Horas antes...
Melissa estava se arrumando para ir à famosa casa noturna Moulin Rouge, sob os protestos de sua amiga Adriana que tentava dissuadi-la daquela loucura.
— Pelo amor de Deus, Mel! Não faz isso, você vai se arrepender!
Drica
— Eu não tenho escolha, Drica! Eu não tenho outra forma de conseguir esse dinheiro. Só ganho um salário mínimo naquela loja. Se a gente não pagar o Romeu, ele vai nos matar! Ele é perigoso!
— Eu sei, mas... Mas esse mundo da prostituição também é perigoso, amiga!
Melissa passa a escova nos cabelos deixando-os alinhados como queria e contesta:
— Eu não vou me prostituir! Só vou dançar. A Soraia me garantiu que dá pra tirar uns mil reais ou até mais por noite.
— Dançar? Desde quando strip-tease é dança?
Melissa respirou profundamente e respondeu:
—Eu vou só tirar algumas peças e ficar enrolando até a música acabar... A Soraia disse que vai me ensinar direitinho. Em um ano fazendo isso, vou conseguir pagar a dívida do meu pai.
— Não se iluda, Mel! É exatamente assim que todas começam. É um caminho sem volta. A Soraia mesmo é um exemplo disso. Começou dançando, agora tem dois filhos de pais diferentes e nem sabe quem são os pais dessas crianças! Como você foi ouvir conselhos dessa mulher?
— Ela só estava querendo ajudar. É uma boa vizinha, Drica. É só uma pessoa que não
teve sorte na vida.
— Ajudar coisa nenhuma! Ela quer te levar pro mau caminho! Logo você que sempre foi tão certinha!
Melissa suspirou mais uma vez e falou:
— Se eu pudesse, jamais faria isso, Drica! Se aparecesse outra alternativa, qualquer que fosse, eu não pensaria duas vezes, mas infelizmente, eu não vejo outra solução.
— Minha mãe vai surtar quando souber disso!
— Não fala nada pra ela ainda. Eu sei que ela além de ficar muito triste, vai tentar me convencer a desistir, mas eu não posso.
Drica fez uma cara de reprovação e Melissa se chateou.
— Ai, você tem que me apoiar, amiga!
— Tô tentando, Mel, mas tá difícil!
—Olha, eu pedi muito a Deus pra me mostrar uma solução, um outro caminho, mas... Você viu o estado que os homens do Romeu deixaram meu pai. Foi um milagre ele não ter morrido!
— Coitado do seu Ronaldo! Quem está com ele no hospital?
— A tia Meire.
— E o que os médicos disseram?
— Disseram que ele vai se recuperar, mas vai levar um tempo. Sabe como é o atendimento em hospital público, né? E agora sem a mamãe, ele tá muito abatido!... Estou falando apenas da parte física, porque emocionalmente nem sei como ele está... Até agora não reagiu. Está apático, com o olhar perdido, não interage com ninguém.
— Ele não está respondendo nem a você?
— Não. Está catatônico!
— Nossa! Ele deve estar em choque.
— Não sei muito bem o que está acontecendo com ele... Estou muito preocupada. Por isso preciso conseguir esse dinheiro, Drica! Eles não vão parar.
— Eu te entendo amiga, mas não é justo você se sacrificar assim. E os seus estudos, seus sonhos?
Melissa apoia as mãos na penteadeira e encara a amiga.
— Vou ter que adiar meus planos por pelo menos um ano. Vou ter que trancar a faculdade, mas assim que der, eu volto.
—E o seu namoro com o Sérgio?
Melissa ficou surpresa.
— Que namoro? Não existe namoro algum!— respondeu ela voltando a retocar a maquiagem.
— Não é o que ele anda espalhando por aí.
— Porque é um mentiroso! Nunca aconteceu nada entre nós.
— Nunca aconteceu, porque você não quis.
— Não quis e não quero.
— Por que não? Ele até que é bonitinho e é louco por você. Dá uma chance pra ele!
— Tá louca? Sérgio e eu não temos nada a ver. Ele vive fazendo ceninha de ciúmes sem ser nada meu, imagina se fosse! Ainda mais agora...
Melissa se levanta, confere seu visual no espelho e pega sua bolsa.
— Preciso ir. A Janete disse que tenho que estar lá uma hora antes — ela diz decidida.
— Poxa, Mel, não há nada que eu possa fazer pra você mudar de ideia?
Melissa olha para a amiga com os olhos marejados e responde com a voz embargada:
— Infelizmente não, amiga!— as duas se abraçam — Me deseje sorte!
Elas se afastaram do abraço e Drica cruza os dedos em apoio a amiga.
— Vou rezar por você. Vai dar tudo certo e você logo vai sair disso!
Melissa e Drica eram amigas de infância e tinham a mesma idade, 22 anos. Dividiam o mesmo apartamento para facilitar a locomoção para a faculdade e para o trabalho. Estavam morando há seis meses na minúscula kitnet, onde elas dividiam as despesas. A vida não estava sendo fácil e agora Melissa precisava de cem mil reais para pagar o agiota de quem seu pai tinha tomado dinheiro emprestado para pagar a dívida do hospital, onde sua mãe passou seus últimos momentos de vida. Apesar de todo gasto com o tratamento, ela não resistiu. Havia morrido há quatro meses. Melissa cogitou voltar a viver com seu pai, mas ele não permitiu, era um lugar muito perigoso. E agora há três dias foi a vez dele ficar internado depois de levar uma surra do bando do Romeu, o traficante do bairro que lhe emprestou o dinheiro.
