Os dias foram passando e a saudade aumentando, porém a distância esfriou o sentimento de paixão e ficaram apenas as lembranças do que viveram. Pedro também foi para a capital e das amizades, restaram Clara e Berenice, que lhe ajudam no dia a dia, lhe fazendo companhia e sendo amigas leais.
Lívia não contou a ninguém a respeito do que fizeram no dia em que Aurélio partiu, mas na sua mente, ela recorda cada detalhe, mesmo sabendo que foi um impulso e que correu um grande risco, pois não se preveniram. O que lhe trouxe um momento de tensão durante alguns dias, com medo de estar grávida e eles serem apenas amigos.
Clara chega cedo no sítio, na manhã de sábado, depois de um mês da sua partida. Lívia ainda está no curral, ordenhando as vacas, com os seus pensamentos longe da pequena roça.
__ Bom dia amiga! Ainda não terminou? __ Diz Clara\, dando um susto na sua amiga que está distraída.
__ Desculpe-me\, não sabia que estava distraída\, pensei que tinha me visto chegar. __ A jovem fala sorrindo e lhe mostrando um envelope.
__ O que é isso? __ Pergunta Lívia com os olhos arregalados.
__ Uma carta do Aurélio, pelo visto não é só você quem está com saudades.
Lívia para o que está fazendo e passando as pernas por cima do pequeno banco onde senta-se para tirar o leite, vai em direção a sua amiga e pega o envelope de suas mãos, abrindo-o apressadamente, começando a leitura silenciosa, controlando a respiração e os olhos brilhando de tanta alegria.
“Belo horizonte, 22 junho de 1998
Querida Lívia, a sua amizade me faz muita falta neste momento, não tenho amigos aqui e somente o Pedro me faz companhia, sabe como ele é, não me compreende como você. Tenho estudado muito e em breve, prestarei novamente o vestibular, espero que esteja torcendo por mim, pois torço por você e por suas conquistas.
Mande-me notícias e diga-me o que tens feito para me esquecer, já que não estou por perto e agora voltou para a escola. Tenho certeza que deve ter um bando de gaviões te rodeando e logo nem lembrará que eu existo. Saiba que para mim a nossa amizade é eterna e sonho com o dia em que voltarei para casa e ficaremos perto outra vez. Mas tenho medo de ser substituído e quando voltar, você já tenha esquecido o que vivemos.”
Lívia sente um arrepio na pele e o coração acelerado, só de pensar que ele também recorda dos doces momentos em seus braços. Soltando a respiração, num suspiro profundo, ela sorri envergonhada e fechando os seus olhos, sente o gosto da sua boca e o toque das suas mão por seu corpo, o que são sonhos de uma paixão da juventude.
Abrindo novamente os olhos, olha para a sua amiga que sorridente pergunta:
__ O que ele está dizendo? Você está com cara de boba.
__ Nada importante\, só que está com saudades e que fará a prova em agosto. __ Ela responde\, ocultando o teor da carta e o que lhe parece uma declaração de amor.
As frases seguintes no papel de carta, com linhas coloridas e uma cor opaca, falam de saudades e um sentimento de amizade-colorida, que Lívia, sorri a cada palavra lida e o coração acelerado. Ele se despede da amiga sem uma palavra mais abrangente, que denote amor ou intimidades, deixando nas entrelinhas o suspense dos seus sentimentos não declarados explicitamente.
Lívia providencia uma caixa de metal, com formato de baú e guarda todas as correspondências que recebe do seu amigo, a princípio, uma carta por semana e depois uma por mês, até ficarem por longos períodos e imprevisíveis, o que a deixa mais carente e saudosa.
Aurélio espera por respostas das cartas que envia para Lívia, o que quase não recebe e quando as recebe, com o coração empolgado, contem poucas palavras em frases curtas e diretas.
Sempre esperando que lhe diga algo como: eu te amo ou volte logo.
Ela já o havia dito que não gostava de escrever, mas ele acreditou que por ele, ela mudasse de opinião e passasse a lhe escreve com frequência e que de saudades, declarasse os seus sentimento de uma forma aberta.
Lívia, apesar de esperta e determinada, é apenas uma menina, que assumiu a responsabilidade dos irmãos e os cuidados com a família. Pelo medo que passou, pensando na hipótese de uma gravidez, prefere não assumir os seus sentimentos por ele, pois, também nada adiantaria, sendo que ele está tão longe.
