Já se passaram cinco dias do evento no parque aquático, e a produção do novo evento estava a todo vapor, a rotina era quebrada esporadicamente por colunistas querendo notas, mais sobre o namoro do que sobre o evento, o que, de certa forma era ótimo, já que a cada foto em tabloide, a cada nota sobre o "casal benfeitor" apareciam mais ameaças. Elisa estava frenética para confirmar com exames que os gêmeos eram seus, mas foi convencida a esperar, além de ter mandado uma distribuição de brinquedos através dos alunos do curso de assistência social da faculdade pública da cidade, nos brinquedos dos gêmeos, instalou câmeras e microfones que transmitiam em tempo real, para que pudesse ao menos ver como era o ambiente onde viviam... Por sorte os meninos amaram seus robôs, e a "vó Angela" era gentil, permitindo que eles mantivessem os brinquedos perto, mesmo à mesa. Ficou viciada nas imagens, passava horas deitada na cama com os olhos fixos na tela do notebook absorvendo cada detalhe da rotina deles. Primeiro a simplicidade da casa pareceu excessiva, inclusive as refeições escassas. Sempre ouviu que famílias de baixa renda tinham dificuldades para prover alimentos, mas não imaginou que mal tivessem o básico, como era o caso, essa realidade doeu mais que o previsto. Mesmo que não fossem os seus meninos, era triste de ver... Põe outro lado, ela era muito afetuosa, organizada e esforçada, mesmo cansada, sorria e respondia os milhares de perguntas dos meninos.
Já passava das dez e ela estava guardando os brinquedos jogados, enquanto falava com uma vizinha que bebericava um copo de chá, louças eram luxos acima do esperado... Elisa decidiu aumentar o volume à medida que elas falavam cada vez mais baixo.
- Nossa, fazem dois anos que você adotou esses garotos, né?
- Pssiiiiiu Marina, sussurrou Angela, você prometeu guardar segredo!
- Eu sei, mas eles estão dormindo!
- Vai saber...
- Mesmo acordados, eles por acaso sabem o que é ser adotado?
- Não duvido.(Essas duas palavras continham muito temor, orgulho e teimosia. Ela jamais admitiria que seus meninos não estivessem à altura de qualquer desafio) De qualquer forma, falava pausadamente, limpando o robô, que o Gael, que ela chamava de Marcos, tinha revestido de massinha, por que esse assunto agora?
- Eu só queria saber se a família deles procurou você.
O coração de Elisa acelerava a cada palavra, e a cada segundo de silêncio... Jacob, como que por pressentimento entrou no quarto e deitou a seu lado em frente ao notebook. Ela virou e tocou os lábios no gesto clássico de silêncio, e ele percebeu que o assunto era importante.
- Claro que não. A louca me disse que eles eram órfãos antes de pular do píer.
- Eu sei, você disse que ela pulou antes que você pudesse impedir... Mas nunca os detalhes.
- Pra quê você quer saber? Se eu contar, você sossega? Para de perturbar?
- Eu lembro a roupinha que eles usavam quando chegaram... São ricos, definitivamente. E você não tem condições físicas nem financeiras de criá-los até adultos, não do jeito que vai. Então talvez se eu souber a história toda, consiga entender o medo que você tem da família deles aparecer, além do medo de perdê-los.
- Então senta que a história é longa e só vou contar essa vez... Eu estava lavando umas conchinhas na beira do rio pra fazer aqueles artesanatos que eu vendia na época, lembra? (Marina assentiu silenciosamente) Daí chegou a louca, toda de branco, com os dois num carrinho caro, e seguiu pro píer. Não me pergunte a razão, mas desconfiei que ela ia fazer alguma maldade.
- Ela era médica? Mãe de santo?
