Capítulo 2: Tempestade de Emoções

Osvaldo dirigia pelas ruas de Luanda, mas o caminho parecia um borrão. A dor da traição de Celma queimava em seu peito como se fosse uma ferida aberta, e as palavras dela ecoavam em sua cabeça. "Eu falhei contigo... eu te traí." Ele apertava o volante com tanta força que seus dedos estavam brancos, e a raiva misturava-se com uma tristeza profunda.

A cidade, sempre viva, pulsava ao seu redor. O tráfego noturno, as luzes dos postes, o movimento das ruas. No entanto, tudo parecia distante, como se ele estivesse preso em uma bolha de pensamentos. Celma, a mulher que ele amava, o traiu. Mas o que mais o incomodava era que, mesmo depois de tudo, ainda existia uma sombra daquele amor. Parte dele ainda não estava pronta para desistir. A decisão que ele precisava tomar moldaria seu futuro e o de seu casamento.

Osvaldo vagou sem rumo por um tempo. A janela aberta deixava o vento quente da cidade bagunçar seus cabelos, e a música melancólica que tocava no rádio se misturava aos seus pensamentos caóticos. Finalmente, ele avistou um lugar familiar: o bar La Camiche, um lugar onde ele costumava se reunir com os amigos nos dias mais leves, quando a vida com Celma ainda era simples, antes dos problemas, antes da traição.

Sem pensar muito, Osvaldo estacionou o carro em frente ao bar e entrou. O La Camiche não estava cheio naquela noite. Algumas mesas estavam ocupadas por casais e pequenos grupos de amigos, mas o clima era calmo. Ele se sentou no balcão, em seu banco habitual, e olhou para o barman.

— O de sempre, Osvaldo? — perguntou o barman, João, um homem de meia-idade que conhecia Osvaldo há anos.

— É, traz logo isso, — respondeu Osvaldo, com um aceno desanimado.

João serviu-lhe um copo de uísque e o colocou diante dele. Osvaldo pegou o copo e, sem pensar muito, tomou um longo gole. O calor do álcool desceu pela sua garganta, mas não fez nada para amenizar a dor em seu peito. Ele olhou para o copo, girando-o entre os dedos, perdido em seus próprios pensamentos. A imagem de Celma e a traição voltavam à sua mente, incessantemente.

Enquanto ele tomava o segundo gole, lembrou-se de algo. Ela mencionou o nome do homem... Paulo Tomás. Ele sabia que precisaria descobrir mais sobre esse sujeito, mas, por enquanto, sentia-se paralisado pela dor e pela raiva. No fundo, ele também se perguntava se poderia superar isso. A ferida era profunda, e ele não sabia se era capaz de perdoar.

Com o bar ainda silencioso ao seu redor, Osvaldo olhou em volta e viu alguns rostos familiares. Em uma mesa do canto, estavam dois amigos de infância: Manuel e Didi. Ambos bebiam e conversavam, mas quando Manuel notou Osvaldo, levantou a mão em um cumprimento casual.

Osvaldo se levantou do banco e, ainda com o copo de uísque na mão, caminhou até a mesa onde os amigos estavam.

— Epá, Osvaldo! Que te traz aqui a essa hora? — perguntou Manuel, sorrindo. — Não é costume te ver no La Camiche sozinho.

Osvaldo balançou a cabeça, deixando o copo na mesa.

— Tá feio, mano... — disse ele, sem rodeios. — A Celma... traiu-me.

Didi e Manuel se entreolharam, surpresos com a revelação. O silêncio caiu sobre eles, quebrado apenas pelo som de copos e talheres nas mesas ao redor.

— Não acredito... a Celma? — Didi murmurou, ainda em choque.

Osvaldo assentiu, esfregando o rosto com as mãos, como se tentasse acordar de um pesadelo.

— Aí, mano, é complicado, — Manuel disse. — Mas o que vais fazer?

Osvaldo suspirou, sentindo o peso da pergunta. Ele ainda não sabia a resposta. Tudo estava confuso, a traição doía, mas parte dele ainda queria entender.

— Sei lá... mas tenho que descobrir mais sobre esse tal de Paulo... Paulo Tomás. Já ouviram falar desse gajo? — perguntou, esperando que algum deles soubesse alguma coisa.

Os amigos trocaram olhares. Didi, sempre curioso e bem-informado, franziu o cenho e coçou o queixo.