Melissa entrou num uber e indicou o endereço da boate. Ela estava pensativa e visivelmente abatida. Ainda sentia muita falta da sua mãe. Não se conformava com a morte dela. Ela era seu esteio. Seu pai escapou por pouco da morte e naquela situação não podia trabalhar e seu estado emocional estava pior que o físico. A vida estava perdendo o sentido para Melissa também. A Felicidade parecia algo distante. As lágrimas inundaram seus olhos. A lembrança de sua infância quando tentava ajudar sua mãe batendo as panelas e dizendo que seria uma famosa chef de cozinha, arrancou-lhe um sorriso em meio às lágrimas. Ela tinha uma cabecinha cheia de sonhos, mas como vivê-los agora? Ainda mais com o que estava prestes a fazer... Começar uma vida na noite, por dinheiro! Sua reputação estava no lixo com certeza, mas sua decisão estava tomada.
— A senhora está bem, moça? — Perguntou o motorista ao notar que ela estava chorando ao olhar pelo retrovisor.
Melissa secou as lágrimas, sorriu sem graça e respondeu:
— Está tudo bem! Eu vou ficar depois do próximo sinal.
Depois de pagar o motorista, Melissa desceu do carro, parou em frente ao Moulin Rouge e um calafrio lhe subiu pela espinha ao se deparar com a extravagante construção. Ela fechou os olhos por alguns segundos, respirou profundamente e passou pela
porta. Ao passar pela entrada principal, se identificou para recepcionista:
— Boa noite, me chamo Melissa, preciso falar com a Janete.
A moça ergueu a cabeça preguiçosamente e, mascando um chiclete, falou:
— Boa noite, Você deve ser a nova dançarina.— deduziu ela passeando os olhos sobre Melissa indiscretamente. — Uau, você é realmente muito bonita!
— Obrigada! — respondeu ela sem graça.
— Pode entrar, gata! Eu vou interfonar pra ela. Ela te encontra no salão.
Melissa assentiu com a cabeça e passou pela segunda porta. Lá dentro era tudo muito grandioso. Uma mistura de glamour e obscuridade. Melissa olhou para o palco onde havia umas garotas ensaiando alguns passos e, por uns instantes projetou a sua imagem seminua dançando sensualmente sob os olhos cobiçosos de vários homens. De novo um calafrio. Aquilo era realmente muito assustador. Janete apareceu sorridente, toda maquiada, mas usando um roupão brilhante. Ela era a travesti mais famosa da casa e também a gerente do lugar. Ao avistar Melissa deu um grito escandaloso que era sua marca registrada.
— Monaaa, você veio mesmo! Ai, tá nervosa?— perguntou ela segurando em suas duas mãos afetuosamente.
— Bastante... — respondeu a garota tentando sorrir.
— Relaxa! Vai dar tudo certo! Se você esquecer a coreografia, sorria e joga o cabelo!
Dessa vez Melissa sorriu de verdade. Janete foi muito simpática, mas Melissa sabia que não estava pronta, pois só havia participado de dois ensaios e foi muito mal em todas as tentativas. Só a escolheram por causa da sua beleza, que com certeza ia contribuir muito para atrair os clientes.
— Espera só um pouquinho aqui, porque o camarim tá lotado, mas já já eu volto pra te buscar pra retocar a maquiagem e dar um tapa nesse visual. Você está com muita roupa!
— Janete...
— Senta e pega uma bebida, Isso vai te ajudar a relaxar— aconselhou a travesti piscando com um olho e saindo apressadamente logo depois. Uma das moças do clube chamada Michele acompanhou Janete enquanto ia para o camarim.
— Essa é aquela moça desengonçada que estava no ensaio de quarta-feira? — perguntou ela.
— Sim, ela mesma.
— Não acredito que vão contratá-la!
— Por que não?
— Ela não tem talento algum!
—Você não reparou nela, menina?
— Tá, ela é bonita, mas isso não é suficiente!
— Pois fique sabendo que ela é garota do Rogério Roque. Muito valiosa!
— Como assim, valiosa?
— De um jeito que você precisa tratar ela bem e ajudar ela se enturmar!
— Eu?
— Isso mesmo. E vamos, pois estamos atrasadas!
Mel olhou em volta mais uma vez e abraçou a si mesma para espantar a tensão. Tirou o celular da bolsa e respondeu uma mensagem de Drica. Guardou o celular, suspirou profundamente e fechou os olhos.
— Você consegue, garota! Você consegue!— Disse ela para si mesma em pensamento.
De repente alguém pigarreou ao seu lado fazendo-a sair da sua imersão.
— Com licença! Você trabalha aqui?
Melissa virou-se para ver quem era e lá estava ele, o homem mais bonito que ela já tinha visto na vida.
— Desculpa, moça... É uma das garotas do Moulin?— Sua voz era grave e firme.
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Atualizado até capítulo 76
Comments
Keila Mar
tomara que ela seja virgem, vai ser um tapa na cara desse idiota
2024-12-28
0
Bernadete Lopes
Estou gostando muito do começo da história.
2024-11-18
1
Catiane Barcellos
a história e boa, são acho que não precisa conta a história na versão dos dois
2024-09-17
6