A vida de casados

O sol começava a despontar no horizonte, iluminando o castelo com seus primeiros raios dourados. As sombras da madrugada recuaram lentamente enquanto a caravana da princesa Emily se aproximava das muralhas do castelo, retornando do reino de Ahort. Havia uma aura de melancolia no ar; a perda da rainha Flora ainda pesava sobre todos, e o castelo, normalmente vibrante e cheio de vida, parecia mergulhado em um silêncio respeitoso.

Angus, o jovem rei, estava na sala do trono, com os pensamentos em conflito. Desde a morte de Flora, Emily havia se tornado mais distante, fechada em sua dor. E, como se isso não fosse o bastante, a situação entre Piter e Evelyn estava prestes a chegar a um ponto crítico. Angus não conseguia tirar da cabeça as palavras que Emily lhe dissera antes de partir para Ahort, sobre o comportamento inaceitável de Piter na noite da celebração em Morsaden. A raiva de Angus era profunda, mas ele sabia que precisava agir com cautela. Seu próximo movimento precisava ser calculado para restaurar a ordem e, ao mesmo tempo, mostrar sua autoridade.

Piter, por outro lado, estava vivendo dias de tormento. Desde que Angus havia solicitado que ele se tornasse seu escravo, sua vida havia se tornado um pesadelo constante. Ele mal podia suportar a ideia de servir ao homem que amava e desprezava em igual medida. E o fato de estar à mercê de Angus o enchia de uma frustração surda, uma dor que se manifestava em olhares de rancor e ações passivas-agressivas. No entanto, nada disso o havia preparado para o que estava por vir.

Angus estava decidido a punir Piter pelo que ele havia feito a Evelyn, mas também havia algo mais por trás dessa decisão. Casar Piter com Evelyn não era apenas um castigo; era uma maneira de cortar quaisquer laços de esperança que Piter pudesse ter de um dia escapar de sua situação. Se estivesse preso em um casamento, sua vida seria ainda mais controlada, mais sufocada. Era a jogada perfeita para subjugá-lo completamente.

Quando Emily e sua comitiva finalmente chegaram ao castelo, a tensão era palpável. O silêncio de luto que acompanhava o retorno da princesa foi quebrado apenas pelos murmúrios dos servos e dos soldados que observavam sua entrada. Emily, com um véu preto cobrindo o rosto, passou pelas portas do castelo sem olhar para ninguém, sua dor evidente em cada movimento.

Ela foi direto para seus aposentos, onde Angus a aguardava. Ao vê-la, seu coração se apertou, mas ele sabia que não poderia mostrar fraqueza. Emily era forte, e ele precisava ser ainda mais forte para enfrentar o que estava por vir.

— Emily. Disse ele, suavemente, enquanto retirava o véu.

— Como foi sua jornada?

— Dolorosa. Respondeu ela, sem rodeios.

— Minha mãe está morta, e parece que uma parte de mim morreu com ela.

Angus assentiu, sabendo que não havia palavras que pudessem aliviar o fardo que ela carregava. Ele se aproximou, hesitando por um momento antes de falar novamente.

— Há algo que precisamos discutir. Algo que deve ser resolvido para que possamos seguir em frente.

Emily ergueu o olhar, suas sobrancelhas franzidas.

— O que é, Angus?

Ele respirou fundo antes de continuar.

— Piter. Ele deve se casar com Evelyn.

Por um momento, Emily ficou em silêncio, absorvendo o que Angus havia dito. Ela sabia que algo assim estava por vir. Desde o incidente em Morsaden, ela não conseguia olhar para Piter da mesma maneira. Sua lealdade e amor por ele haviam sido profundamente abalados.

— Quando isso deve acontecer? Perguntou ela, sua voz fria.

— Assim que for possível. Eu quero que isso seja resolvido antes que as tensões aumentem ainda mais.

Emily assentiu, seus pensamentos girando em torno da traição de Piter e da necessidade de fazer justiça.