— Paulo Tomás? Hmm... não conheço ninguém com esse nome, mas... — Ele olhou ao redor do bar, tentando puxar pela memória. — De que bairro é o gajo?

Osvaldo deu de ombros.

— Não sei, só sei que se meteu na vida dela lá na academia. Ela falou de amizade, mas tu sabes, né? Sempre começa assim.

Manuel coçou a cabeça, pensativo.

— Na academia? Epá, academia é só esquema... Essas coisas acontecem, mano. Se tiveres cuidado, vais acabar descobrindo mais. Luanda não é assim tão grande.

Didi, no entanto, continuava pensativo.

— Há muitos Paulos por aí. Mas se ele anda nesses lugares, alguém aqui deve saber... ou vai acabar ouvindo falar. Deixa passar uns dias, vais ver.

Osvaldo não respondeu de imediato. Ele tomou mais um gole de uísque e olhou ao redor do bar, tentando processar tudo. O ambiente familiar do **La Camiche** não oferecia mais o conforto de antes, mas, por algum motivo, ele se sentia mais à vontade ali, cercado pelos amigos, do que sozinho em casa com Celma.

— Olha, mano, — Manuel começou, quebrando o silêncio. — Eu sei que isso não vai ser fácil, mas... tu tens que te perguntar se vais querer lutar pelo vosso casamento. Ou se vais preferir largar tudo.

Osvaldo balançou a cabeça.

— Isso que tá me a matar, Manuel. Eu ainda a amo... mas como é que eu vou confiar nela de novo?

Didi, sempre direto, disse:

— É difícil, irmão. Não te vou mentir. Mas às vezes, o amor consegue passar por cima das merdas que a gente faz. A pergunta é: tu achas que ela vai mudar? Ou tu vais ficar a carregar essa dor pra sempre?

Osvaldo ficou em silêncio, olhando para o fundo do copo de uísque, vazio agora. Ele sabia que as palavras dos amigos tinham peso. A escolha era dele. Ou ele tentava perdoar e seguir em frente com Celma, ou aceitava que o casamento estava acabado e partia para uma nova vida. Mas, no fundo, ele sabia que não seria tão simples.

O barman, que observava tudo de longe, aproximou-se novamente e, com um sorriso discreto, encheu o copo de Osvaldo sem precisar que ele pedisse.

— Às vezes, meu amigo, o caminho que escolhemos não é o mais fácil, — disse o barman, quase como se estivesse lendo os pensamentos de Osvaldo. — Mas é o que temos de percorrer.

Osvaldo sorriu sem humor e tomou mais um gole. As palavras do barman ecoavam na sua mente. Sabia que o caminho à sua frente seria difícil, mas também sabia que precisava decidir logo. Cada minuto que passava parecia puxá-lo mais fundo em sua própria indecisão.

As horas foram passando, e o bar começou a esvaziar. Osvaldo ficou sentado com os amigos, conversando, mas suas palavras se tornavam cada vez mais espaçadas, cada vez mais silenciosas, à medida que sua mente vagava de volta para Celma, para as palavras dela, para a traição.

Finalmente, quando o relógio já marcava quatro da manhã, Osvaldo percebeu que não poderia fugir para sempre. Precisava voltar para casa, enfrentar a situação. Ele se levantou, um pouco vacilante devido ao álcool que havia consumido, e olhou para os amigos.

— Vou nessa, mano. Valeu pela força.

Didi e Manuel assentiram, e Manuel apertou o ombro de Osvaldo.

— Vai com calma, mano. A vida tem dessas.

O barman, que não deixou de prestar atenção, caminhou até Osvaldo e falou com uma expressão preocupada.

— Mister Osvaldo, já chamei um táxi pra si. Não dá pra conduzir assim.

Osvaldo assentiu com gratidão. Ele sabia que não estava em condições de dirigir, e a última coisa que precisava agora era de um acidente. O táxi chegou, e ele entrou, dirigindo-se de volta para casa.

Enquanto o táxi percorria as ruas tranquilas de Luanda, Osvaldo olhou pela janela, vendo as luzes e as sombras se misturarem na madrugada. Sabia que quando chegasse em casa, teria que enfrentar Celma, a realidade de seu

casamento e o que ele realmente queria para o futuro.

Mas naquele momento, enquanto o táxi avançava pela cidade adormecida, Osvaldo ainda estava preso entre o amor e a dor, entre o perdão e a raiva. Ele sabia que, de uma forma ou de outra, a escolha precisava ser feita.

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