Por Estela
Bato a porta e saio sem olhar para trás afinal já cumpri com o meu papel de boa cidadã e fiz até mais do que podia para ajudar o tal Miguel, só espero não ter me esforçado demais e sem querer prejudicar a minha saúde,agora mais do que nunca eu preciso me cuidar, Emídio me segue atento as minhas palavras,eu nem percebi que estava resmungando alguma coisa quando ele me puxa pelo braço me encarando e perguntando o que aconteceu.
_ eu não entendi o que falou Estela! O que aconteceu aqui?
_ eu ...eu só estava pensando alto, não é nada demais.
_ não é nada demais? O que uma garota seria como você fazia no meio do nada em uma choupana velha com um cara como aquele Estela?
_ por um acaso agora tú é meu pai? Te enxerga moleque ,eu não te devo satisfação da minha vida.
_ é sério Estela? O que tu fazia lá,me conta porque com toda certeza amanhã o teu nome está na boca mardita desse povo linguarudo.
_ e desde quando eu me importo pirralho? Sai pra lá e dirige ligeiro que eu ainda tenho que ajudar a Severina na venda, ela deve está fumando numa quenga comigo. A essas horas já deve ter me xingado e amaldiçoado de todas as coisas possíveis.
_ deve mesmo ! Diz com um sorriso.Não sei como tu aguenta aquela veia.
Eu também sorrio e caminho até a caminhoneta que o meu amigo dirige por aí , Emídio é uma das poucas pessoas que trabalham na fazenda do finado Coroné Guimarães que não são gente ruim igual ao que ele foi,eu o conheço desde moleque e o tenho como um irmão mais novo,na verdade a minha vida sempre foi muito vazia ,carente de afeto ao extremo,nunca tive pai ,nem mãe e muito menos algo ou alguém que fosse de fato meu ,porém eu não me recinto por isso, sou grata pela dona Severina ter me acolhido e mesmo que ela me trate como o seu burro de carga nunca me faltou um prato de comida e uma cama quentinha para dormir a noite, é verdade que o seu tratamento reflete muito na maneira como ela também foi criada e eu não quero isso para o meu filho, então preciso arranjar um jeito de me esquivar de toda essa confusão que eu me meti, não sei porque não ouvi os concelhos da dona Severina, se tivesse ouvido o que ela sempre me disse e não me deixasse seduzir por as promessas vazias daquele canalha agora não estava nessa confusão.
_ no que está pensando Estela? Océ tá calada demais logo océ que não cala essa matraca hoje não quer dizer nada é estranho isso.
_ eu estou cansada Midinho, aquele homem moribundo pesa igual a chumbo e eu quase o carreguei até a cabana de caça dos atirador daqui.
_ océ conhece o Dr migué de onde mesmo Estela?
_ eu nunca o tinha visto mais gordo meu amigo, só fui pensar um pouco lá pras bancas do penhasco e vi ele cair do cavalo igual uma jaca podre, não podia deixar o homem sangrando sozinho no meio do relento né?
_ eu já cansei de te avisar que andar pras quelas bandas é perigoso Estela, tu não toma jeito Muié.
_ lá é um dos lugares preferidos e eu o conheço com a palma da minha mão, não tem perigo pra mim por lá Midinho. Tu se preocupa demais.
_ chegamo! Quer que eu te ajude a amansar a fera?
_ precisa não, vai embora logo, antes que sobre pra tu também, eu já tô até preparando os meus ouvidos pro sermão que vou ter que ouvir. Abro a porta do carro e lhe dou as costas antes que a conversa se prolongue e eu me atrase ainda mais.
_ tá bom, eu vou voltar lá pra ver se ainda precisam de mim,se cuida mana , você é muito importante para mim.
As palavras de Midinho fazem os meus olhos se encherem de lágrimas,mas eu não deixo ele perceber ,o meu amigo nem faz ideia do tanto que eu estou sofrendo e como me sentir importante para alguém é comovente para mim nesse momento.
Sigo para a entrada dos fundos da venda sem olhar para trás e apenas ouço o som do carro se afastar cortando a estrada ,respiro fundo e abro a porta e antes mesmo de entrar encontro o olhar afiado da senhora que me criou fixo sobre mim e as minhas roupas ensanguentadas.
_ meu Deus do céu! O que aconteceu com océ garota? Ela pergunta arregalando os olhos e soltando a colher engordurada que mexia uma panela sobre a pia vem o mais rápido que consegue ,pois a idade e o excesso de peso não lhe permite mais correr.
_ eu...eu estou bem,esse sangue não é meu dona Severina. Digo assim que consigo respirar do seu abraço apertado. Não me lembro quando foi a última vez que recebi um abraço de urso desses da minha benfeitora ,mas confesso que estava precisando disso.
_ se não é seu ,de quem todo esse sangue moleca? Onde se meteu até essas horas? Pergunta assim que me solta dos seus braços ainda com o olhar fixo em mim.
_ eu ajudei uma pessoa que se acidentou! Ele estava sangrando muito e ficou inconsciente.
_ e tu não tem medo de sangue? Ah não quero saber,vai te embora tomar um banho e servir as mesas ,océ foi muito irresponsável e me deixou na mão com a venda cheia .
_ sivirina mais duas sopas ! O Ze carlos entra na cozinha desajeitado com um pano de prato no ombro e uma bandeja vazia nas mãos.
_ o que aconterceu? océ tá bem minina Estela?
_ ela está ótima! está fugindo do trabaio isso sim.dona Severina toma a minha fala e manda autoritaria que eu vá me lavar e venha assumir o meu posto no balcão do bar.
Tomo um banho rápido lavando todo o meu corpo do odor do sangue que parece entranhado nas minhas narinas fazendo o meu estômago se revirar e acabo vomitando uma água verde que não sei de onde saiu , respiro fundo tentando me recompor ,porém o mal estar demora a passar ,ainda me sinto mal quando ouço as batidas fortes na porta de madeira e ouço a voz enfarenta da minha chefe gritando por mim
_ já estou indo ! Digo me forçando a me recompor,visto uma roupa qualquer e desço para servir as mesas tentando pelo menos parecer bem .
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Atualizado até capítulo 76
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