, com galhos retorcidos e cobertos de musgo, formavam figuras ameaçadoras na escuridão, e o chão estava coberto por folhas secas que estalavam sob seus passos, quebrando o silêncio da noite.
Marina avançava com cautela, o coração batendo mais rápido a cada passo. A cada som estranho – o farfalhar das folhas, o canto distante de um pássaro noturno, ou o estalo de um galho – ela parava por um instante, os sentidos aguçados pelo medo e pela adrenalina. A floresta à noite era um lugar completamente diferente, com uma atmosfera opressiva que parecia sussurrar segredos antigos e sombrios.
Apesar do temor crescente, Marina continuava sua jornada, determinada a provar que a lenda da Mula sem Cabeça não passava de um conto inventado para assustar crianças. Mal sabia ela que estava prestes a enfrentar um terror além de qualquer coisa que pudesse ter imaginado.
A noite estava escura, a lua escondida por densas nuvens. O silêncio da floresta era perturbador, interrompido apenas pelo farfalhar das folhas e os sons distantes de animais noturnos. Marina sentiu um arrepio na espinha, mas continuou avançando. A floresta parecia mais densa e opressiva, as sombras das árvores se alongando como dedos esqueléticos.
De repente, um vento frio varreu pela mata, trazendo consigo um cheiro pungente de enxofre e algo queimado. Marina parou abruptamente, seu coração parecendo querer saltar do peito. O som distante de cascos trovejando no chão ecoou entre as árvores, enchendo a floresta com uma sensação de iminente perigo. Um arrepio percorreu a espinha de Marina enquanto ela se tornava consciente de que não estava mais sozinha na escuridão sombria da mata. Lembrando-se das descrições arrepiantes da Mula sem Cabeça, ela virou-se lentamente, seus olhos arregalados pela antecipação e pelo medo iminente.
E então, ela a viu. A Mula sem Cabeça emergiu das sombras como uma aparição infernal, uma figura imponente e aterrorizante. Seu corpo de mula, negro como a própria noite, parecia envolto em uma aura de fogo, lançando sombras dançantes ao seu redor. Onde deveria estar sua cabeça, havia apenas uma chama intensa e brilhante, cuspindo faíscas e fumaça. O chão tremia com cada passo que a criatura dava, os cascos batendo ritmicamente como tambores funestos, ecoando na alma de Marina e enchendo-a de pavor.
A visão da Mula sem Cabeça era como algo saído de um pesadelo terrível, seus contornos distorcidos e suas características sobrenaturais desafiando qualquer lógica ou explicação racional. Marina sentiu-se paralisada pelo terror, seus sentidos inundados pela presença ameaçadora da criatura lendária que, até então, ela acreditava ser apenas uma história contada para assustar crianças. Mas ali, diante dela, estava a prova de que o terror da lenda era muito mais real do que jamais imaginara.
Petrificada pelo medo, Marina tentou recuar, mas tropeçou em uma raiz e caiu de costas. A Mula sem Cabeça se aproximou, o calor de sua chama fazendo o ar ao redor vibrar. A criatura parou a poucos metros dela, e Marina pôde sentir o cheiro acre de queimado invadir suas narinas. Com um relinchar ensurdecedor, a mula levantou as patas dianteiras e desferiu um golpe no chão, fazendo faíscas voarem por todos os lados.
Marina sentiu o terror apertando seu peito, mas sabia que precisava escapar. Com um esforço tremendo, conseguiu superar a paralisia e se levantar, lançando-se em uma corrida desesperada pela floresta. O som dos cascos da Mula sem Cabeça ecoava atrás dela, cada batida ressoando como trovões em seus ouvidos. O fogo da criatura iluminava seu caminho, mas também revelava a proximidade assustadora da ameaça que a perseguia. O coração de Marina martelava dentro do peito, cada batida acompanhada pelo ritmo frenético de seus passos.
À medida que corria, avistou entre as árvores um velho casebre, uma construção abandonada que conhecia das histórias de sua avó. Sem hesitar, dirigiu-se para lá, suas pernas movendo-se freneticamente, impulsionadas pelo instinto de sobrevivência. Chegando à porta, não perdeu tempo e a arrombou, adentrando o local escuro e úmido. Trancou-a rapidamente atrás de si, sentindo um alívio temporário ao bloquear a entrada para a criatura maligna que a perseguia.
Dentro do casebre, podia ouvir os relinchos furiosos da Mula sem Cabeça do lado de fora, o som dos cascos batendo contra o chão como trovões distantes. A chama intensa e brilhante da criatura iluminava as janelas quebradas, lançando sombras dançantes pelo ambiente empoeirado. Marina se encolheu em um canto escuro, ofegante e trêmula, tentando controlar a respiração e o medo que ameaçava consumi-la.
Lá fora, o som dos cascos e os relinchos furiosos continuaram por algum tempo, até que, finalmente, o silêncio retornou. Marina não sabia se a Mula tinha ido embora ou se estava esperando que ela saísse. Ficou imóvel, os olhos fixos na porta, os ouvidos atentos a qualquer som. A noite parecia interminável, cada segundo se arrastando como uma eternidade.
Quando os primeiros raios de sol começaram a penetrar pelas frestas das paredes, Marina finalmente se levantou. Com cautela, abriu a porta e espiou para fora. A floresta estava tranquila novamente, o ar fresco e limpo. Não havia sinal da Mula sem Cabeça. Sentindo uma mistura de alívio e exaustão, Marina retornou ao vilarejo, prometendo a si mesma nunca mais desafiar as lendas locais.
Dona Lourdes a esperava na porta de casa, os olhos cheios de preocupação e sabedoria. Marina correu para os braços da avó, agradecida por estar viva. Nunca mais questionou as histórias do vilarejo e, nas noites de sexta-feira, permanecia segura em casa, lembrando-se do terror que enfrentou e da poderosa maldição que ainda rondava a floresta.
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Atualizado até capítulo 23
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