Uma nova herança

O festival de Royauté havia terminado há algumas semanas, mas seus ecos ainda reverberavam pelo palácio. Durante aqueles três dias de harmonia e celebração, onde o reino suplicava aos deuses por chuvas abundantes para as colheitas, algo mais profundo e sombrio havia germinado entre os muros de Morsaden: o segredo entre Emily e Piter.

Nos corredores silenciosos e nas sombras das noites que se seguiram ao festival, Emily e Piter mantinham encontros furtivos, tão secretos quanto o desejo proibido que crescia entre eles. O conflito interno de Emily, dividido entre seu papel como princesa e esposa de Angus, e sua paixão ardente por Piter, era devastador. Cada toque furtivo, cada beijo roubado durante a noite, fazia o coração dela bater mais forte, mas também enchia sua alma de culpa.

Ela nunca imaginara que poderia amar ainda mais Piter, mas a verdade era inegável. Quando estavam juntos, o mundo exterior se tornava insignificante. A opressão de seu casamento com Angus se dissolveu, e apenas o calor entre ela e Piter permanecia.

Naquela primeira noite após o festival, Emily aguardava ansiosamente no jardim oculto, entre as roseiras, onde os dois haviam combinado de se encontrar. O luar iluminava a cena, dando um toque quase etéreo ao ambiente, mas o coração de Emily batia descompassado. Quando Piter finalmente apareceu, o tempo pareceu parar.

— Emily. Ele sussurrou, olhando para ela com uma intensidade que a fez esquecer de todas as suas preocupações.

Ela se aproximou, sentindo o calor do corpo dele enquanto Piter a puxava para seus braços. As mãos dele percorreram suavemente suas costas, e os lábios se encontraram em um beijo que misturava paixão e urgência.

— Não podemos continuar assim. Sussurrou Emily entre os beijos, sua voz hesitante.

— Se alguém descobrir, estaremos condenados.

Piter olhou nos olhos dela, seus dedos acariciando-lhe o rosto.

— Não me importo com as consequências, Emily. O que sinto por você... não consigo mais esconder. Eu te amo.

As palavras de Piter a fizeram estremecer. Ela sabia que não podia continuar com aquilo, mas, ao mesmo tempo, sentia-se incapaz de resistir ao que havia entre eles. Ela também o amava, mais do que jamais amou Angus, e essa verdade, por mais dolorosa que fosse, a arrastava para os braços de Piter.

Os encontros se repetiram nos dias seguintes. À noite, Emily escapava dos aposentos de Angus, sempre cuidadosa, sempre atenta aos olhares dos guardas. Quando se encontrava com Piter, tudo parecia fazer sentido. Era como se a dor e a angústia que a consumiam evaporassem, e ela encontrava conforto nos braços do homem que realmente amava.

No entanto, tudo mudou quando os primeiros sinais de sua gravidez começaram a surgir.

Uma manhã, logo após um de seus encontros noturnos com Piter, Emily sentiu uma leve tontura ao levantar-se da cama. Seus servos não notaram nada incomum, mas ela sabia que algo estava diferente. Dias depois, a tontura veio acompanhada de náuseas. O mal-estar era constante, e ela começou a sentir que algo mais estava acontecendo com seu corpo.

O medo começou a crescer dentro dela. Poderia realmente estar grávida de Angus? Ou, pior ainda, poderia o filho ser de Piter? A incerteza a corroía por dentro. A cada dia que passava, os sinais ficavam mais claros, e o peso da culpa se tornava insuportável.

Com o passar dos dias, Emily começou a se afastar de Piter. Ela evitava encontrá-lo nos corredores e recusava os encontros que antes tanto aguardava. Piter, percebendo a mudança no comportamento de Emily, tentou se aproximar várias vezes, mas ela sempre tinha uma desculpa. Seus sentimentos por ele não haviam mudado, mas a possibilidade de estar grávida a deixava confusa e assustada.

Em uma tarde silenciosa, Piter a confrontou.

Ele a encontrou no jardim onde costumavam se encontrar secretamente. A expressão de Emily era distante, o olhar fixo em algo que ele não podia ver. Piter se aproximou lentamente, mas antes que pudesse dizer qualquer coisa, ela falou:

— Não podemos continuar, Piter. Isso... tudo isso foi um erro.