Depois de alguns meses, uma carta conta que ele passou no vestibular e a resposta foi parabenizando o jovem por sua conquista. Lívia expressou toda a sua alegria, em poucas palavras, dizendo-lhe o quanto estava feliz. Ele Sentiu que era sincera e cheirou o seu perfume no papel de cartas, que com carinho ela comprou para lhe escrever.
Meses depois uma carta lhe conta que ele fez amizades com algumas pessoas e Lívia sentiu ciúmes, mas não deixou transparecer. Ela sabe que agora ele conviverá com muitas pessoas e que mesmo assim ele não a esquecerá.
Com o passar do tempo, os postais começam a chegar de lugares que Aurélio conheceu em viagens com os amigos e fotos de polaroide, onde os seus novos amigos se fazem presentes. Os finais de semana do jovem é de festinhas e lugares diferentes. Enquanto em sua vida, nada mudou.
Uma linda jovem o acompanha para todas as viagens, mostrando que ele não está sozinho e que nunca a mencionou nas suas cartas. Na sua cabeça ela questiona quem é a garota que fica ao seu lado em todos os eventos e que aparece sempre ao seu lado, nas fotos que ele inocentemente lhe manda!?
__ Aurélio\, podíamos sair este final de semana\, estamos cansados e passamos o tempo todo estudando. Hoje é sexta e amanhã não teremos aula\, que tal irmos no clube ou no cinema?__ Diz\, Samanta\, uma amiga da faculdade e que nutre interesses por seu colega de classe.
Ele sorri e educadamente diz:
__ Temos provas na segunda-feira e no próximo final de semana quero fazer uma viagem rápida\, depois que voltar\, prometo que pegaremos uma sessão de cinema. __ Ela não gosta da sua resposta e fica andando por seu quarto\, observando os papéis espalhados por sobre a escrivaninha de estudos e bisbilhotando as suas coisas.
Aurélio está focado nos estudos e não percebe, quando ela pega uma carta que ele escreveu na noite anterior e não terminou, por conta do sono pesado e do cansaço de ficar até tarde estudando.
“Belo Horizonte, 10 de fevereiro de 1999.
Minha querida, lívia.
A saudade está batendo muito forte e sei que tenho estado ausente, não lhe escrevendo com a frequência como gostaria. Sinto saudades das nossas tardes de domingo debaixo da mangueira na beira do lago e das nossas histórias intermináveis. A sua amizade é o meu consolo para suportar a pressão dos estudos e este período de adaptação à cidade grande.
Espero que esteja bem e com saúde, diga ao Célio que sinto saudades até mesmo dele e das suas marcações para não nos deixar sozinhos. O que nada adiantou, pois não foi o suficiente para impedir que passássemos a tarde mais linda das nossas vidas e sentisse o seu corpo no meu. As lembranças desse dia me fortalecem e me dão forças para prosseguir.
Hoje as lembranças estão mais vivas e a vontade de ficar com você está me sufocando. Gostaria que estivesse aqui e que pudéssemos sair para jantarmos ou pegarmos um cinema, depois sairmos de mãos dadas, pelas ruas e poder beijar-lhe até o amanhecer.
Preciso saber o que sente por mim e o que posso esperar para o dia em que nos encontrarmos. Se disser que me ama, eu largo tudo e vou ao seu encontro.
Ansiosamente espero a sua resposta:
Ass.: Marco Aurélio”
Samanta fica sem cor e Aurélio ao perceber que ela está estranha, com a carta em mãos, pega-a rapidamente e diz:
__ É para uma amiga\, do interior! __ Ele dobra rapidamente a carta e coloca num envelope que já estava endereçado e diz:
__ Colocarei no correio segunda\, preciso que me responda antes do final de semana. __ A jovem o encara e pensando rápido e diz:
__ Deixa! Coloco para você hoje mesmo\, o correio ainda não fechou e tenho que pegar alguns xerox lá perto. __ Ela sente um ciúme incontrolável e tomando o envelope da sua mão\, o deixa sem reação\, obrigado a aceitar a sua oferta.
__ Obrigado! Então eu passarei a cola e lhe darei o dinheiro para a postagem. __ Ele tenta pegar o envelope de volta\, mas ela o impede.
