Encontro

O galo canta cedo no quintal e Lívia logo pula da cama, aproveitando o domingo. Ela tira o leite, solta os bezerros no pasto, trata das galinhas e põe comida para os porcos. Louca para ir ao lago novamente, ajuda a preparar o almoço e depois de um banho refrescante, veste uma calça jeans e uma camiseta e sai para a sua aventura no meio do mato.

Cantarolando ela passa pelo caminho que lhe é de costume e busca por Aurélio, com a esperança que ele esteja por perto. Ela olha por todas as partes, mas ele não é visto, e decepcionada segue na expectativa de que ele ainda apareça, ela retira a toalha e o livro de dentro do embornal e sentando-se debaixo da árvore, começa a sua leitura de onde parou.

Minutos depois ela sente que pequenos galhos começam a cair na sua cabeça, de tempos em tempos, atrapalhando a leitura e lhe deixando desatenta.

__ Droga! Que pássaro é este que resolveu fazer ninho bem em cima da minha cabeça?__ Ela levanta furiosa e olhando para o alto da árvore, avista o belo rapaz que sorrindo diz:

__ Hoje sou eu quem estou aqui em cima, cansei de te esperar a manhã inteira, então resolvi subir para ver em qual direção viria. __ Henrique fala ao descer da imensa mangueira e ficando frente a frente com a jovem, percebe que ela está assustada e em choque.

__ Você passou a manhã inteira aqui? Por quê? __ Ela pergunta sem perceber que ele se interessou por ela e que estava louco para vê-la novamente.

__ Eu não sabia a que horas viria e fiquei com medo de nos desencontrarmos, afinal temos um livro para lermos. __ Ele a desarma com o seu argumento e ela se solta um pouco e o responde:

__ Eu não posso vir antes do almoço, eu tenho algumas obrigações em casa e os meus pais precisam de mim, mas fico feliz que tenha vindo e me esperado. __ O seu rosto está vermelho de vergonha, mas com coragem bastante para dizer o que pensa.

Sentando-se um ao lado do outro, abrem os seus livros e começam a ler com os olhos, temas tão diferentes um do outro, mas que os unem com um pretexto de amizade.

__ Quantos anos você tem? __ Ela pergunta para ele, enquanto vira a página do capítulo que terminou.

__ Farei dezenove, daqui a dois meses e você?

__ Faço quinze no próximo mês, pensei que Pedro lhe havia dito. __ Ela não olha no seu rosto e conversa baixinho, começando o próximo capítulo.

__ Qual livro você está lendo? __ Ele pergunta um pouco tímido e ela fecha o livro e lhe mostra a capa de um romance juvenil.

Ele olha e sorrindo fica admirado, o livro é enorme e o conteúdo nada acrescenta para o seu crescimento profissional, apenas a ilude e a leva a crer num conto de fadas que não existe.

__ E o que você está lendo? __ Ela pergunta e ele lhe mostra um livro enorme de física. Ela sorri e diz com sua voz doce e gentil:

__ Parabéns! Vejo que és um moço dedicado aos estudos, pena que não descansa no domingo e se distrai com coisas mais leves.

__ Verdade! Eu não consigo pensar em outra coisa a não ser nessa bendita prova no final do ano, para mim é muito importante entrar nessa faculdade, é o sonho da minha mãe. Sou filho único, não posso decepcioná-la. __ Ele fala, suspirando e fechando os olhos, recostando a cabeça no tronco da árvore.

__ Eu leio romances para fugir da realidade, não tenho esperança de encontrar alguém e amar o bastante ao ponto de largar tudo e viver uma história. É só uma maneira que encontrei para não enlouquecer e, enquanto lembro do capítulo que li, eu faço as minhas obrigações no sítio, não sinto cheiro de estrume e muito menos sinto que piso neles. Sou como a Cinderela, não percebo o borralho na pele e nem o cansaço no corpo, com a minha mente ocupada com as histórias de amores não existentes.

