Na manhã seguinte, Luísa acordou cedo, como sempre fizera, mesmo estando longe de casa. O sol já iluminava as colinas ao longe, tingindo o campo com um dourado suave que parecia querer convidá-la a explorar aquele mundo simples e desconhecido para ela. Ela se levantou da cama, espreguiçando-se, tentando afastar a sensação de inquietação que a acompanhava desde a noite anterior.
A casa de tia Clara era tranquila e tinha um cheiro de terra e flores frescas que lembrava a infância de Luísa, quando ela costumava passar as férias na casa de seus avós, no interior. Mas aquele lugar era diferente, mais rústico, sem a sofisticação das mansões de sua mãe. Era quase como se a fazenda tivesse vida própria, como se as pessoas que ali morassem vivessem em um mundo à parte, desconectadas das regras que sua mãe sempre lhe impuseras.
Quando Luísa desceu para o café da manhã, tia Clara estava à mesa, conversando animadamente com a cozinheira e os outros empregados da casa, todos pareciam à vontade, como se fossem uma grande família. Luísa sentou-se, tentando se entrosar, mas a sensação de estar à margem da conversa persistia. Sua mente ainda estava voltada para o campo, para o trabalho árduo e a vida simples que se desenrolava ali fora.
"Hoje você vai conhecer melhor a fazenda, Luísa", disse tia Clara, com um sorriso afável. "Pedro vai te mostrar os estábulos e os campos de cultivo. Não tem nada melhor do que entender como a terra se trabalha."
Luísa olhou para ela, surpresa. Tia Clara não fazia cerimônias, e sua maneira de falar parecia indicar que ela esperava que Luísa se entregasse à experiência com curiosidade, sem pressa de voltar para o conforto de seu mundo de riqueza e luxo.
"Eu... não sei se seria uma boa ideia", respondeu Luísa, sentindo-se desconfortável. "Não estou acostumada com esse tipo de trabalho. E, além disso, talvez seja melhor eu ficar aqui, descansando um pouco."
Tia Clara observou-a atentamente, percebendo a hesitação. Em seguida, sua expressão suavizou-se.
"Tudo bem, minha querida. Mas saiba que essa terra tem algo de especial. Aqui, você pode aprender muitas coisas, se tiver o coração aberto para isso."
Luísa assentiu, mas não sabia se estava pronta para se entregar a essa vida. Ela sempre fora criada com a ideia de que seu futuro seria no mundo das elites, rodeada de luxo e sofisticação. As caminhadas na fazenda, os trabalhos rurais e a convivência com as pessoas simples pareciam mundos totalmente distintos do seu.
No entanto, algo dentro dela começava a se mexer, uma chama de curiosidade que ela nunca soubera que existia.
Enquanto o dia passava, Luísa não conseguia deixar de observar a rotina da fazenda. O trabalho nos campos parecia cansativo, mas as pessoas que ali viviam pareciam estar em paz com suas vidas. Pedro, que ela viu novamente a distância, estava, como sempre, ocupado no trabalho. Ele passava o dia todo cuidando dos animais, trabalhando na lavoura, e Luísa, de algum modo, sentia-se atraída por sua presença. O que a intrigava não era apenas sua aparência robusta, mas algo em sua atitude: ele estava sempre concentrado, imerso no que fazia, como se o resto do mundo não existisse.
Em determinado momento, tia Clara sugeriu que Luísa fosse até os estábulos, onde Pedro estava ajudando a tratar dos cavalos. Relutante, Luísa concordou, e, com o pretexto de querer entender mais sobre a fazenda, ela foi.
Ela caminhou até o celeiro, sentindo o cheiro forte de feno e couro. Quando entrou, viu Pedro ajeitando uma das ferraduras de um cavalo. Ele estava de costas, e sua camisa de manga curta mostrava os músculos fortes de seus braços. Luísa engoliu em seco, admirando sem querer a força e o jeito como ele dominava os animais.
"Olá, Pedro", disse Luísa, timidamente, tentando não demonstrar que estava um pouco nervosa com a situação.