— Concordo. Ele deve se casar com Evelyn. Não podemos permitir que o que ele fez fique impune.

A decisão foi tomada. Angus ordenou que os preparativos para o casamento fossem feitos imediatamente. Evelyn, embora relutante, aceitou seu destino sem questionar. Ela sabia que, como criada, suas opções eram limitadas, e a humilhação de ser forçada a se casar com Piter era algo que ela teria que suportar. No fundo, ela nutria um certo carinho por ele, mas as ações de Piter a haviam afastado completamente.

Enquanto os dias passavam, Piter começou a perceber a inevitabilidade de seu destino. A ideia de se casar com Evelyn o enchia de pavor. Não por desprezá-la, mas porque sabia que esse casamento seria a prisão final, o golpe fatal que o impediria de qualquer chance de escapar da sombra de Angus. Desesperado, ele começou a planejar uma fuga. Se conseguisse sair antes do casamento, talvez pudesse começar uma nova vida em outro lugar, longe daquele pesadelo.

Na noite anterior ao casamento, Piter fez seus preparativos. Esperou até que todos no castelo estivessem dormindo, depois esgueirou-se pelos corredores em direção ao portão de saída. Seu coração batia descompassado, suas mãos suavam frio. Mas, no momento em que alcançou o portão, uma figura emergiu das sombras: Emily.

— Onde pensa que vai, Piter? Perguntou ela, sua voz suave, mas cheia de autoridade.

Piter congelou no lugar, o medo tomando conta de seu corpo. Ele se virou lentamente, encarando Emily, que parecia ter antecipado seus movimentos.

— Eu... eu não posso fazer isso, Emily. Não posso me casar com Evelyn. Disse ele, tentando manter a voz firme.

— Depois do que fez a ela, você acha que pode simplesmente fugir? Retrucou Emily, seu olhar frio perfurando Piter.

Ele tentou encontrar as palavras certas, mas nada parecia adequado. Ele estava encurralado.

— Você machucou Evelyn, Piter. Não apenas na noite de Morsaden, mas também quando ignorou seus sentimentos e a tratou como se ela não fosse nada. Este casamento... é o mínimo que pode fazer para reparar o mal que causou.

Piter sentiu seu estômago se revirar. Ele sabia que Emily estava certa, mas a ideia de se casar com Evelyn sob tais circunstâncias o aterrorizava.

— Emily, por favor... me deixe ir. Eu não sou digno de você ou de Evelyn. Eu só quero desaparecer.

Emily balançou a cabeça, determinada.

— Não, Piter. Você não vai fugir das consequências de suas ações. Amanhã, você vai se casar com Evelyn, e vai fazer isso de cabeça erguida. E depois disso, você vai cumprir seu dever, como todos nós fazemos, não importa o quão difícil seja.

No dia seguinte, o casamento foi celebrado. As bandeiras foram erguidas, as mesas preparadas, mas o clima de festa estava longe do habitual. Era uma celebração silenciosa, marcada por sorrisos forçados e olhares desconfiados. Piter, vestido para a cerimônia, estava pálido, suas mãos tremendo enquanto aguardavam a chegada de Evelyn.

Evelyn apareceu, bela e triste em seu vestido nupcial, caminhando pelo corredor como se estivesse a caminho de sua própria execução. Quando os dois se encontraram no altar, o silêncio reinou. Os votos foram trocados, mas não houve alegria, apenas resignação.

Piter, agora marido de Evelyn, sentiu o peso de sua nova vida cair sobre seus ombros como uma tonelada de pedras. Ele sabia que estava preso, tanto pelo casamento quanto pelo olhar vigilante de Emily e Angus. Sua fuga havia sido frustrada, e agora ele estava diante de um futuro que parecia mais sombrio do que nunca.

Quando a cerimônia terminou e os convidados começaram a se dispersar, Emily observou Piter à distância. Ela não sentia alegria, apenas uma melancolia profunda. Sabia que, apesar de tudo, algo havia se perdido para sempre entre eles.

