Chegamos a nossa casa, eu estaciono o carro e desço, abrindo a porta de trás, mas quando vou estender a mão para ajudar minha oncinha a descer, noto que ela está dormindo.
- Olhando assim, quem diz que é tão brava?! Parece um anjo quando dorme. - suspiro e, quando minha irmã sai do carro, eu inclino meu rosto mais próximo ao dela, olhando cada detalhe do rostinho de menina. - Tão delicada, minha Line.
- Meu filho, você...
- Shhhh! - faço um sinal de silêncio para minha mãe, que olha com carinho para a minha pequena. - Ela deve estar cansada da viagem. - digo, baixo e minha mãe concorda.
- Bom, não podemos deixá-la dormindo no carro. - ela me olha, pensativa.
- Posso levá-la até o quarto dela. - sugiro.
- Antes do casamento? Nem pensar! - minha mãe diz, séria. - Não pode tocá-la, Zayn! Sabe disso muito bem, conhece os costumes!
- Sim, os conheço bem, e também as consequências de desobedecer ou transgredir qualquer um deles. Mas estamos dentro dos muros de nossa casa, ninguém veria e eu serei cuidadoso para não faltar com respeito a ela, minha mãe.
Minha mãe parece ponderar o que eu disse, e logo meu pai aparece e olha Aline dormindo tranquila no banco do carro.
- Zayn, me dê licença! - ele fala, já me afastando do carro. - Yas, meu amor, pode por favor pegar algo para cobrir as pernas de nossa nova filha? Eu a levarei até o quarto, para que descanse de uma forma mais confortável.
- Meu pai, não há necessidade, eu mesmo farei isso! - afirmo.
- Meu filho, se lembra da conversa que tivemos, onde você me disse que teriam apenas um casamento de aparências? - mesmo a contra gosto, eu assinto, pois foi verdade. - Pois bem, em um casamento de aparências, você sequer tocará em nossa Aline, portanto, não vou permitir que a carregue nos braços, pois isso seria total falta de respeito com uma moça a qual você rejeitou o contato, antes mesmo de se casar. Eu, como um pai e guardião dessa moça, já a vejo como uma filha, e o mesmo carinho que dedico a Aisha, dedicarei também a Aline a partir de hoje, e pode estar certo, que a defenderei até mesmo de você, se preciso for.
- De mim? - o encaro, confuso. - Porque teria que defendê-la de mim? Sou o futuro marido dela, meu pai!
- Bom, se continuar pensando em condenar essa moça a um casamento de mentiras e fingimento, talvez não precise se preocupar tanto, pois eu e seu pai temos planos para Aline, que não hesitaremos em pôr em prática, caso esse casamento de vocês não se torne real, não se preocupe. - minha mãe é quem responde. - Aqui está, meu marido, a manta para cobrir o corpo de nossa menina e não deixar que fique nada a mostra. - ela põe a manta cuidadosamente sobre as pernas da minha pequena, e meu pai a pega nos braços e junto com Aisha, saem em direção ao andar de cima.
- Minha mãe, porque estão me tratando dessa maneira? Acaso sou um mau filho para tanta hostilidade?! - reclamo, indignado.
- Não estamos sendo hostis, Zayn. Nem tão pouco estamos te tratando mal. Apenas estamos zelando pela honra de nossa nova filha. Temos funcionários nessa casa, e me diga, o que seria da honra dessa moça, que mal chegou a nossa casa, se a vissem em seus braços sem ao menos terem um acordo de casamento assinado? Pior ainda, sendo levada até o quarto por você, mesmo que estivessem acompanhados, sabe bem como são os costumes e ainda mais, como é a língua dos difamadores. Certamente ela seria ainda mais discriminada e olhada com desprezo, considerada como uma mulher impura por muitos.
Meneio a cabeça, respirando fundo. Minha mãe tem razão! Mais uma vez eu agiria por impulso, mesmo sendo por um bom motivo, mas deixaria margem para uma má interpretação e minha Line poderia ser mal vista.
- Tudo bem, minha mãe, eu entendo. Obrigado por me fazer enxergar as coisas de outro modo. Mas algo me incomodou, o que a senhora quis dizer com ter planos para Aline caso nossa união não se torne real? Estaremos casados!
- Sim, estarão casado, meu filho. - ela me olha, firme. - Mas assim como seu pai, antes de nos casarmos, você pensa em não consumar seu casamento e viver apenas como uma espécie de amigo dessa moça, tirando dela o direito de se casar com um homem que a queira de verdade e queira construir uma vida ao lado dela, uma família... Assim como seu avô Yousef tinha planos para mim, eu também tenho planos para Aline.
- Não podem separá-la de mim! - digo, sério. - Sequer tivemos chance de nos conhecer, trocamos poucas palavras, as quais em sua maioria, foram farpas.