Pedro se virou para ela, com os olhos sérios, e um ligeiro sorriso surgiu em seus lábios. Ele a cumprimentou com um aceno de cabeça.
"Bom dia, senhora Luísa. A senhora quer ver como tratamos dos cavalos? Eles são muito bem cuidados aqui."
Luísa, um pouco desconfortável com a formalidade, tentou disfarçar sua hesitação.
"Sim, eu... gostaria de aprender um pouco mais sobre o trabalho que vocês fazem por aqui."
Pedro acenou com a cabeça e, sem mais palavras, se abaixou para pegar um balde de ração e se aproximou de um dos cavalos. Luísa o seguiu, observando seus movimentos com atenção. Ele era tão tranquilo com os animais, tão hábil e confiante, que ela não pôde deixar de se admirar. Pedro parecia entender a linguagem dos cavalos de uma maneira que Luísa nunca imaginara.
"Você parece gostar muito do que faz", disse Luísa, sem pensar. "É um trabalho que exige muita paciência."
Pedro parou por um momento e olhou para ela. Seu olhar estava carregado de algo mais profundo, como se ele estivesse lendo algo dentro dela. Por um instante, Luísa sentiu-se vulnerável, como se ele soubesse exatamente o que ela estava sentindo.
"A paciência é tudo aqui", disse Pedro, com um tom que parecia refletir sua própria experiência de vida. "A terra e os animais te ensinam a esperar e respeitar o tempo deles. Não adianta apressar as coisas, Luísa. Às vezes, o que a gente mais precisa é deixar as coisas acontecerem no seu próprio ritmo."
Luísa ficou em silêncio, absorvendo suas palavras. Ela nunca havia pensado dessa forma. Na sua vida, tudo sempre fora rápido e impessoal. Ela sentia como se estivesse constantemente sendo empurrada de um compromisso para o outro, sempre seguindo as ordens da mãe, sem chance de escolher seu próprio caminho.
Pedro, ao perceber seu silêncio, voltou sua atenção para o cavalo, mas Luísa não conseguia mais desviar o olhar dele. Havia algo em sua maneira de viver que a tocava profundamente, algo que ela desejava experimentar. Algo que ela sabia que nunca teria se permanecesse no mundo da sua mãe, cercada de luxos e expectativas.
"Eu... nunca pensei sobre isso", ela finalmente murmurou.
Pedro olhou para ela novamente, seu olhar mais suave dessa vez, mas com uma seriedade que Luísa não conseguia compreender totalmente.
"Às vezes, é preciso coragem para ver o que realmente importa."
Luísa não sabia o que responder. Aquelas palavras ecoaram em sua mente, e por um momento, ela desejou poder mudar sua vida, poder viver sem o peso das expectativas. Mas ela estava prometida a Rodrigo. Sua mãe jamais permitiria que ela se entregasse a um homem como Pedro.
Ela sorriu levemente e se afastou, sentindo o peso de suas próprias emoções, mas também a leveza daquilo que ela acabara de descobrir: algo dentro dela começava a despertar. E, de alguma forma, isso fazia seu coração bater mais forte.
No final do dia, Luísa não conseguia deixar de pensar em Pedro e nas palavras que ele lhe dissera. Aquele homem simples e trabalhador parecia carregar uma sabedoria que Luísa nunca havia encontrado nas pessoas do seu círculo social. Ele tinha algo que faltava a ela, e ela sabia que não conseguiria ignorar essa sensação por muito tempo.
Mas, ao mesmo tempo, o peso da promessa que ela tinha com Rodrigo e o controle de sua mãe ainda eram sombras que pairavam sobre ela. O dilema em seu coração crescia, e Luísa não sabia como lidaria com isso.
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Atualizado até capítulo 38
Comments
Zete Campos
tô gostando da história parabéns
2025-04-02
0
Silvia Araújo
sábias palavras do Pedro
2025-03-29
0
Severa Romana
estou amando o livro
2025-03-28
1