A noite desceu sobre o castelo como um manto escuro e silencioso. Os corredores, antes animados pelos murmúrios dos convidados, estavam agora vazios, ecoando apenas o som ocasional de passos distantes dos guardas em patrulha. A cerimônia de casamento de Piter e Evelyn havia sido tudo menos uma celebração feliz. Os poucos que compareceram estavam imersos em uma atmosfera pesada, marcada pelo peso das circunstâncias que levaram àquela união.

Evelyn, sentada na beira da grande cama do quarto nupcial, observava a luz das velas tremeluzir nas paredes de pedra. O vestido de noiva que ela usava, embora bonito, parecia apertá-la como se estivesse prendendo-a em uma prisão de seda e renda. Seu coração batia rápido, cheio de uma mistura de medo, tristeza e resignação. Ela sabia que esta noite viria, mas a realidade de sua situação era mais dura do que ela havia imaginado.

O som suave de uma porta se abrindo a trouxe de volta ao presente. Piter entrou no quarto, seus movimentos hesitantes e cautelosos. Ele estava vestido com roupas simples, já tendo se livrado das formalidades do casamento, mas o desconforto ainda era visível em cada gesto. Seus olhos se encontraram por um momento, e ambos ficaram parados, sem saber o que dizer. O silêncio entre eles era denso, carregado de uma tensão que parecia impossível de dissipar.

— Evelyn. Disse Piter, finalmente quebrando o silêncio, sua voz baixa e cheia de uma ansiedade mal disfarçada.

Ela olhou para ele, sem saber o que responder. O Piter que estava diante dela não era o homem que ela conhecia, o servo leal e até carinhoso que havia se tornado tão amargo com o tempo. Ele parecia mais um prisioneiro do que um marido, e Evelyn não podia deixar de se perguntar se, de alguma forma, ambos estavam encarcerados naquela situação.

— Eu... Ele começou, mas sua voz falhou. Piter não sabia como continuar. Ele tinha se preparado para esta noite, mentalmente se convencendo de que podia encarar o que estava por vir, mas agora que estava diante de Evelyn, tudo o que ele sentia era um vazio desolador.

Evelyn se levantou da cama, sua figura delicada destacando-se contra a penumbra do quarto. Ela deu um passo à frente, aproximando-se de Piter com uma expressão serena, mas profundamente triste.

— Não precisa dizer nada. Disse ela suavemente, a sua voz carregada de uma calma que contrastava com o turbilhão de emoções dentro dela.

— Nós dois sabemos que este casamento não foi desejado. Mas aconteceu, e agora precisamos lidar com isso da melhor forma que pudermos.

Piter olhou para ela, vendo a força que Evelyn estava tentando mostrar. Por um momento, ele sentiu um lampejo de admiração por sua coragem. Mas ao mesmo tempo, a culpa o esmagava. Ele sabia que o que havia feito a Evelyn, e o que estava prestes a fazer, não poderia ser justificado de maneira alguma.

— Eu... sinto muito, Evelyn. Ele disse, sinceramente.

— Sinto muito por tudo.

Evelyn baixou os olhos, evitando o olhar dele. Ela não queria que Piter visse as lágrimas que ameaçavam cair.

— Não podemos mudar o passado, Piter. Disse ela, em um sussurro.

— Mas podemos tentar fazer o melhor que podemos com o presente.

Piter deu um passo em direção a ela, seu corpo tenso de nervosismo. Ele estendeu a mão, hesitante, como se não tivesse certeza se deveria tocá-la. Evelyn não recuou, mas também não avançou. Ela simplesmente ficou ali, esperando, permitindo que ele fizesse o próximo movimento.

Quando Piter finalmente colocou a mão no ombro de Evelyn, foi um toque leve, quase imperceptível. Ele sentia como se estivesse caminhando em uma corda bamba, onde qualquer passo em falso poderia fazer tudo desmoronar. Ele sabia que deveria ser mais firme, mais seguro de si, mas a situação era insuportável.

