capítulo 20

Por Miguel/ Pedro

Ouço batidas distantes na porta e abro os olhos lentamente como quem ainda não quisesse despertar,dou uma olhada em volta enquanto me espreguiço e o ambiente rústico não parece em nada com o apartamento onde tenho vivido a pouco mais de um ano , eu adotei um estilo de vida simples e prático com o mínimo de coisas possíveis para não ter trabalho, sou um homem ocupado e a minha rotina não me permite ter surplefuos e olhe que no passado eu já fui um homem muito consumista.

As batidas na porta seguem incessantes e alguém praticamente berra o meu nome como uma gralha esganada então resolvo responder para cessar a agressão aos meus ouvidos.

_ estou indo! Falo enquanto pego um roupão para cobrir a minha nudez e vou abrir a porta ainda de pés descalços.

_ quem está morrendo? Pergunto aborrecido por perturbarem o meu sossego, acredito que se ninguém me perturbasse seria capaz de dormir o dia inteiro. Isso pra mim é um hábito quando estou muito cansado então fico muito irritado quando alguém rouba a minha paz.

_ desculpe Miguel, eu não pensei que estaria de tão mal humor! A mulher se desculpa e talvez eu tenha exagerado um pouco com ela.

_ ok Maira, só espero que não se repita , não gosto de ser acordado quando estou dormindo. Tenho problemas para dormir então prezo muito pelo meu descanso.

_ eu não farei novamente,apenas fiquei preocupada pois como me pediu ontem ,eu preparei uma bela mesa de jantar pra você e você não desceu pra comer,eu vim aqui e o chamei várias vezes mas não obtive respostas então como também não desceu pro café da manhã,me preocupei que algo ruim houvesse acontecido.

_ eu estou bem, só estava muito cansado e acabei caindo em sono profundo ,se era só isso pode se retirar . Mande que preparem uma refeição decente para mim .

_ ok! Vou ordenar que sirvam o almoço, Maria fez galinha hoje. Ah ! já ia me esquecendo,o Dr vilela já está a caminho da fazenda e deve estar aqui pra o acompanhar no almoço.

_ ok! Digo indiferente,tudo o que eu não precisava é desse bajulador de uma figa no meu pé,eu gostaria muito de conseguir fazer a leitura do testamento ainda essa semana para conseguir me livrar desse encosto que se diz administrador da fazenda e muito bem lembrado,vou ligar ainda hoje para o Dr Lucas agilizar todos os preparativos para que isso aconteça o quanto antes.

Tomo um banho rápido ouvindo os protestos do meu estômago que a essa altura do campeonato ronca alto e após me arrumar vestindo a primeira roupa que encontro na mala , desço para almoçar, ainda são onze horas da manhã , mas como estou morto de fome e sei que por aqui a comida fica pronta cedo vou logo fazer uma refeição reforçada.

Me sento na mesa posta e devoto a comida caseira com bastante apetite , limpo a boca no guardanapo e encaro a minha velha babá que me observa com um olhar atento

_ está tudo muito bom,apesar que eu não gosto de galinha. Falo depois de estar farto.

_ o doutor não gosta e quase lambe o prato magina se gostasse. Diz ainda com a sua típica língua afiada.

Maria é uma das poucas pessoas nessa casa que nunca levou desaforo pra casa nem mesmo do todo poderoso coronel que atendia como meu pai.

_ com fome qualquer coisa fica aceitável , minha querida. Digo a desafiando e ela me lança um olhar que conheço bem,Maria só me olhava assim quando eu estava muito encrencado, só o seu olhar de reprovação já me fazia recuar com o rabinho entre as pernas quando eu era criança.

_ como ousa falar mal da comida que se fartou doutorzinho, a sua mãe nunca lhe deu educação? Por falar em mãe,eu estou aqui a muito,mais muito tempo e nunca ouvi falar de você , então Dr me diga uma coisa , de onde você surgiu assim do nada ? Por um causo o senhor é um fio bastardo do coroné?Maria é cirúrgica e certeira em suas palavras e eu fico mudo por um momento pensando em como lhe responder.

_ que foi meu fio,o gato comeu a sua língua ou a engoliu junto com a sua arrogança?

_ tenha calma minha senhora,eu já satisfaço a sua curiosidade, até onde eu sei eu não sou nenhum bastardo,tenho pai e mãe e muito amorosos por sinal , se o seu patrão era um mulherengo eu não sei, até porquê o meu contato com ele foi quase nulo ,eu vivi toda a minha vida,pelo menos desde que eu me lembro no exterior com os meus pais, estudei,me formei e constitui carreira por lá a muitos anos ,mas porque dessa pergunta da senhora? Uso de meias verdades para tentar me esquivar de uma resposta e jogo a bomba no colo da senhorinha que ainda me encara parecendo um lobo prestes a me engolir

_ océ é igualzinho ao menino Pedro seria se não tivesse desvivido tão moço, seu rosto,seus oios,os cabelos e até seu jeito de comer é parecido com o do meu menino, exceto pelo gosto pelo que eu vi,meu moleque adorava a minha comida e quando eu fazia galinhada chupava até os ossos .

_ eu sinto muito ter magoado a senhora dona Maria, não quis causar lembranças difíceis na senhora , porém eu sou uma pessoa completamente diferente do que o Pedro foi ou que ele seria , então não confunda o passado com a realidade, eu acho que a minha chegada afetou muito todos vocês, principalmente a senhora que tanto cuidou e pelo que me parece amava verdadeiramente o meu primo ,porém eu não sou como ele e todos precisam entender.

A senhora me encara com os olhos cheios de lágrimas e eu me levanto da mesa e a abraço com o peito cheio de remorso e culpa por estar sendo tão duro com a minha babá,mas também não posso deixar que a verdade venha a tona então preciso me manter firme.

_ caso a senhora queira se afastar por uns dias,ficar com algum parente até se restabelecer não tem problema.

_ océ está me expulsando da fazenda? O Coroné disse que eu poderia ficar aqui até o meu último hálito de vida , ele era um capeta ,mas sempre pensou e cuidou de mim. Ela fala espantada saindo do meu abraço e apontando o seu dedo questionador sobre mim

_ não,a senhora está entendendo errado minha querida,eu nunca lhe expulsaria daqui,o que eu quis dizer é sair para passear,visitar a sua família e quando quiser pode retornar, a senhora já está deidade e deveria estar aposentada a muitos anos.

_ eu não vou a lugar nenhum, eu nasci,vivi e morrerei aqui, o Coroné já deixou e o que ele falava está falado, não pense que porque é o sono de tudo agora vai se livrar de mim seu moleque.

Ela sai da sala de jantar irritada e eu fico feliz que apesar de ser o monstro que ele era ,o coronel pensou pelo menos no fim da vida da Maria.

Após o almoço eu vou até o escritório e ligo para o advogado que fica de reunir as pessoas e realizar a leitura do testamento dentro de dez dias, eu fico satisfeito com esse prazo e como só resta esperar resolvo ligar para o Ricardo e saber o andamento da investigação sobre o paradeiro da dona Marta.

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