__ Por que diz isso? Você não acredita no amor entre duas pessoas? __ Aurélio lhe pergunta, fechando o livro que lia e olhando para o rosto da jovem que é tão natural.

__ Acho que existe, mas não para mim. Eu não sou como as meninas da minha idade, trabalho como um homem e tenho preocupações de um chefe de família. Não espero que alguém se agrade do meu cheiro de leite e de curral, também não me iludo que um dia encontrarei alguém que queira dividir comigo as minhas obrigações. __ Ela fala olhando o rio que corre lento, formando o lago quase parado e que leva galhos e folhas para as suas margens.

__ Você é muito nova para pensar desse jeito, o tempo pode te surpreender e encontrar alguém que te ame e queira viver a sua vida ou dividir a vida dele com você. __ O jovem é maduro nas suas palavras e ambos fecham os seus livros e ficam conversando.

Ela fala da doença do pai e da tristeza por ter saído da escola. Ele fala dos seus planos em ser médico e o esforço que faz para agradar a sua mãe em tudo, pois ela não gosta de morar na roça e muito menos do lugar onde vive e aposta todas as suas fichas no jovem promissor, para levá-la para morar na cidade grande, já que o seu pai se nega a fazer as suas vontades.

Sentindo uma brisa fria, ela percebe que demorou tempo demais e que precisa voltar depressa para a casa.

__ Tenho que ir! Domingo eu venho, se tiver um tempo, apareça por aqui, gosto de conversar com você. __ Ela fala e sai correndo pelo caminho de mato e terra.

__ Eu venho! Também gosto de conversar com você! __ Ele grita, vendo-a correr pela trilha.

Durante dois domingos seguidos, eles se encontraram naquele lugar e a amizade foi crescendo com a admiração de ambos.

Faltando duas semanas para o seu aniversário, o seu pai voltou para o hospital e com isso, Lívia não pode ir até o lago. Aurélio foi dois domingos seguidos e a esperou por longas horas. A amizade escondida ficou abalada, pois ele pensou que ela não mais queria vê-lo, enquanto ela entristecida, não tinha como lhe contar o que estava acontecendo.

Na véspera dos seus quinze anos o seu pai volta para casa e ela insiste que não irá ao encontro das suas amigas, esquecendo até do Pedro que fazia questão de encontrá-la.

__ Eu quero que vá e se divirta, leve o seu irmão e aproveite a companhia das suas amigas. __ Fala o seu pai, muito fraco e sofrendo uma dor terrível.

__ O seu pai tem razão! Eu irei levá-los e mais tarde irei buscá-los, vocês precisam se distrair um pouco e o seu presente está no seu quarto. __ Laura, sua mãe, lhe abraça e Lívia emocionada, corre para ver o seu presente.

Entrando no quarto, vê um lindo vestido em cima da cama e uma sandália combinando. Saltitando de alegria ela o coloca a sua frente e se olha no espelho, sorrindo e rodopiando.

Célio ao ver a irmã feliz a abraça e diz:

__ Você ficará a moça mais bonita aqui da vila, com este vestido. Parabéns, minha irmã! Se tem uma pessoa que merece ser feliz, para mim, essa pessoa é você. __ Eles se abraçam e choram muito, pois sabem o peso que está nos seus ombros e a força que um passa para o outro.

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Comments

Marli Da Silva Gouvêa Castro Rosa

Marli Da Silva Gouvêa Castro Rosa

Marco Aurélio.

2025-01-25

0

Adriana Mentoring de Mulheres

Adriana Mentoring de Mulheres

Amando a estória 💕

2025-01-07

0

Eva Araújo

Eva Araújo

Estou igual a Lívia, lendo romance pra esquecer as durezas da vida, apesar de não ser mais uma adolescente. 🤣🤣🤣🤣

2024-11-08

6

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