__ Não precisa, eu lacro lá no correio e quanto a taxa, não se preocupe, é uma mixaria.
Saindo apressada, ela passa pela sala da casa onde Aurélio mora com os seus pais e encontra Rosa, chegando da rua.
__ Onde vai com tanta pressa\, Samanta!? Porque não fica para o café da tarde? __ Rosa pergunta\, parando em frente a jovem que parece ter visto um fantasma.
Samanta não pensa duas vezes e entrega o envelope nas mão da mulher e olhando para um lado e outro, como se fizesse algo errado, diz:
__ Ele planeja jogar tudo para o alto por conta dessa roceira. Deixe essa carta comigo e procurarei uma solução. __ Fala samanta\, num tom de desabafo\, Já conhecendo a história de amor e amizade entre Marco Aurélio e Lívia.
Rosa enfurecida, bufa como um boi bravo e resmunga:
__ Não podemos permitir que ele vá atrás dela e que continue tendo contato com a mesma. Encontre alguém que copie a sua letra e escreva outra carta, colocando um ponto final nessa amizade e darei um jeito dele não sair da capital por um bom tempo.
Clara e Berenice, encontram com Lívia no colégio e antes de entrarem para a sala de aula, entregam-lhe a carta que o carteiro acabou de deixar debaixo da porta da casa de Clara, para onde as correspondências são endereçadas.
Ouvindo o Sinal, elas correm para a fila de revisão dos uniformes. O diretor passa fazendo a vistoria dos mesmos e olhando todos os alunos que atentamente esperam para entrarem para as salas.
__ Você não lerá a carta agora? __ Pergunta Berenice\, curiosa.
__ Não! Se o diretor pegar\, ele conta para a minha mãe. __ Lívia responde\, segurando os cadernos na frente do peito e o envelope entre as páginas de um deles.
Ela deixa para ler no horário do recreio, quando entra no banheiro e as amigas vigiam a porta.
Para o seu espanto, a carta começa de forma totalmente diferente e com uma foto pequena, dentro da folha pautada de um caderno, que foi destacada sem muito capricho, diferente dos papeis de cartas que Aurélio escolhe minuciosamente e os perfuma com o seu Dolce&Gabbana, que além de sofisticado e atraente, é sexy e traz lembranças de um sentimento intenso.
“ Belo Horizonte, 10 de fevereiro de 1999
Minha amiga Lívia,
Venho por meio dessa, expressar um sentimento que há muitos dias me consome, pois não quero magoá-la, mas sendo inevitável, no momento, terei que lhe ser sincero.
Eu serei direto e não tomarei mais o seu tempo, conheci uma pessoa muito especial, ela se chama Samanta. Estamos engatando um namoro e por este motivo não poderei mais ter nenhum contato com você. Ela é de uma família importante da capital e o seu pai um político influente. Ele não aceitaria nosso namoro, sabendo que mantenho uma amizade com uma moça do interior.
O que vivemos foi bom, mas não cabe na vida que levo agora. Tenho outras prioridades, além dos estudos, quero assumir um compromisso com a mulher que amo e ter uma vida sólida. Desejo sorte no seu futuro e que encontre alguém que lhe faça feliz.
Assinado, Marco Aurélio.”
Lívia entra em choque e a sua cabeça começa a rodar. Olhando a foto na sua mão, vê que a carta não mente, pois a foto foi tirada de uma câmera Polaroide, instantânea, a mesma que ele mandou das outras vezes.
Sem chão, ela chora e sente o seu mundo desabar. As suas amigas ouvindo o choro, entram no banheiro e a abraçam, lhe dando apoio. Novamente ela tenta juntar os cacos e se colocar de pé. Mas agora, a vida foi dura demais e sente o seu mundo ainda mais destruído
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Atualizado até capítulo 68
Comments
joana Almeida lima
Que foto foi essa? Samantha mandou foto dos dois dentro da carta? Mesmo que fosse ele mesmo terminando , não mandaria foto dele com outra mulher pra ela ver.
2025-01-26
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Célia Maria
Duas cobras juntas , imagina o estrago!!!, pobre Lívia, que 😢,o Aurélio não tinha que confiar nessa Samantha.
2024-11-22
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Joelma Rocha
Aurélio tem na vida dele duas cobras 🐍🐍 que lhe tiraram o direito de ser feliz com suas escolhas 😔😔😔
2024-11-14
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