Ele franziu a testa, incrédulo.

— Um erro? É isso que você acha que somos? Um erro?

Emily sentiu as lágrimas subirem aos olhos, mas se manteve firme.

— Estou grávida, Piter.

As palavras pareceram atingir Piter como uma lâmina afiada. Ele ficou em silêncio, tentando processar o que acabara de ouvir.

— De Angus? Sua voz saiu quase como um sussurro.

Emily desviou o olhar, incapaz de enfrentar a verdade que ela mesma ainda não sabia.

— De quem mais poderia ser? ... Por isso preciso me afastar de você. Pelo bem do reino, pelo bem de tudo.

Piter sentiu o coração apertar. Ele a amava, mas sabia que, se Emily estivesse grávida, tudo mudaria. O reino de Morsaden dependia desse herdeiro, e Emily, como princesa, teria que cumprir seu papel. Mas, por dentro, ele estava destruído. A possibilidade de perder Emily o devastava.

— Não posso viver sem você. Ele murmurou, aproximando-se e segurando suas mãos.

— Eu disse que lutaria por você, e eu vou. Não importa o que aconteça.

Emily olhou para ele, com o coração partido. Ela queria acreditar que eles poderiam, de alguma forma, ficar juntos, mas a realidade era implacável. Ela sabia que, se estivesse grávida, todo o seu futuro estava determinado. Angus jamais permitiria que ela se afastasse, e o reino exigiria dela um herdeiro. Havia muito em jogo, muito mais do que seus sentimentos pessoais.

Ela se afastou suavemente das mãos de Piter, com lágrimas nos olhos.

— Eu também te amo, Piter. Mas agora, mais do que nunca, não podemos continuar com isso.

Com o coração em pedaços, Emily deixou o jardim, deixando Piter sozinho com seus pensamentos sombrios e uma dor insuportável. Ele ficou parado por um longo tempo, o vento suave acariciando seu rosto, enquanto as sombras da noite começavam a se aproximar.

Ele sabia que a luta estava apenas começando.

Duas semanas se passaram desde o final do Festival de Royauté, e o reino de Morsaden voltou à sua rotina habitual. As celebrações deram lugar ao trabalho diário, mas uma nova energia pairava sobre o palácio, especialmente em torno do príncipe Angus, que exibia um sorriso orgulhoso desde que soubera dos primeiros sinais de uma possível gravidez de Emily.

Nos corredores, servos cochichavam sobre o que poderia ser o herdeiro real tão esperado. Emily, por sua vez, começava a sentir os primeiros sintomas. Acordava enjoada pela manhã, seus desejos alimentares mudaram, e uma leve tontura a atingia ocasionalmente. Angus estava radiante, já visualizando o futuro do reino nas mãos de seu filho. Para ele, a ideia de um herdeiro solidificava sua posição e trazia uma sensação de poder ainda maior.

Porém, enquanto o reino parecia comemorar silenciosamente a possível chegada de um novo membro da família real, o coração de Piter estava dilacerado. A cada sinal de que Emily poderia estar grávida de Angus, ele sentia a esperança que tinha se esvaindo. Desde o festival, ele havia se prometido lutar por Emily, mas agora, a ideia de ela carregar o filho de seu inimigo o deixava desesperado e enraivecido.

Piter buscava qualquer forma de aliviar sua angústia, e foi então que começou a tentar provar a traição de Evelyn. Ele sabia que ela estava envolvida na sua prisão no reino de Ahort em complô com o Rei Anthony, mas por mais que procurasse evidências, durante semanas, não encontrou nada concreto. Evelyn, por outro lado, tentava agradá-lo cada vez mais, talvez por medo de ser desmascarada, ou talvez por acreditar que Piter poderia um dia amá-la. Mas ele a desprezava.

Ao saber da notícia de que Angus poderia, em breve, se tornar pai, Piter perdeu o controle. Ele voltou para seus aposentos, sua mente fervendo com a mistura de raiva, dor e o que restava de sua própria dignidade. A garrafa de vinho em suas mãos foi esvaziada com facilidade, o álcool acalmando suas emoções tumultuadas, mas alimentando sua ira.

Evelyn apareceu nos seus aposentos pouco depois, trazendo consigo um ar de euforia contida.

— Parece que a princesa Emily realmente está esperando um filho. Ela disse, sua voz suave, quase como se estivesse orgulhosa da possibilidade.