- Parecia mais uma babá de criança rica, desequilibrada e doida, mas limpa e bem vestida. Então ela tirou o Paulo do carrinho e pendurou acima da cabeça, estava chorando e tremendo, e ia jogar ele dormindo como estava no rio... Não suportei, fui até ela e implorei que falasse comigo, me dissesse a razão dessa maldade toda, ela me olhou como se ninguém lhe desse atenção há anos. Ela virou e disse "Eles ficaram órfãos, não tem razão pra continuar vivos, não são necessários. Se sobreviverem, ele mata." Perguntei quem era "ele", ela só repetia que ele era perigoso e que mataria os dois assim como aos seus pais, então olhei nos olhos dela e disse "se não são necessários, dá eles pra mim!" Ela me fez prometer que não os levaria para a polícia, que guardaria segredo, ou "ele" os mataria. Eu fiquei com tanto medo que mal saía com eles... Já pensei mil vezes em procurar a polícia, mas aí, lembro dela dizendo "fiz tudo que ele pediu, obedeci o demônio até aqui, não suporto mais!" Antes de pular na água e nem tentar nadar, aí a vontade acaba. Não posso deixar esse tal demônio fazer mal a eles, e mesmo doente, não vou mandar eles pra lugar nenhum, agora fazem parte de mim... Nunca pude ser mãe, mas agora sou avó, uma boa avó! A voz foi ficando ainda mais baixa, e ela começou a soluçar, a tal amiga, Marina, ainda tinha algo a dizer, mas agora parecia se não constrangida, ao menos insegura... Pronto, agora você sabe de tudo. Pra minha sorte, eles não são de adoecer, já que não tenho documento nenhum deles. As vacinas eles tomaram quando fui faxinar a casa de uma enfermeira amiga minha...
- Na minha opinião você precisa se livrar desse problema.
O olhar da Angela era tanto curioso quanto feroz.
- Do que você está falando?
- É que conheci uma gringa que não pode ter filhos, e ela pagaria uma fortuna por eles. Respondeu esperançosa.
- Então é isso? Você quer que eu venda meus meninos a uma gringa que nem conheço? E você, leva quanto nisso?
- É... você entendeu mal, estou pensando em você, no seu bem...
- Joga limpo comigo. Onde e como ela viu meus meninos?
- Ela comentou que sempre sonhou em ser mãe... E perguntou se eu conhecia alguém que não tinha condições de criar os filhos, eu lembrei de você, ela veio até a vila e quando viu os meninos ficou encantada, então me pediu pra intermediar, ofereceu até recompensa!
- E você decidiu que era uma boa? Vou dizer só essa vez, se você pensar em roubar eles de mim...
- Não, sou sua amiga, lembra? Quero te ver bem! Esse dinheiro é pro seu tratamento.
- Não precisa me ajudar assim, dou meu jeito. Agora, lembre-se, estou disposta a matar por eles. Pode ir embora, não é mais bem-vinda aqui na minha ausência, entendeu? E se qualquer coisa acontecer a eles, te mato.
- Pois se você não concordar, te denuncio por sequestro. Você tem vinte dias para pensar, é o tempo que a gringa vai permanecer aqui. Seu jeitinho servil sumiu totalmente, substituído por uma arrogância imensa. Ah, vai se despedindo, não tem opção. Ergueu o queixo e saiu sentindo-se vitoriosa.
- Elisa, precisamos adiantar os planos. Você ouviu a ameaça, isso não é coisa de família que quer adotar, é tráfico humano... Ela deu um prazo, temos que resolver antes, mas primeiro quero saber, vai deixar a traficante solta por aí? Ou vamos fazer alguma coisa?
Ao olhar para ela já obteve a resposta que procurava, essa leoa em forma de mulher nunca recuava, e ali ele teve a certeza que estava irremediavelmente apaixonado por ela, mas sabia que não era ético aproveitar da fragilidade dela assim. Primeiro resolveria as questões que tanto a atormentavam, depois lutaria para conquistar seu coração. Agora tinha um plano, e iria em frente, provaria a ela seu valor, sabia que talvez por ser mais novo tinha menos chances mas...
***Faça o download do NovelToon para desfrutar de uma experiência de leitura melhor!***
Atualizado até capítulo 69
Comments
Erlete Rodrigues
tadinha da vó 🙏🏿
2025-03-28
1
Carla Dos Santos
AFF eles tem que agir rápido😱😱😱😱
2023-04-05
2