Sentir lentamente o despertar de minha fera à medida que me aproximava dela, fora da minha casa, quando já estávamos sozinhos. Percebi meus próprios batimentos cardíacos acelerarem, enquanto minha audição se concentrava no pânico do pulso dela e sua respiração rápida. Podia sentir que ela estava nervosa. Suas mãos alisavam uma a outra na frente de seu vestido, e seu cheiro de pêssego se tornava mais evidente para mim. Perguntava-me se o seu nervosismo era por minha causa, mas antes que eu pudesse evitar, aquela dúvida se transformou em palavras e saiu de minha boca.
— Eu te deixo nervosa, Aurora? — Ela me olhou por um instante, mas depois desviou o olhar para frente. Notei a cor de sua pele mudando um pouco e percebi que ela não queria que eu notasse aquilo. Nesse momento, meu lobo só ansiava por possuí-la.
— Eu apenas não estou acostumada a tudo isso. Nunca tive a companhia de outras pessoas que não fosse da minha família, especialmente do sexo masculino. Vivia em uma comunidade onde era obrigada a seguir regras, mesmo não aceitando muitas delas. — Me perguntei que tipo de comunidade era essa.
— Você não tinha amigos? Notei que entende de ferimentos, então provavelmente estudou para isso. — A questionei, tentando entender toda aquela situação. Ela me olhou por um momento.
— Eu cursava medicina. — Essa informação me surpreendeu, e ela percebeu isso, tanto que tinha um sorrisinho no rosto. — Mas a organização da qual meus pais fazem parte é muito fechada em relação aos seus membros. Não podíamos ter amizades com pessoas de fora de nosso círculo. Eu podia estudar, mas não podia ter amigos. O que estou fazendo aqui com você era impossível. — Ela falou sem me olhar, mas observando a paisagem.
— Seus pais nunca consideraram deixar essa organização? Você nunca lhes disse que estava infeliz com tantas regras?
— Antes de eu nascer, Logan, meus pais já eram membros dessa organização. Não tenho certeza se meus avós também faziam parte dela, mas é bem provável que sim. Para eles, essa é a única vida que conhecem, e eles encontraram felicidade nisso. A infelicidade era minha, não deles. Assim, era mais fácil para me adaptar do que ver minha família inteira infeliz.
— Contudo, dessa forma, Aurora, você estava anulando sua própria felicidade, e, na minha opinião, isso não parece justo. Você também tinha o direito de ser feliz.
— Mas, Logan, apesar de tudo, eu era feliz! Simplesmente não conseguia aceitar a regra idiota de ter meu marido escolhido por essa organização.
— Eles escolheram seu marido? — A olhei surpresa, pois nem eu, e muito menos meu lobo, aceitaríamos isso. Ninguém tinha o direito de escolher nossa companheira, exceto nós mesmos.
— No momento que nasci. – Aquilo se tornou mais bizarro. — Uma das regras é justamente essa. Eles escolhem o cônjuge do filho primogênito de cada família, independente do sexo. A regra se aplicava para todos.
— Eu destruiria tudo antes de ser imposto a isso! — Terminei falando, e ela começou a rir. Daria qualquer coisa para ver aquele sorriso no rosto dela mais algumas vezes.
Caminhamos mais um pouco até chegarmos à vila. Todos ali tinham conhecimentos dos lobos, mas não sabiam que podíamos nos transformar em humanos e que vivíamos entre eles. E não era apenas minha família que possuía essa habilidade. Outras famílias também eram metamorfos, mas sempre mantivemos isso muito bem escondido. Os humanos não compreenderiam a nossa verdadeira natureza e, se descobrissem, poderíamos acabar sendo caçados ainda mais do que já éramos.
Aurora estava encantada com tudo aquilo. Parecia que a garota não havia aproveitado muito a vida. Agora eu a entendia um pouco mais e compreendia por que ela tinha vindo parar aqui. Talvez, se estivesse no lugar dela, eu teria feito o mesmo, ou até algo pior, considerando as habilidades que tenho. Meu lobo ficou inquieto só de pensar na ideia de ser forçado a aceitar uma companheira que não foi escolhida por ele.
Aquilo parecia ser excessivamente injusto para qualquer pessoa. De longe, observei um tumulto acontecendo. Notei um garoto correndo em nossa direção, enquanto um dos comerciantes corria atrás dele. Provavelmente, aquele garoto pegou aquele pão em sua mão, mas não pagou por ele. Sabia que isso era errado, mas o garoto provavelmente estava apenas com fome. Então, assim que o garoto passou por nós e o comerciante quase o alcançou, coloquei discretamente meu pé na sua frente, fazendo-o tropeçar e cair, dando ao garoto a chance de escapar de ser pego. Assim que o homem se levantou, ele nos olhou.
— Peço desculpas, meu nobre senhor, por esse incidente. Permita-me compensá-lo, pagando pelo item que foi levado. — Então, entregue-lhe uma moeda de ouro, e ele voltou para sua barraca mais do que satisfeito com isso. Provavelmente, ele recuperaria o pão, mas o item não seria mais adequado para comercialização. Aurora olhou para mim, tentando disfarçar o riso.
— Foi muito nobre de sua parte o que fez pelo garoto. — Percebi que ela havia notado o que fiz e que não encarou como um simples acidente, como a maioria das pessoas teria feito. Ela estava atenta a cada detalhe e era muito perspicaz.
— Muitas pessoas não têm as mesmas oportunidades que outras. Não acho justo uma pessoa ter que passar fome. Aquele garoto não roubou nenhum bem material, apenas um pedaço de pão. — Percebi admiração em seu olhar, o que me deixou satisfeito, pois sabia que ela compartilhava da mesma opinião que a minha.
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Atualizado até capítulo 61
Comments
Maria Ishizuka
muito bom mesmo 😊😊😊😊😃 Maria ishizuka abraços 💞🙏🙏❣️💕
2025-01-14
0
Fátima Ramos
De lobo mau não tem nadakkk
2025-02-01
0
Silvia Araújo
nobre, que legal 😎
2024-08-31
1