- Farpas essas que poderiam ser evitadas, caso você agisse com a razão e não feito um leão, defendendo a cria, quase voando sobre a moça e a sufocando querendo impor nossos costumes de andarmos cobertas, e esquecendo totalmente que a realidade da cultura em que Aline cresceu é totalmente diferente da sua! - ela parece cansada. - Meu filho, não vou discutir com você, pois não posso ficar nervosa, mas peço que reflita sobre a situação.
- Minha mãe, sei que pareceu imaturo da minha parte, mas não foi! Eu estava apenas querendo protegê-la dos olhares maldosos dos homens e julgadores das mulheres.
- Que bom, isso se chama instinto de proteção, Zayn. Mas não estou falando sobre isso, e sim sobre o que vem aqui. - ela põe a mão sobre o meu coração. - Você julgou estar apaixonado por Hadassa por muito tempo, e para evitar um casamento que só traria tristeza para a sua vida e problemas para todos nós, aceitou esse arranjo de casamento com Aline. Agora está irritado por não poder levar sua prometida nos braços até o quarto dela, mesmo sabendo que vai contra nossos costumes.
- Eu apenas... - começo, mas minha mãe me impede de falar.
- Escute, Zayn... - ela respira fundo, fecha os olhos e permanece assim por um tempo, até me encarar novamente, de um jeito carinhoso, enquanto acaricia meu rosto. - Eu o amo e apenas desejo que seja feliz. Não pense que digo ter planos para Aline caso você decida viver condenando esse casamento a uma mentira, para te pressionar ou punir, não meu filho... quero apenas que pense, reflita e tome a decisão que julgar acertada para sua felicidade, mas entenda que, a partir de agora, não será só a sua felicidade a depender da decisão que tomar, mas a felicidade daquela moça linda e forte, também dependerão de sua decisão.
- Eu sei, minha mãe... só me sinto confuso. Eu não posso ter sentimentos por alguém que acabei de conhecer... ou posso?! - realmente é confuso e inquietante.
- Talvez sim, mas isso só seu coração poderá dizer. Não estou te dizendo que tem que saber se a ama ou não agora, estou dizendo que pode dar aos dois,a chance de descobrirem e construírem um sentimento juntos. Não será fácil... - ela sorri. - Nossa Line está assustada, se sentindo perdida, está sofrendo ainda, a dor do luto é recente. Ela se defendeu da forma como você a tratou, mas quando foi recebida com amor, por mim e nossa família, foi educada, doce e gentil, como eu acredito que ela seja de verdade.
- Percebi isso quando fui pôr o cinto de segurança e ela me agradeceu. - dou um leve sorriso.
- Viu? Meu filho, reagimos a maneira como somos tratados, é humano e natural! Se recebemos espinhos, porque dar sempre flores em troca? Gentileza se paga com gentileza, Zayn! Aline está se sentindo perdida, sei bem qual a sensação de estar em um país estranho, prestes a se casar com alguém que sequer ela teve a chance de conhecer ou escolher. Sei que você também não a escolheu, mas cresceu sabendo que se casaria por uma arranjo, já ela? Não, ela nem fazia ideia!
Realmente, como sempre, minha mãe em sua sabedoria, tem razão.
- Minha mãe, como posso fazer para que ela se sinta bem? Para que não me veja como um inimigo, mas como alguém que pode fazê-la feliz?
- Se deseja realmente isso, seja gentil. Não a recrimine por não saber sobre nossos costumes, deixe que eu e Aisha ensinaremos a ela tudo o que for possível sobre as vestes, as maquiagens, as danças, tudo sobre nosso povo. Você, como marido, será o protetor, mas também a ensinará com sabedoria e paciência, pois imagine um bebê, que está dando seus primeiros passos, ele terá quedas, fará coisas certas, mas erradas também... Assim é a nossa Line! Ela está aprendendo, então teremos paciência, amor e muito carinho em ensiná-la, passo a passo, até que ela possa caminhar sozinha, e teremos um imenso orgulho de ter contribuído para o crescimento dela.
Sorrio levemente e abraço minha mãe, beijando sua testa.
- O que seria de nós sem seus conselhos, minha rainha?
- Sinceramente?! Um bando de avestruzes perdidos no deserto! - nós dois rimos.
Mas essa é a verdade, sem a sabedoria de Yasmin Harmud, estaríamos perdidos!
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Atualizado até capítulo 72
Comments
Rosangela Lelis Pedro
Cada capítulo com Yasmin é muito bom.
2025-02-05
1
Marcia Cristina Carneiro
sabedoria e tudo 22/12/24/
2024-12-23
0
Andreia Gregorio
Zayn tomou 1×0 do pai!🤣🤣🤣🤣🤣
2024-11-28
5