— Eu não quero te machucar mais. Murmurou Piter, seus olhos encontrando os de Evelyn.

Evelyn assentiu, sentindo um peso ainda maior no coração. Ela sabia que esta noite era inevitável, que eles teriam que consumar o casamento, mas o pensamento de se entregar a Piter a fazia tremer. Não porque o temesse fisicamente, mas porque o amava, apesar de tudo. Esse amor, misturado com ressentimento e tristeza, tornava tudo ainda mais doloroso.

— Vamos... vamos deitar. Sugeriu Evelyn, tentando esconder o tremor em sua voz. Ela se afastou de Piter e caminhou até a cama, sentando-se novamente na beira, enquanto esperava que ele a seguisse.

Piter a observou por um momento, sentindo-se perdido. Ele caminhou até a cama, cada passo parecendo pesar uma tonelada. Quando finalmente se sentou ao lado de Evelyn, o silêncio entre eles era quase insuportável. Ele queria dizer algo, qualquer coisa, mas as palavras simplesmente não vinham.

Evelyn se deitou, fechando os olhos por um momento, tentando acalmar seu coração acelerado. Piter hesitou, mas então se deitou ao lado dela, mantendo uma distância respeitosa. Ele podia sentir o calor do corpo dela ao lado dele, mas não se atreveu a se aproximar mais.

Por longos minutos, ambos ficaram em silêncio, encarando o teto. A noite parecia se arrastar, cada segundo uma eternidade. Finalmente, Evelyn virou-se para Piter, sua voz suave quebrando o silêncio.

— Piter... vamos apenas... tentar dormir. Disse ela, sua voz quase inaudível.

Piter virou-se para ela, seus olhos encontrando os dela na penumbra. Ele não respondeu, mas lentamente, como se temesse quebrar algo frágil, estendeu a mão e tocou o rosto de Evelyn. Ela fechou os olhos ao sentir o toque, uma lágrima solitária rolando por sua bochecha.

— Vamos tentar. Ele murmurou, sentindo seu próprio coração apertado.

Ele se inclinou sobre ela, sua mão ainda no rosto de Evelyn, e a beijou. Foi um beijo suave, quase tímido, mas carregado de todas as emoções reprimidas que ele sentia. Evelyn não resistiu, retribuindo o beijo com uma tristeza profunda, sabendo que aquele momento, por mais difícil que fosse, era necessário.

A noite prosseguiu lentamente, marcada por toques suaves e gestos hesitantes. Não havia paixão avassaladora, apenas uma tentativa dolorosa de encontrar algum consolo um no outro. Quando finalmente se entregaram ao sono, havia um entendimento silencioso entre eles. Ambos sabiam que o caminho à frente seria árduo, mas naquela noite, ao menos, encontraram um fio de conexão que os uniria de maneira indelével.

E assim, no silêncio da madrugada, Piter e Evelyn se deitaram lado a lado, presos em um casamento que nenhum dos dois havia desejado, mas que agora faziam parte de suas vidas, para o bem ou para o mal.

E tudo corria exatamente como Evelyn havia planejado. Piter estava preso a ela e Emily já tinha se deitado com o Rei Angus. Então não havia chance dos dois ficarem juntos.

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Comments

Iara Drimel

Iara Drimel

É meio incoerente: Agora tudo correu de forma que Evelyn tinha planejado? Evelyn sendo a cobra que é até para querer iludir os leitores

2025-01-21

2

Iara Drimel

Iara Drimel

Evelyn sempre quis o Piter como ela não o desejou?

2025-01-21

1

Iara Drimel

Iara Drimel

Você deveria ter sido esperto quando o rei, pai da Emily o expulsou e ter ido embora, mas não? Foi ser otário em buscar o Angus para o casamentos

2025-01-21

1

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