Piter ergueu os olhos para ela, e algo no seu olhar sombrio a fez hesitar.

— Você está feliz com isso, não é? Ele murmurou, sua voz carregada de desdém.

— Claro que estou. Um herdeiro real é sempre motivo de celebração. Ela respondeu, embora sua confiança começasse a vacilar ao ver o estado em que ele se encontrava.

— E você pensa que tudo está bem agora, não é? Piter se levantou, cambaleando levemente, e aproximou-se dela.

— Acha que pode simplesmente continuar vivendo suas mentiras, achando que tudo vai ficar bem?

Evelyn recuou um passo, sentindo o perigo iminente, mas antes que pudesse reagir, Piter a agarrou pelos braços, com força.

— Piter... o que está fazendo? Ela perguntou, sua voz trêmula.

Os olhos dele brilharam com uma raiva contida.

— Agora, suas palavras vão se tornar verdadeiras. Agora eu vou forçar você, como você sempre disse que fiz.

Evelyn tentou se desvencilhar, mas Piter era mais forte, e o álcool só o tornava mais impulsivo. Ele a empurrou contra a cama, e, apesar de seus gritos e tentativas de se livrar, Piter a forçou, consumido por um desejo de vingança que ele mal compreendia.

Evelyn chorava, desesperada, tentando afastá-lo, mas não conseguiu. Quando ele terminou, os seus olhos ainda estavam repletos de ódio.

— Foi assim que você imaginou, Evelyn? Ele disse, com um sorriso cruel.

— Agora me diga, foi como você sonhou?

Evelyn, soluçando de dor e humilhação, conseguiu balbuciar:

— Você... não tinha o direito...

Piter a interrompeu com uma tapa forte no rosto, fazendo-a chorar ainda mais.

— Eu sou seu marido, posso fazer com você o que quiser. Ele a puxou novamente, pronto para mais uma vez forçá-la.

Mas antes que ele pudesse continuar, a porta dos aposentos se abriu com força, e Emily entrou. O rosto dela estava pálido ao ver Evelyn, machucada, sangrando, tentando se afastar de Piter, que ainda a segurava com brutalidade. Emily se aproximou rapidamente e, com um movimento decidido, empurrou Piter para longe de Evelyn.

— Pare! Emily gritou, sua voz carregada de autoridade e choque.

— O que você pensa que está fazendo, Piter?

Piter, ainda embriagado, olhou para Emily com olhos turvos.

— Estou fazendo o que sempre disseram que eu fiz... estou forçando-a. Não é o que todos acreditam?

Emily, horrorizada, olhou para Evelyn, que soluçava no chão, a roupa rasgada, o rosto marcado pela agressão. Ela sabia que algo estava muito errado, mas naquele momento, tudo o que importava era salvar Evelyn de mais dor.

— Saia daqui, Piter. Emily ordenou, sua voz gélida.

— Agora.

Piter hesitou por um momento, mas ao ver a determinação nos olhos de Emily, ele recuou, tropeçando enquanto saía do quarto, com o álcool ainda nublado, os seus sentidos. Emily se ajoelhou ao lado de Evelyn, envolvendo a criada em seus braços, sentindo seu corpo tremendo de medo e dor.

— Ele... ele machucou-me, princesa. Evelyn sussurrou, sua voz quebrada.

— Eu tentei, mas não consegui escapar.

Emily acariciou os cabelos de Evelyn, tentando acalmá-la.

— Está tudo bem agora, Evelyn. Ele não vai te machucar mais. Eu vou cuidar disso. Vou cuidar de você.

Por dentro, no entanto, Emily estava em choque. O homem que ela uma vez acreditara conhecer, Piter, havia se tornado algo que ela mal conseguia reconhecer. Algo precisava ser feito. E rápido.

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Comments

Emylli muito inocente em defender essa mulher

2024-12-12

1

Iara Drimel

Iara Drimel

É Emily o Piter se tornou o que quiseram que ele se tornasse. É você, princesa ou rainha Emily é uma das grandes culpadas.

2025-02-01

1

Iara Drimel

Iara Drimel

Gente nesse reino não há privacidade. Todo mundo entra no quarto de todo mundo sem bater. Que falta de educação 🤨

2025-02-01

1

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